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Saudade e uma oração ao telemóvel. Crónica do adeus a D. António

13 set, 2017 - 20:43 • Rui Barros

A cidade e o país despediram-se esta quarta-feira do bispo do Porto. Na memória dos fiéis fica a imagem de um homem do povo, de um "bom pastor"
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Os sinos da Sé Catedral dobram e a eles juntam-se todas as paróquias do Porto. O repique sonoro soa para além das margens do Douro e, às 15h00, o país diz adeus a D. António Francisco dos Santos.

No terreiro da Sé são cinco mil os que esperam pelo momento da última homenagem ao bispo do Porto ao "bispo do povo", falecido esta segunda-feira, aos 69 anos, vítima de enfarte agudo do miocárdio.

O desejo manifestado na sua última homilia - o de uma Igreja bela, como uma casa de família - parece concretizar-se, ali, na diocese a que presidia, no momento da sua despedida. Cá fora, os que não conseguiram lugar dentro da Sé rezam, em comunhão, pelo bispo que só sabem elogiar.

“A cerimónia está a começar”. Alda Gonçalves fala ao telemóvel, no meio de multidão, ainda os sinos não pararam de tocar nem todos os bispos, cónegos e sacerdotes entraram dentro da catedral. Do outro lado da linha está Benvinda Oliveira, amiga de longa data que trabalhou com D. António Francisco dos Santos, em Aveiro. “Pediu-me para avisá-la quando a cerimónia começasse para se juntar a nós em oração”, conta.

Rezam as duas, ao telemóvel, por alguns minutos. Às primeiras palavras de D. Manuel Clemente, que presidiu às celebrações, Alda desliga o telemóvel. Continuam as duas a rezar, à distância.

“Era uma pessoa muito humilde. Eu sei que as pessoas, quando morrem, tornam-se boas. Mas ele era mesmo [bom]. Era uma pessoa muito especial”, recorda Alda. A homilia em Fátima, durante a peregrinação da diocese, há quatro dias, está presente na memória de todos e as palavras do bispo ganham novo significado no momento de dizer adeus.

Porto despediu-se do “bom pastor”

"Quisemos estar aqui porque gostamos todos muito dele"

“Foi um dia muito cheio, muito bonito”, relata António Maia, um dos paroquianos que se juntou a D. António Francisco dos Santos na peregrinação ao santuário. “Disse-nos palavras muito bonitas, tanto na homilia como na despedida, à tarde. Quisemos estar aqui porque gostamos todos muito dele e vamos ter muitas saudades. Mas foi o que o Senhor escolheu…”.

As vozes comovem-se sempre que a memória do bispo que todos tinham como um amigo é evocada. Momentos antes da cerimónia fúnebre começar, Luísa Abreu, de 70 anos, espera debaixo do sol quente, de rosa branca na mão. “É um sinal de amizade. Queria dar-lhe neste último adeus”, responde, enquanto espera na interminável fila que avança lentamente para o interior da Sé do Porto, na esperança de ser uma das 500 pessoas que consegue um lugar dentro da catedral. “Estamos muito emocionados com tudo isto que aconteceu. Estivemos com ele no sábado e ficámos radiantes. Agora estamos tristes com esta partida. Ele era muito bom e por isso temos a certeza que estará no céu a pedir pela diocese do Porto”.

A multidão que espera pelo último adeus surpreende aqueles cuja Sé do Porto aparece identificada nos guias turísticos. Nicolas, de 21 anos, veio da Alemanha com os pais para visitar a "Invicta". A multidão surpreende-o e, a custo, vai perguntando aos que por ali estão a razão de tudo aquilo. “Ficamos surpresos com todas estas pessoas. Pensamos que poderíamos visitar, mas não sabíamos o que se passava. Mas é muito bom ver tantas pessoas aqui para lembrarem um bispo”. Nicolas e os pais ficam alguns instantes, antes de abandonarem o terreiro da Sé.

Demora uma hora e meia para que os sinos da Sé voltem a tocar. No interior, as palavras da cerimónia fúnebre lembram aquilo que cá fora as pessoas confirmam: um homem simples, o “rosto e gesto de Cristo” e verdadeiro “bom pastor”, no “sentido cristão de quem dá a vida pelas suas ovelhas”. Os fiéis dizem que sim com a cabeça. Aquele era o bispo que conheciam e que D. Manuel Clemente recordava agora na homilia.

As badaladas dos sinos são trocadas por aplausos quando a urna de D. António Francisco dos Santos é deixada, sob os suportes de madeira, à entrada da Sé. A multidão adensa-se e concentra-se, alinhada, junto ao corredor que dá acesso ao local do derradeiro adeus.

“O bispo não trabalha sozinho. É bispo de todos mas é irmão com todos”, defendia D. António Francisco dos Santos em 2014. Devagar, as gentes do Porto vão percorrendo o corredor gradeado que lhes permite um último contacto com o bispo. Uns mais emotivos, outros com rosto de pesar, todos param por segundos perante a urna ladeada por escuteiros.

Uma hora e meia depois, com o terreiro praticamente vazio, a urna é erguida e recolhida à Sé, onde D. António Francisco dos Santos ficará sepultado, na cripta de São Vicente, nos claustros da catedral.


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