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Filipe d'Avillez

Opinião: Carta aberta a D. Manuel Monteiro de Castro

19 fev, 2012 • Filipe d'Avillez

Sua eminência, antes de mais os meus parabéns. Pelo que disse hoje o Santo Padre: “A nova dignidade que vos foi conferida pretende manifestar o apreço pelo vosso trabalho fiel na vinha do Senhor”, mas também, “homenagear as comunidades e nações de onde provindes”, pelo que a sua inclusão no Colégio dos Cardeais é algo que deve encher de orgulho e alegria todos os portugueses.

Na passada sexta-feira foi publicada uma entrevista sua no Correio da Manhã. Nela disse o seguinte, para ilustrar o pouco apoio que, na sua opinião, o Estado dá à família: “A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos.”

Qualquer pessoa cuja capacidade de leitura não esteja subordinada ao preconceito feroz, compreende que uma das palavras-chave aqui é “poder”. A mulher deve “poder” ficar em casa. Subentende-se que deve “poder” se assim quiser, se assim a família entender, se assim escolher.

Mas qual foi a manchete escolhida pelo Correio da Manhã? “Mulher deve ficar em casa”, obviamente. Mas não ficou por aí. O Público pegou na mesma entrevista e, na sua edição on-line, fez eco dela com o título: “Novo cardeal português defende que função ‘essencial’ da mulher é educar os filhos”.

Sim, eu sei que não foi isso que o senhor disse. O que disse, como vem citado, foi que a mulher é essencial na educação dos filhos e não que essa é a sua função essencial. O sentido é radicalmente diferente. Eu percebo isso, imagino que os meus colegas no Público e no Correio da Manhã também o tenham percebido, tanto que o Público acabou por alterar o título para reflectir melhor o verdadeiro sentido das suas palavras. Contudo, o que circula agora pelas redes sociais não é a versão alterada, é a original.

Até há cerca de um mês a esmagadora maioria dos portugueses nunca tinha ouvido falar de si. Compreende-se, uma vez que grande parte da sua missão ao serviço da Igreja foi desempenhada fora do país. Agora, contudo, todos os seus movimentos serão observados e, acima de tudo, todas as suas palavras serão escrutinadas e, em não poucos casos, manipuladas e distorcidas para servir os preconceitos de quem se alimenta do ódio contra a Igreja que serve.

Não bastará que evite dizer coisas que ferem a Igreja, é preciso colocar as coisas em termos tão claros que não seja possível compreendê-las de forma errada. Peço-lhe que tenha sempre presente as palavras de Cristo: “os filhos deste mundo são mais sagazes que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes” (Lc. 16, 8).

Desejo-lhe, senhor cardeal, as maiores felicidades no cumprimento da sua nova missão!