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Pensava que ia ser repreendido, mas foi feito cardeal

25 set, 2017 - 13:49 • Filipe d'Avillez

O cardeal John Ribat, arcebispo de Port Moresby, na Papua Nova Guiné, é uma das nomeações mais inesperadas do Papa, mas mostra bem como Francisco quer dar mais voz às periferias.
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Para chegar a Portugal, o cardeal John Ribat teve de apanhar um primeiro avião para um voo de três horas rumo a Brisbane, na Austrália, depois outro voo de 14 horas para o Dubai, seguido de viagem de sete horas e meia para Lisboa. Foram mais de 24 horas no ar, sem contar escalas. A Papua Nova Guiné pode não estar nos antípodas de Portugal em termos geográficos, mas não poderia ser muito mais longe.

“Dizemos que a Papua Nova Guiné é o fim do mundo”, brinca o cardeal, que viajou para Portugal a convite da fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) para participar na peregrinação internacional desta organização pontifícia a Fátima, em ano de centenário das aparições.

A Papua Nova Guiné (PNG) é dos países mais exóticos do mundo. Os pouco menos de oito milhões de habitantes falam mais de 800 línguas e dialectos e o interior da ilha contém ainda várias tribos e comunidades ainda por contactar. É uma realidade dura, que John Ribat experimentou em primeira mão. “Havia aldeias que eram tão distantes que só conseguíamos visitar uma ou duas vezes por mês. Só nessa altura é que tinham os sacramentos. Quando lá ia passava uma ou duas semanas, mas se tivesse que viajar e não pudesse ir, ficavam sem os sacramentos um mês inteiro”, explica.

Não obstante as dificuldades, a Igreja da PNG é dinâmica e está a crescer. “Somos uma igreja nova, temos apenas 125 anos. Não foi há muito tempo que vieram os missionários. Está a crescer. É jovem, vibrante, a participação das pessoas é muito enérgica”, diz, embora haja alguma preocupação com a recente quebra em número de vocações.

Mas é uma igreja que tem também muitas necessidades, sobretudo no interior. “A Igreja continua a crescer e a desenvolver-se e mesmo o país, nas áreas rurais, ainda está por desenvolver. É nestas áreas mais remotas que pedimos o apoio da Ajuda à Igreja que Sofre, na educação, nas infra-estruturas e também na saúde. E a AIS tem apoiado muito. Ainda recentemente fizeram uma obra no meio do mato – não há nada ali! – mas a AIS veio e construiu um edifício muito moderno no meio do mato e as pessoas que lá vivem ficaram todas contentes. Diziam que estavam habituadas a ver este tipo de construção na cidade, mas agora tinham também na sua própria aldeia”.

Foi precisamente depois de ter ido administrar o sacramento do crisma a uma povoação distante que o arcebispo de Port Moresby recebeu um telefonema inesperado do núncio, o representante diplomático da Santa Sé. “Perguntou-me a que horas me deitava e eu disse que estava agora a jantar e ia-me deitar, porque tinha feito uma grande viagem. Mas ele disse-me para não o fazer, porque ia ter comigo. Tinha uma mensagem urgente para me entregar”, explica.

A primeira reacção foi de preocupação. “Pensei que devia ter feito algo de errado. Estava ansioso para saber que mensagem era esta, comecei a rever os dias e as semanas que tinham passado, para perceber o que é que teria feito. Eventualmente ele chegou e informou-me que o Papa me tinha nomeado cardeal”, diz John Ribat.

Da periferia para o centro

Ribat não foi o primeiro arcebispo de um local distante e inesperado a ser nomeado cardeal pelo Papa Francisco. Mas o facto de já terem sido nomeados um cardeal das ilhas de Samoa e do Tonga, também no Pacífico, levaram a conferência Episcopal da PNG e das ilhas Marshall a desistir de qualquer pretensão nesse sentido, apesar de terem uma população significativamente superior.

Em Roma para receber o seu barrete cardinalício, John Ribat aproveitou para agradecer ao Papa Francisco. “Disse-lhe que tinha feito uma grande coisa, primeiro em pensamento e em palavras e agora cumprindo a sua palavra e tornando-a realidade, trazendo as periferias – aqueles de nós que tinham estado do lado de fora, não reconhecidos – para o centro.”

“Esta nomeação é muito importante e dará muitos frutos, porque agora temos uma voz nestes sítios onde se discutem tantas coisas, como a ecologia e a subida dos níveis do mar, que nos afectam, porque vimos de ilhas e não de um grande continente”, diz.


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