Parece ser este o resumo dos últimos dias, desde a comunicação de Passos Coelho até à intervenção de Vítor Gaspar.
Pelo meio fica um extraordinário agravamento da austeridade. Pelo meio fica uma extraordinária incapacidade para explicar as medidas adoptadas.
Sexta-feira, Passos Coelho anuncia a reformulação da TSU, mas não explica toda a sua extensão. A confusão instala-se. Esta terça-feira, Vítor Gaspar anuncia às pinguinhas novas medidas, mas não abre o jogo todo. Por exemplo, não explicou qual o alcance da redução dos escalões de IRS e explicou muito pouco como vai agravar o sacrifício já pedido aos pensionistas. Pouco minutos depois, Paulo Portas remete-se solenemente ao silêncio, afirmando, com sentido de estado, que só fala depois de ouvir o partido. (Passos Coelho não ouviu o PSD. Nem mesmo o Governador do Banco de Portugal).
Basta ler os comentários dos cibernautas às notícias aqui publicadas, para se perceber que praticamente ninguém está a entender o que governo comunica. Digo entender e não aceitar. São coisas diferentes.
Este é um governo bipolar, onde cada um gere uma estratégia de comunicação diferente. Passos Coelho é duro no anúncio e pede desculpa no Facebook; Vítor Gaspar é consistente consigo próprio e não pede desculpa a ninguém; Paulo Portas parece querer escapar por entre os intervalos da chuva.
No fundo ainda ninguém percebeu qual o alcance real das medidas anunciadas. Há um nevoeiro na comunicação que apenas deixa perceber algumas sombras, mas que parece esconder um iceberg.
Num momento tão grave exige-se a um governo uma outra responsabilidade, uma outra consistência, uma outra clareza, um outro discurso.
Se até agora ninguém gostou da austeridade foi, contudo, entendendo a necessidade das medidas adoptadas. Desde sexta-feira até hoje o governo desbaratou todo este eventual crédito.