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Conversas Cruzadas

Tancos: “Alarme é não saber qual é o alarme"

17 set, 2017 - 19:03

Perplexidade. É o sentimento partilhado por Carvalho da Silva, Aguiar-Conraria e Nuno Botelho face ao "alegado roubo de Tancos".
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"Estamos aqui sentados e nenhum de nós sabe realmente o que aconteceu em Tancos. Isto é tudo tão ridículo como é não sabemos sequer se são armas de alta precisão ou se são, de facto, armas obsoletas. Não sabemos sequer se houve um roubo, não é? Neste momento não sabemos nada. Isso é que é grave: ao fim de dois meses não sabermos nada”, é a perplexidade manifesta pelo jurista Nuno Botelho, no Conversas Cruzadas.

O ministro da defesa vai esta segunda-feira ao Parlamento explicar-se. Por iniciativa do PSD e CDS terá lugar um debate de actualidade sobre "o alegado furto de Tancos". "Alegado furto".... Assim mesmo na designação original. O debate desta segunda-feira será tudo menos prolongado. Cada partido tem só 5 minutos para fazer as perguntas e, por seu turno, o ministro Azeredo Lopes disporá de 6 minutos para esclarecer os deputados.

Na sequência da entrevista do ministro ao DN/TSF em que o ministro admitiu "no limite pode não ter havido roubo de armas", o CDS pediu a demissão de Azeredo Lopes e o PSD exigiu responsabilidades ao governo. Tancos foi um dos temas na análise semanal do Conversas Cruzadas.

Também o professor universitário Luís Aguiar-Conraria diz que este caso de Tancos encerra elementos preocupantes. “Aqui o que, de facto, me choca é o que está a ser dito, o 'não se sabe o que é' para, eventualmente, dizer que exagerámos no alarmismo. Não. Não. O verdadeiro alarme é não se saber o que é. Isto é chocante”, resume o economista.

Já na análise de Manuel Carvalho da Silva, sociólogo, são várias as ingenuidades neste caso. "O acontecimento de Tancos foi colocado cá fora por um protagonista ou pela conjugação de vários actores na construção desse facto com contornos de ser um ‘gravíssimo problema’. Isto foi colocado assim cá fora. Acho que houve múltiplas ingenuidades por parte dos órgãos de poder e, desde logo, da instituição militar e não se pode deixar de ir até aí", diz.

Pedrogão: três meses depois

O grande incêndio de Verão iniciado em Pedrogão que, a 17 de Junho, ceifou 64 vidas, foi outro dos temas da emissão. A tragédia entrou para o top 10 dos incêndios florestais mais graves em todo o mundo, mas Pedrogão e um verão de fogos descontrolados em todo o país não provocaram qualquer baixa política.

Esta semana, o comandante nacional da protecção civil, Rui Esteves, foi afastado do cargo, não pela condução do combate às chamas, mas por causa da sua licenciatura: em 32 disciplinas, apenas fez exame a 4 delas.

Nuno Botelho, empresário e líder da Associação Comercial do Porto, diz não perceber como é que, três meses depois da calamidade, a ministra Constança Urbano de Sousa continua no cargo.

"Vivemos uma calamidade em estado puro este Verão. Vimos o país a arder de forma desordenada e descontrolada sem nada acontecer no plano das responsabilidades. Não compreendo que a ministra continue em funções e quem se demite e quem é demitido, ou se demite, é o comandante operacional da protecção civil Rui Esteves. Mas, demite-se não por incompetência, mas porque tirou a licenciatura através de equivalências”, observa o empresário.

Ao contrário de Nuno Botelho, os professores universitários Luís Aguiar-Conraria e Manuel Carvalho da Silva defendem que, antes de exigir responsabilidades políticas, se deve esperar pelo relatório final da Comissão Independente de Peritos sobre o incêndio de Pedrogão.

"Mesmo que António Costa já tivesse informação suficiente que lhe permitisse demitir de imediato a ministra, mesmo nesse cenário eu acho deve esperar um mês. O primeiro-ministro deve esperar pelo relatório final da comissão de peritos independentes. O novo ministro a vir - não sabemos se virá - já deve conhecer o relatório e se iniciasse funções agora poderia ser apanhado de surpresa daqui a um mês”, sustenta Luís Aguiar-Conraria.

"O novo ministro - a haver novo ministro - deve vir com muita força encarar os desafios inerentes aos problemas por detrás de desastres como este e não para ser envolvido ainda na avaliação do que aconteceu", remata Manuel Carvalho da Silva.

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  • Vasco
    18 set, 2017 Santarém 23:58
    Quem vai ficar mais alarmado no meio de toda esta trapalhada vai ser o Presidente da República quando constatar que nem governo nem militares têm qualquer esclarecimento credível a prestar-lhe!.
  • Pastor Alemão
    18 set, 2017 Colónia 00:43
    Pode não ter havido furto porque pode nem haver tropa. Estamos a caminho de nem ter ministro e se isto continua estamos a correr o risco de poder nem haver país.
  • Rui Almeida
    18 set, 2017 Cascais 00:39
    As armas não estavam lá porque não entraram. Foram compradas mas não entregues ao exército. O dinheiro saiu do cofre público, alguém o meteu ao bolso. Antes que se descobrisse a marosca, inventou-se um «roubo» para que as «armas» que não existiam pudessem «desaparecer». É como este ministro: ele está lá mas não existe. Ou é como se não existisse. Oxalá seja também «roubado» e desapareça.
  • Fernando Fernandez
    18 set, 2017 Lisboa 00:37
    Ao levantar a hipótese de nao ter havido roubo, o ministro colocou-se em causa. Demitiu generais, logo, foi irresponsável nas medidas imediatas, Colocou em causa a credibilidade de Portugal na NATO, Deixou no ar a ideia de irresponsabilidade de outros (anteriores governos, outros ministros, outros casos em justiça); Sacudiu a água do capote da forma mais irresponsável possível, Deixou o PR numa posiçao, no minimo, incómoda e sem defesa possível. No meu modesto entendimento, esta foi a saída planeada para deixar todos a discutir mais um tema irrelevante, enquanto esquecemos mortos, fogos, irresponsabilidades diversas, a bandalhice que vai no Estado. Próximo capitulo: O PR a assumir que nao passa dum boy do sistema; Se criticar, será o dia da direita. Se ficar calado durante a sessao diária de beijinhos, sentir-se-á duma esquerda que lhe coloca cascas de banana no caminho e ele, deliberadamente, aceita pisar.
  • 1071
    17 set, 2017 21 22:30
    Para a oposição basta o Sr. ministro se ir embora e a Srª ministra seguir o mesmo caminho fica o problema resolvido! se houvesse prova concreta que a responsabilidade era dos dois ministros o que faria a justiça Portuguesa aos mesmos? provavelmente nada! saiam dos referidos lugares que ocupam e, iriam ocupar outros na administração publica. Tenho dificuldade em perceber a ganância da oposição na demissão dos dois governantes.
  • desilidido
    17 set, 2017 21:48
    O que no fundo parece estar tudo obsoleto são a hierarquia militar e os governantes, alguém nesta altura acreditará que sairá de uma ou de outra parte um esclarecimento total e credível? No meio de tudo isto quem vai ficar ainda mais perplexo que todos nós será o PR que ainda irá exclamar, mas com que bicharada eu estou metido!.
  • Para refletir...
    17 set, 2017 Almada 19:44
    Pois eu fico perplexo por alguns só verem o que lhes interessa, só ficarem perplexos pelo que acontece na política. Só na política é que acontecem coisas que por vezes não são normais! O pior cego é aquele que não quer ver!
  • André
    17 set, 2017 Lisboa 19:33
    "Se Tancos tivesse sido um assalto, as pessoas deviam andar cegas, porque não viram 3 camiões com mais de 500 homens, que carregaram 4 toneladas de material em pouco mais de 3 horas, sem terem deixado marcas, para além de uma rede que já estava partida e se foram embora sem que exista qualquer avistamento. Portanto, ninguém viu esses camiões, seguidos de um autocarro, a sairem dali, se existiu assalto, roubaram pouca coisa naquela noite, o resto já tinha saído pelo portão da frente, dentro dos carros dos militares que teminam as campanhas e não tiveram os contratos renovados." (copiado de um comentário noutro site)