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12 anos na DGS. Surto de legionella “tirou o sono” a Francisco George

14 set, 2017 - 06:49

Director-geral da Saúde deixa a administração pública e termina uma carreira de 44 anos. Desde 2000, viu passar oito ministros.
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O director-geral da Saúde, que deixa o cargo em Outubro, esteve para encerrar a Quinta do Lago por causa de um mosquito, passou pela gripe A e pela ameaça do Ébola, mas foi a legionella que lhe tirou o sono.

Ao fim de uma dúzia de anos Francisco George deixa a administração pública e termina uma carreira de 44 anos ao serviço de um Estado que, acredita, é hoje muito melhor.

Em entrevista à agência Lusa, recordou que entrou na DGS em 2000, para “dar um impulso na saúde ambiental”. Hoje, é o mais antigo funcionário deste organismo onde, aliás, tinha começado a sua carreira, em 1975.

Desde 2000, viu passar oito ministros da Saúde, alguns dos quais seus amigos e companheiros dos primeiros tempos de escola e de exercício da Medicina. Não sabe indicar qual o melhor, mas acredita que um dia fará uma grelha que culminará nessa eleição.

Enquanto Autoridade de Saúde foi chamado a decidir em várias situações, mas Francisco George não tem dúvidas de que foi o surto de legionella, em Vila Franca de Xira, em 2014, responsável por 11 mortos, que lhe tirou o sono.

“Foram mais de 400 doentes, quase metade teve de ser assistida em cuidados intensivos. Percebemos, e demos uma lição a todos, que Portugal tem um Serviço Nacional de Saúde (SNS) fantástico”, disse.

Os resultados foram também “muito positivos” na investigação da fonte do problema, que era a principal preocupação. “Ao fim de poucas horas foi possível perceber o que se estava a passar, encerrar, do segundo para o terceiro dia, a fábrica que estava a emitir as partículas contaminadas com essa bactéria”, disse.

Para Francisco George, “foi uma situação muito grave que mobilizou todos os meios e teve um grande apoio político”: “Conseguimos, ao fim de 15 dias, declarar o fim da epidemia”.

Decisões nem sempre fáceis

Uma das primeiras preocupações enquanto DGS deu-se no “pico” do Verão de 2004, no Algarve, com um alerta vindo da Irlanda de que dois cidadãos daquele país apresentavam encefalite após estadia em Portugal e que o agente suspeito era o vírus do Nilo.

A infecção por vírus do Nilo Ocidental é transmitida através da picada de um mosquito. Uma em cada cinco pessoas infectadas exibe doença febril e um em cada 150 desenvolve meningite, encefalite ou meningoencefalite.

“Tivemos de demonstrar que os mosquitos estavam infectados. Fizemos o cálculo do número de picadas de mosquito preciso para provocar um caso de doença e fomos ver quem podia ter 500 picadas. Concluímos que são os que observam a natureza, nos postos de observação de aves. Os irlandeses em causa tinham, de facto, estado num posto de observação de aves ao fim da tarde e tinham sido martirizados por mosquitos”.

O posto foi encerrado e, mais tarde, a Quinta do Lago era identificada como local da infecção, o que obrigou ao uso de insecticidas, mesmo contra a vontade do então organismo que tinha a tutela das culturas e protecção vegetal.

“Tomei a atitude de usarmos os insecticidas para protecção humana. A protecção vegetal é muito importante, mas neste caso estava em causa a protecção humana”, disse.

Numa acção que contou com “um grande apoio de Luís Filipe Pereira”, na altura ministro da Saúde, a situação foi resolvida sem o fecho da Quinta do Lago, o qual esteve eminente.

A ameaça do bioterrorismo e do “pó branco”, a pandemia de gripe A, o susto do dengue, os casos sempre alarmantes de meningite, a tosse convulsa, a hepatite A e o sarampo foram alvo da política de saúde pública nos últimos anos e contaram com decisões, nem sempre fáceis, de Francisco George.

Quando Portugal, à semelhança de outros países europeus, se confrontou este ano com um surto de hepatite A, a DGS não teve dúvidas: “Prejudicámos os viajantes, aqueles que iam fazer viagens e tinham indicação para ser protegidos”.

Isto porque a Direcção-Geral de Saúde decidiu concentrar o ‘stock’ de 12 mil vacinas que estavam distribuídas nas farmácias “a favor do controlo da epidemia”.

“Era preciso parar com a actividade viral naquela comunidade, a fim de proteger os que não tinham ainda a doença, na comunidade em causa, mas também evitar que saltasse para outras comunidades”, disse.

44 anos de serviço

A última intervenção de Francisco George vai acontecer no dia 20 de Outubro, na reitoria da Universidade Nova de Lisboa, e terá como tema “44 anos de serviço público”.

Depois, vai gozar umas férias “curtas” e abraçar outros desafios, um dos quais já foi assumido, uma vez que se vai candidatar à presidência da Cruz Vermelha Portuguesa.

Consciente da “popularidade” que adquiriu nos últimos anos, Francisco George vê-se perfeitamente em outras funções, não na administração pública, onde não pode exercer por ter atingido o limite de idade (70 anos), mas para o bem público.

A esse propósito, soube-lhe bem ouvir o socialista Jorge Coelho referir, num programa televisivo, que Francisco George era o homem certo para lidar com questões como os donativos para ajudar as vítimas dos incêndios em Pedrogão Grande, em nome da transparência que tanto advoga.

“Se isso acontecesse, porque não? Missões dessa natureza, aceito, como aceitei participar numa campanha contra a discriminação de ciganos”, afirmou.

E sobre o Estado para o qual trabalhou mais de quatro décadas, Francisco George prescreve “justiça”.

“O Estado tem que ser justiça, tem que ser absolutamente transparente. Há aqui uma garantia de servir os cidadãos de uma forma absolutamente transparente. O Estado é o garante do Estado social”.

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  • Vitor Cunha
    14 set, 2017 Lisboa 09:00
    Este senhor ( a quem não conheço pessoalmente ) é um exemplo do que deve ser um servidor do Estado : íntegro, competente, dedicado, corajoso. Daqui lhe envio os meus parabéns pela sua valorosa carreira, desejando-lhe os maiores êxitos nas outras tarefas a que se dedicar. Portugal precisa muito de pessoas como Francisco George.
  • Jorge
    14 set, 2017 Lisboa 08:17
    Como é possível alguém estar nas mesmas funções de direção durante tanto tempo? Isto é contra todas as regras e normas de inovação e melhoria dos serviços públicos. Mas é o País que temos com sindicalistas à frente dos professores há tanto tempo que já nem sabem o que é dar uma aula e tantos outros casos. É a República dos Bananas que somos todos nós que não há meio de fazermos a verdadeira revolução de Abril para acabar com o parasitismo!