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O adeus a D. Manuel Martins, o bispo que “perseguiu sem descanso o sonho de um mundo de justiça”

26 set, 2017 - 19:11 • Ângela Roque , Isabel Pacheco

Cerca de 3 mil pessoas marcaram presença nas cerimónias fúnebres do bispo emérito de Setúbal.
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“Teve um percurso de vida que marcou os últimos decénios da história recente do nosso povo e da Igreja.” D. Manuel Martins, o primeiro bispo de Setúbal, que morreu no domingo, aos 90 anos, foi lembrado esta terça-feira, na missa exequial presidida por D. José Ornelas, pela sua postura corajosa e de defesa dos mais desprotegidos.

Cerca de 3 mil pessoas marcaram presença nas cerimónias fúnebres do bispo emérito de Setúbal, no Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos. Além da vice-presidente da Assembleia da República, Teresa Caeiro, o funeral não teve a presença de nenhum membro do governo, nem de líderes partidários.

Muitas pessoas presentes no Largo do Mosteiro não puderam entrar e assistiram às cerimónias através de três ecrãs gigantes colocados no exterior.

O corpo de Manuel Martins foi sepultado no cemitério, junto ao mosteiro.

O bispo que “ergueu a voz”

O actual bispo de Setúbal lembrou o seu antecessor como uma voz corajosa e inconformada. D. Manuel Martins “ergueu a voz em denúncia das atitudes, políticas e economias que se esquecem dos mais fracos e indefesos”, disse D. José Ornelas, lembrando que “perseguiu sem descanso o sonho de um mundo de justiça, fraternidade e de paz” – entendeu que foi para isso que foi chamado a ser bispo.

Esta missão, continuou Ornelas, levou D. Manuel Martins a indignar-se sempre contra os que “exploram ou se demitem de denunciar e reverter as situações de injustiça e de exploração”.

Agradecendo a herança que D. Manuel Martins deixou na diocese, o actual bispo de Setúbal lembrou o seu estilo próximo e o seu empenho em congregar vontades e esforços. “Tornou-se solidariamente criativo, para apoiar e cuidar para os que eram deixados à margem das grandes manobras económicas, para congregar pessoas de boa vontade e promover obras que servissem os que mais precisavam”, disse perante os presentes na missa.

D. Manuel Martins, o bispo dos marginalizados
D. Manuel Martins, o bispo dos marginalizados

Considerou ainda que D. Manuel Martins foi um “homem de pontes e diálogo, buscando consensos e colaborações para que, com todas as pessoas de boa vontade, possamos criar todos um mundo mais humano e mais justo, onde sejamos mais cuidadores e menos predadores”. Por tudo isto, disse, deixou “um estilo matricial na diocese de Setúbal”, onde todos o recordam como um “pastor próximo e cuidadoso”, preocupado com os seus sacerdotes e diáconos.

O bispo de Setúbal deixou ainda uma palavra de gratidão aos familiares de D. Manuel Martins e também à diocese do Porto, lembrando que foi aí que aprendeu com “outras vozes proféticas”, como a de D. António Ferreira Gomes, a erguer-se para “denunciar injustiças e apontar caminhos”.

A missa exequial de D. Manuel Martins teve lugar no Mosteiro de Leça do Balio, de onde era natural, e o local que escolheu para sua última morada. Participaram na celebração os vários bispos portugueses e inúmeros sacerdotes e fiéis tanto da diocese de Setúbal como da do Porto, onde nasceu, formou-se e viveu os últimos anos da sua vida.

“Falamos de um homem que amou o mundo e que sofreu os riscos do mundo”, disse à Renascença D. Januário Torgal Ferreira no final da celebração, lamentando que a “Igreja em Portugal ainda não o tenha conseguido seguir como estilo” e “ocupar-se dos problemas do mundo sem recear de ser confundida com os poderes do mundo”.

Para o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, D. Manuel Martins foi “lutador” e “realizador da doutrina social da Igreja. Um exemplo que também nós devemos seguir, de dar voz a quem não tem voz”. Palavras partilhadas pelo bispo auxiliar do Porto, D. Pio Alves, que lembrou que D. Manuel Martins passou os últimos anos na diocese, onde “soube viver de modo discreto a sua condição de sacerdote e de bispo”.


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  • Manuel Ruivo
    27 set, 2017 Setúbal 00:17
    Estive presente e não vi flores da Presidência da República como vi no pai do Mourinho