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A história de sobrevivência de uma escola católica

08 set, 2017 - 08:36 • Ângela Roque

A Associação Promotora da Criança de Rio de Mouro orgulha-se de nunca ter fechado portas, nem mesmo durante a perseguição religiosa da I República.
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A Associação Promotora da Criança fica na Quinta da Raposa, em Rio de Mouro, Sintra. Abriu em 1859 e nunca fechou portas, nem mesmo no tempo da República, lembra, com orgulho, a sua actual directora, Celina Laranjeiro.

Em entrevista à Renascença, no arranque de mais um ano lectivo, a irmã Celina Laranjeiro conta que, apesar de esta ser uma instituição católica, que o regime republicano não tolerava, na altura, as mestras não eram religiosas, mas leigas. “Foi uma das razões porque não foi encerrada e continuou a funcionar ininterruptamente até hoje”, explica.

Pensada para proteger as meninas pobres, a associação foi criada por Teresa de Saldanha, que viria a ser a fundadora das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena. A primeira congregação feminina portuguesa nasceu clandestina, no século XIX, quando as ordens religiosas estavam proibidas no país, mas, antes disso, já a associação funcionava e tinha um papel fundamental nos planos da educação e da saúde das jovens mais carenciadas.

“Nos primeiros tempos, exerceu a sua acção humanitária e formadora das raparigas, ensinando os bordados e a costura”. Assegurava também cuidados de enfermagem, porque “quando ainda não se falava em centros de saúde, era ali que se procedia à vacinação, que se faziam pensos e se ensinavam as mães sobre os cuidados a ter com as crianças. Havia, portanto, uma certa actividade de puericultura”.

Chamava-se, então, Associação Protectora das Meninas Pobres e espalhou-se rapidamente pelo país, com numerosas escolas, uma delas, a de Rio de Mouro, que se foi adaptando às necessidades e hoje assegura outras valências. Tem berçário, creche e jardim-de-infância, para crianças dos quatro meses aos cinco anos.

“Temos uma lotação de 90 crianças, a maior parte são de famílias carenciadas ou com menos posses económicas. As pessoas são seleccionadas em termos do seu rendimento familiar, apresentam a sua documentação e a secretaria de escola faz a selecção, mediante os documentos apresentados e as vagas que existirem na instituição”, explica a irmã Celina. E, apesar da procura, neste momento ainda há quatro vagas no jardim infantil, “nos 3/4 anos e nos 4/5 anos. Se neste momento ainda houver famílias que estejam à procura de escola, podem procurar-nos”.

Como IPSS que é, esta escola recebe apoio do Estado e é isso que lhe permite cobrar mensalidades mais baixas. “No ano passado, tivemos uma família que por duas crianças pagava por mês 100 euros”, conta. A mensalidade inclui a parte educativa e a alimentação: “Nós fornecemos às crianças uma pequena refeição a meio da manhã, de fruta ou papa de fruta, no caso dos bebés, o almoço e o lanche, depois da sesta. E há sempre a bolachinha para os que a qualquer hora choram e precisam desse conforto e desse mimo.”

O apoio do Estado nunca falhou, diz a irmã Celina. “Temos é que prestar contas rigorosas, e isso fazemos”. Mas, as despesas são muitas. Com 17 funcionários, entre eles cinco educadoras e cinco auxiliares de educação, conta que há meses em que tem dificuldades para manter todas as contas em dia: “o subsídio da Segurança Social ronda os 16 mil por mês, o que não chega completamente para pagar aos funcionários, porque essa despesa ultrapassa quase sempre os 20 mil euros. E depois temos os encargos com o Estado, que pesam muito. Às vezes quando chega ao dia 18 ou 19 eu ando a bater à porta dos amigos a dizer ‘ainda não tenho o suficiente para pagar ao Estado, ajude-me aqui a pagar o que tenho de pagar até dia 20’”.

O protocolo com a Segurança Social obriga a que mensalmente tenham de dar conta da frequência de todos os alunos. “Se houver algum que deixe de frequentar a escola, imediatamente temos que os notificar”. E têm duas vagas reservadas para as emergências da Segurança Social, que pode reencaminhar crianças em qualquer época do ano. “Mesmo que não as preencha essas vagas estão cativas e a Segurança Social paga à escola por elas”, explica.

Todas as semanas a instituição recebe ajuda do Banco Alimentar, e aqui tem sido fundamental o apoio dado por alguns voluntários que asseguram o transporte: “só conseguimos ir ao Banco Alimentar semanalmente porque temos quatro a seis voluntários que muito generosamente nos ajudam com o seu carro, com o seu tempo e o seu trabalho e vão comigo. À quarta-feira vão-me buscar ao Hospital de Santana, na Parede, onde eu trabalho, vamos ao Banco Alimentar a Alcântara, carregamos, vamos descarregar a Rio de Mouro Velho, à escola, e regressam a Santana para me deixar. Estas pessoas oferecem à escola 60 quilómetros cada vez que fazem isto, mais o seu tempo e a sua energia física. É um trabalho muito importante, muito valioso”, sublinha Celina Laranjeiro.

Outra ajuda fundamental é dada pelos sócios da Associação, embora sejam cada vez menos. “Temos à volta de 100 sócios, mas nem todos estão no activo, alguns já estão idosos, alguns até já nem se lembram de pagar quota”. São 60 euros por ano, porque “hoje em dia ninguém pode pagar grandes quotas”. E há quem pague a prestações: “tenho uma sócia que me comove sempre que em cada mês me vem dar cinco euros, quando recebe a reforma, porque não pode dar a quota toda de uma vez. Eu acho isto uma coisa muito bonita, porque é uma forma que essa pessoa tem de estar a contribuir para a educação dos mais carenciados. Ela, que também é pobre”.

E é assim que, quase 160 anos depois, se mantém aberta e ao serviço dos mais carenciados a Associação Promotora da Criança de Rio de Mouro, uma escola católica que a irmã Celina Laranjeiro considera um “tesouro escondido”, porque “muita gente que ali passa nem sabe que existe ali uma escola, porque ela está dentro de uma quinta, que foi dada quando a então Associação Protectora das Meninas Pobres fez 100 anos”.


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  • Carla Wilson
    08 set, 2017 Sintra 14:23
    A melhor escola que eu conheço.... sem duvida uma referência na zona de Sintra. Obrigada!!!