A+ / A-

É possível cumprir a lei e ser um bandido, diz César das Neves

02 out, 2017 - 23:48

Um dos autores do livro “Ética aplicada à Economia” explica que o problema da desigualdade é mesmo uma ameaça à sobrevivência mundial e garante que o Papa não é anticapitalista.
A+ / A-

É possível aplicar todos os regulamentos nos mercados financeiros e ser um bandido, considera o economista João César das Neves. Esta verdade, acrescenta, aplica-se não só aos mercados e à banca, mas à economia em geral.

O professor catedrático, um dos coordenadores do livro “Ética aplicada à Economia”, sublinha assim o papel da ética, embora deixe claro que não exista apenas uma: “Não há nenhum sítio tão regulado como o mercado financeiro, mas o problema de fundo é com que atitude vamos aplicar essas regras e regulamentos. É possível cumprir os regulamentos todos e ser um bandido. Portanto isto tem a ver com a atitude de fundo da ética e a ética tem a ver com um problema mais de fundo, quem sou eu? De onde vim e para onde vou? A ética depende de uma atitude de fundo da pessoa perante o mundo.”

“Por isso é que a Igreja Católica, ao partir de Cristo, tem uma visão do mundo de onde sai uma ética. Outras visões do mundo têm também as suas éticas, que às vezes conflituam com a ética católica”, explica.

No trabalho são frequentes situações em que a ética se confronta com a legislação. Não é difícil encontrar notícias sobre empresas que garantem ter agido dentro da lei, mas cujas acções são questionáveis. Os autores defendem que a moral é mais exigente do que a lei.

“Se as pessoas são boas e querem fazer o bem, a lei ajuda, orienta, mas as pessoas vão aplicar a lei de forma equitativa. Agora, um bandido pode cumprir a lei e o tribunal pode não lhe tocar mas ele pode estar a ser tremendamente injusto para com as pessoas.”

“A lei não deve substituir a nossa consciência, deve ser usada de forma responsável por quem quer fazer o bem, mas também pode ser mal usada. O último juízo é sempre da consciência”, alerta César das Neves.

Éticas antiéticas

Algumas empresas usam a ética como uma ferramenta de marketing, mas os autores garantem que a ética e a economia, embora possam parecer realidades contraditórias, não se excluem, quanto muito é um movimento que peca por defeito: “Há um grande movimento nas empresas que, como tudo, tem bons e maus momentos. Por vezes há hipocrisia, pessoas que estão só a fingir, muitas vezes em empresas que tiveram um grande sucesso depois acaba tudo na cadeia porque de facto por detrás daquilo estava uma aldrabice.”

“Há outro problema muito importante, aliás o Papa Bento XVI falou disso na ‘Caritas in Veritate’: não basta ser ético, é preciso saber qual ética, porque há muitas éticas e algumas éticas são de facto antiéticas de outro ponto de vista, em particular do ponto de vista da Igreja. Por isso muitos desses movimentos por mais éticos que sejam acabam precisamente por ser ao contrário, mais valia que não fossem, porque ao usarem uma ética desumana, digamos assim, acabam por ter efeitos exactamente ao contrário.”

“E portanto este é um movimento muito importante, é bom que exista, o Papa Bento XVI e o Papa Francisco têm dito isso várias vezes, mas é preciso ter cuidado, não chega, não podemos descansar a responsabilidade e a consciência", defende.

Numa altura em que muito se fala de desigualdade, João César das Neves recorda que este problema é muito sério, mas não há soluções instantâneas. “Em todas as época de aceleração do crescimento há um aumento da desigualdade e por isso é preciso depois tomarmos medidas para combater essa desigualdade. Da última vez que tivemos uma aceleração destas a irritação foi tal que levou a duas guerras mundiais e quase que ia destruindo a humanidade. Portanto a ameaça não é pequena, é dramática.”

“Como é que se combate a desigualdade? Temos uma enorme quantidade de investigações, o livro também trata disso, temos muitas medidas que são propostas, algumas mais dramáticas, outras quase revolucionárias, mas vamos tentar lidar com um problema que não é nada fácil, não há soluções óbvias, não vale a pena termos ilusões. O problema é grave, é estrutural, se fosse só a maldade de algumas pessoas conseguia-se resolver e há neste momento muitos mecanismos, aliás estamos a assistir a uma enorme quantidade de políticos e de Governos a tentar lidar com esta questão, mas não há nenhuma resposta evidente.”

Papa anticapitalista?

Muitos críticos do capitalismo apontam para o Papa Francisco como uma grande figura mundial que critica o estado actual da economia mundial. Mas o Papa não está a dizer o que muitos pensam que está a dizer, considera o economista.

“O Papa Francisco tem uma preocupação de pastor, de pai. Está preocupado com os pobres e de facto os pobres que nós temos são criados pelo capitalismo, até porque os outros sistemas não existem., portanto só podia ser por isso. Por isso claro que as críticas que o Papa Francisco faz ao capitalismo são para chamar a atenção. Isto não quer dizer, como a maior parte das pessoas interpreta, que o Papa está a propor outro sistema, ele não está a propor outro sistema, está a propor conversão. Está a propor Jesus Cristo. Está a propor que vivamos no sistema de uma forma elevada.”

“Tem uma forma mais contundente que os outros não tinham, mas está a dizer o mesmo, aliás repete sucessivamente que está apenas a aplicar a doutrina social da Igreja”, sublinha César das Neves.

“Ética Aplicada à Economia” é o mais recente volume, que será lançado esta quarta-feira, de uma colecção de livros que reflectem sobre a aplicação da ética em diferentes planos da actividade humana. O trabalho é coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e João César das Neves, e que conta com a colaboração de autores como Bagão Félix, José Reis, Mário pinto, Francisco Sarsfield Cabral e António Pinto Leite.


legislativas 2019 promosite
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Este
    04 out, 2017 Lis 14:16
    Se não existisse tinha que ser inventado! Não se enxerga!
  • Nogueira Bulhões
    03 out, 2017 Lisboa 12:53
    Auto-retrato.
  • Loló Freitas
    03 out, 2017 Porto 12:18
    Exactamente. Este sabe bem do que fala.
  • A Martins
    03 out, 2017 Braga 11:08
    Este economista ultraliberal, nunca terá legitimidade para falar do Papa Francisco ou das desigualdades que a economia fomenta, uma vez que a sua visão económica é contrária aos ensinamentos de Cristo e do Novo Testamento. Um economista que defende que a alteração do salário mínimo nacional contribui para o aumento do desemprego, representa bem o caracter nocivo das suas teorias.
  • Toni
    03 out, 2017 Lx 08:57
    Nao foi o capitalismo que criou os pobres, a prova disso é que no inicio eramos todos pobres. Ha apenas 100 anos 90% dos portugueses viviam na aldeia com as galinhas.... ha 10000 anos andavamos todos a caça para sobreviver....Tem de se perceber é porque alguns ainda sáo pobres agora que 80% já tem carro e casa e obviamente tem se ajudar. Mas "ajudar" sem perceber porquê é o tal marketing manhoso.... Quanto às leis, muitas são idiotas. Uma sociedade é feita de pessoas e o que é preciso do estado é que evite que as pessoas façam mal umas às outras e que ajude quem precisa (pobres, deficientes, doentes, desempregados, idosos, sem abrigo, criancas abandonadas, etc). Estas pessoas nao podem ficar a merce da caridade, tem de haver um sistema montado que funcione sempre. Leis que regulam o tamanho da fruta, e gastar recursos do estado a perseguir quem vende produtos e serviços que o cliente quer comprar é idiota. As cadeias estão cheias de pessoas que precisam de ajuda. Criminosos são quem rouba aos outros (vida, bens, etc.). Mas em Portugal o Estado só existe para dar emprego aos amigos...desde o PCP (CP, Carris , Metro) ao CDS (gestores).
  • 03 out, 2017 LX 08:42
    "É possível cumprir a lei e ser um bandido" - Sem dúvida, e são muitos os que pululam por aí !
  • João
    03 out, 2017 Ponte de Sor 08:20
    Sou um admirador deste economista. Tem uma visão muito clara das situações, tanto no plano económico, como no social.
  • tuga
    03 out, 2017 Lisboa 08:12
    Infelizmente Portugal é rico em exemplos, mas sem ministério da justiça, sem ministro/a da justiça a politicada a fazer leis para cães, gays, pretos, igualdade de género, lei da nacionalidade, lésbicas, etc. Que se espera??? O POVO TEM O QUE MERECE.