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“A Síria precisa de um processo de perdão”, diz franciscano de Alepo

27 set, 2017 - 11:30 • Filipe d'Avillez

A primeira arma usada no Médio Oriente é a instrumentalização da religião, lembra o padre Firas Lutfi, que vive e trabalha na cidade síria.

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O padre Firas Mutfi pinta um retrato ao mesmo tempo negro e cheio de esperança de Alepo, uma das cidades sírias que mais sofreu ao longo dos anos de guerra civil que o país ainda vive.

“É um desastre completo, 70% de Alepo está danificada. Não há electricidade, não há água corrente”, diz. Mas rapidamente esclarece que a situação melhorou substancialmente desde que as milícias anti-regime foram expulsas da cidade pelas forças governamentais em Dezembro de 2016. “Agora a cidade está completamente segura. Penso que as pessoas que aqui vivem em concordarão que a situação está bastante melhor agora do que há uns meses.”

O que Alepo, e a Síria em geral, mais precisa agora é de uma restauração da confiança entre as diferentes comunidades. “O mais importante é devolver a confiança às pessoas”, diz o sacerdote franciscano, “porque a guerra causou divisão entre muçulmanos e cristãos e entre grupos étnicos que, durante séculos, viveram lado a lado, como um mosaico”.

Embora a guerra na Síria tenha começado por opor defensores do regime a opositores, rapidamente ganhou contornos étnicos e religiosos. A esmagadora maioria da população é muçulmana sunita e embora nem todos os sunitas se tenham juntado à oposição, a quase totalidade da oposição era composta por sunitas. Os alauitas, uma seita próxima do Islão xiita, dominam os aparelhos de Estado, apesar de serem apenas 10% da população e mantiveram-se ao lado do regime e a esmagadora maioria dos cristãos, temendo os efeitos caso o poder fosse tomado por sunitas radicalizados, também.

O frade Firas dá a entender mesmo que estas divisões terão sido semeadas propositadamente. “A primeira arma a ser usada no Médio Oriente, e foi assim na Síria, é a instrumentalização da religião. Cria divisões entre muçulmanos que são contra o Governo ou a favor, entre irmãos, sunitas, alauitas e xiitas, e entre cristãos e muçulmanos”.

A solução, acredita, passa pelo perdão. “Os cristãos no Médio Oriente desempenham um papel muito importante, porque a mentalidade islâmica é de ‘olho por olho e dente por dente’, mas a lógica e o ensinamento cristão são do perdão. O processo de perdão é muito importante actualmente, mais do que qualquer outra coisa”, diz.

E é por isso que este sacerdote, que actualmente cuida dos católicos de rito latino em Alepo apesar de ser originalmente de rito siro-católico, tanto elogia o trabalho de organizações como a fundação Ajuda à Igreja que Sofre. “É uma organização muito importante que tem estado a trabalhar desde o início da guerra até agora para ajudar as pessoas a manterem-se na sua terra”.

Isto num contexto em que a grande tentação passa por partir. “Não existe futuro, sobretudo para as crianças e para os jovens. Os casais mais novos abandonaram o país à procura de paz.”

Ainda assim, perante as dificuldades em imigrar, “algumas pessoas começaram a voltar depois do 22 de Dezembro, preferem regressar a Alepo do que morrer no mar, por exemplo”.

O padre Firas veio a Portugal a convite da AIS para participar na peregrinação internacional desta fundação, a propósito do centenário das aparições em Fátima.

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