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Opinião

Para lá das táticas e dos numerozinhos

28 set, 2017 - 15:49 • Jacinto Lucas Pires

Perdemos uma boa ocasião para, usando o valor da proximidade das eleições locais, regressar à política.
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“Como é do conhecimento de todos os vagabundos, os jornais aquecem”, escreve Joseph Roth, o grande escritor do sonho europeu “avant la lettre”. E, no entanto, ao ler a cobertura jornalística da campanha para as autárquicas, o que sente aqui este coração vagabundo é mais uma espécie de frio. Em parte, será culpa minha, que me rendi aos jornais online - e estes, quando falham, nem sequer servem para aquecer. Mas receio que também tenha a ver com o estado da conversa que o país tem consigo mesmo. Pelo menos desde a crise de 2010, temos assistido a uma tecnocratização do discurso público. Um processo que vem embrulhado no bom nome da “transparência” e do “rigor” mas que, tantas vezes, acaba a trocar ideias por números, soluções por diagnósticos e uma visão de futuro pela lógica do facto consumado. Se isso é uma tendência geral, nas autárquicas intensifica-se. De um lado, listagens de “obra feita”; do outro, percentagens de “dívida”… E que cidade queremos amanhã? E como tornar o lugar onde vivemos mais justo, mais livre? Perdoem-me se carrego na metáfora, mas a verdade é que as questões essenciais ficam muitas vezes soterradas debaixo de tanta “transparência”.

Não estou a dizer que não se deva concretizar os programas. O que me parece é que perdemos uma boa ocasião para, usando o valor da proximidade das eleições locais, regressar à política. Escrevi “política”, sim, não é uma gralha. Política: falar do todo, em nome do todo (e não só desta ou daquela parte, em nome deste ou daquele grupo), falar com os que pensam diferente de nós (escutá-los com atenção, dar a mão à palmatória se for caso disso) e falar de olhos postos no que queremos ser amanhã (enquanto bairro, aldeia, cidade).

Claro que também há notas positivas a retirar desta campanha. Salientaria duas: a valorização das juntas de freguesia e a realização de debates televisivos com os candidatos à câmara das capitais de distrito.

Mas, se falei de tecnocratização, faltou-me falar de taticismo. A leitura nacional das autárquicas, recusada por tantos dirigentes partidários, leva-os a jogadas táticas de diferentes estilos. À direita, Assunção Cristas, líder do CDS-PP, ganhou a sua batalha lisboeta avançando como candidata antes do anúncio do PSD. Se conseguir mais votos que Teresa Leal Coelho, será, digamos, uma goleada (ainda que, como se diz na gíria futebolística, apenas uma goleada “moral”…). Mas, para o PSD, o pior nem é isso. Ao apresentar, em Loures, um candidato de discurso xenófobo, o partido liderado por Passos Coelho ensaia um desvio populista impensável — um desvio desesperado, pois, mas nem por isso menos perigoso.

À esquerda, o PS parece ter feito esquecer a péssima imagem do governo na gestão dos incêndios com os bons números da economia, e vai capitalizando com os tiros no pé do principal partido da oposição. Enquanto isso, o BE e o PCP trocam picardias mas estão numa competição muito estreita — e, como sabe quem já tenha tentado jogar à bola em corredores apertados, os ricochetes são imprevisíveis…

“Cheguei ao nome da cidade”, canta Caetano Veloso, o grande cantor da globalização “avant la lettre”, e este coração vagabundo também está a chegar ao fim da crónica: para lá das táticas e dos numerozinhos, quem responde à pergunta da política?


O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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