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Pedrógão Grande. Lista não oficial de mortos enviada para o Ministério Público

25 jul, 2017 - 11:20 • Sara Beatriz Monteiro

Empresária de Lisboa começou a fazer lista das vítimas mortais e nas visitas que foi fazendo às aldeias afectadas ouviu queixas de que haveria mais mortos do que os contabilizados oficialmente.

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Já seguiu para o Ministério Público a lista onde constam os nomes de alegadas vítimas adicionais do grande incêndio de Pedrogão. Isabel Monteiro, a mulher que no terreno diz ter reunido um número de mortos superior ao oficialmente divulgado, diz à Renascença que já fez chegar à justiça toda a informação de que dispõe.

A empresária de Lisboa responde assim ao apelo do primeiro-ministro para que se faça chegar às autoridades quaiquer informações adicionais sobre a tragédia.

Nesta entrevista, Isabel Monteiro, explica como fez lista e que o seu principal propósito é conseguir construir um memorial na Estrada Nacional 236-1.

Como é que chegou a este número?

Ocorreu-me duas coisas que gostaria de ver feitas. Uma delas era levar vida na data em que faria 30 dias [desde que a tragédia aconteceu], isto é, animais, hortícolas, etc. Outra era tentar propor um memorial - que o Governo ou outra entidade mandasse fazer - que permitisse homenagear estas pessoas, como acontece noutros países: um marco para que isto não fosse esquecido.Cheguei a Lisboa e comecei a compilar [os nomes]. Comecei pela imprensa, entendendo que na comunicação social estaria toda a informação. Criei uma folha Excel e percebi que havia muita informação repetida e muitos nomes escritos de formas diferentes e muitos erros. A essa lista juntei os nomes que as pessoas, familiares e locais com quem me fui cruzando - dia 3 de Julho e, depois mais tarde, quando passaram 30 dias da tragédia e ao longo desse tempo, porque mantenho contacto com as famílias - me iam fazendo chegar.

Que dados cruzou ao certo para chegar a este número de 73 mortes confirmadas?

Foi muito complicado, porque havia inúmeras repetições na comunicação social. Daí esta lista estar, desde dia 13, pública. Exactamente porque pedi aos familiares e amigos que me fizesse correcções por excessos ou por omissão e juntei os nomes que me foram dando. Posso-lhe dizer, inclusive, que um familiar me explicou: "No carro da minha irmã estava esta senhora e este senhor. Neste caso, a Dona Leonor e o Senhor Armindo". Ora, como eu não tinha encontrado essa informação em nenhum órgão de comunicação social acrescentei. Foi este o sistema.

E não há a possibilidade de haver alguma repetição de nomes?

Eu não sou jornalista e não trabalho em investigação. Eu não posso estar o dia todo a corrigir e a compilar e, portanto, posso demorar o meu tempo de ocupação profissional. De facto, havia dois nomes repetidos, porque encontrei numa página do PS a referência à tal Dona Leonor e ao tal Senhor Armindo, referência essa que não estava em nenhum órgão de comunicação social. Havia um outro nome que havia uma dúvida e que também estava repetido. Entretanto, corrigi e acrescentei mais dois que me são feitos chegar por familiares que eu nunca tinha ouvido referir.

Feitas estas correções que números tem agora?

Eu estive agora a mandar [a lista] para o Ministério Público. Já separei os nomes de pessoas que me chega a informação de que foram [encontradas] passado bastantes dias, ou seja, posteriores a dia 19. Tenho 73 confirmados com os nomes e os apelidos, portanto, não há possibilidade de repetição. É um trabalho que não me compete. Fá-lo-ei em nome deste memorial e em nome das famílias com quem me tenho cruzado e em nome da única coisa que me move: conseguir construir um memorial.

Tenho estado a ser muito pressionada de todas as formas desde sábado, desde que saiu a notícia do "Expresso". Eu estive a ajudar a construir a lista do semanário dois dias antes, porque a jornalista me pediu ajuda. Voltei a fazer o mesmo com a jornalista do "i". Não me compete a mim e não me podem colocar o ónus de ter que, cada vez que acrescento uma pessoa ter a certeza "que". Destes tenho, porque o fiz, mas daqui para a frente eu conto com a comunicação social para ir atrás da informação.

Enviou a lista ao Ministério Público esta manhã?

Exactamente. Vou agora enviar agora por correio registado, uma vez que eu não sei se é aquele Ministério Público e, portanto, enviei para o DIAP de Leiria que penso ser [para onde devo enviar], porque tentei ligar, mas não atendiam. De qualquer maneira, pedi a via de recepção do meu e-mail e vou imprimir as duas listas: a primeira, que inclui os links da Comunicação Social todos e a última a que cheguei que é a de hoje de manhã.

Mas envia por iniciativa própria? Não lhe foi pedido nada?

Enviaria na mesma se soubesse que era para enviar, mas esta directriz saiu ontem do Governo. Eu estava no jornal da TVI quando ouvi o senhor primeiro-ministro a fazer um apelo a que todas as pessoas que tenham informações que as façam chegar ao Ministério Público.

Como é que sabe que estas mortes aconteceram em consequência do incêndio?

Não me vou pronunciar sobre isso, porque se as pessoas me confirmam o local, se os familiares me confirmam e explicam que foi em consequência do fogo - e posso dizer-lhe que tenho três nomes em que as pessoas foram inclusive encontradas posteriormente carbonizadas numa casa que ardeu ou um corpo que foi encontrado no meio de um pinhal - eu não tenho que aferir se é morte indirecta ou directa. Isso não me compete. Sou apenas uma cidadã a quem os habitantes locais têm dito que os números são muito superiores [aos oficiais]. Eu não posso partir do princípio que a população local está a mentir.

No seu ponto de vista, porque é que a lista, tanto a mais alargada como a que o Governo tem, ainda não foi divulgada?

Não tenho qualquer opinião sobre isso. Do que me apercebo não houve nenhuma lista inicial, que foi uma situação que estranhei, e passou a haver uma lista oficial que foi a partir da do jornal "Expresso". Confesso que tenho alguma dificuldade, enquanto cidadã, em entender que uma lista oficial de vítimas de uma situação destas seja publicada por um jornal.

Mas porque é que acha que esses nomes ainda não foram divulgados?

Não faço a mínima ideia. A única coisa que me move é exactamente o memorial. Confio, como julgo que todos os restantes habitantes, que a comunicação social faça o seu trabalho isento e rigoroso de forma a explicar a todos porque é que até agora há uma complicação enorme com listas. Há listas que são oficiais... que afinal não são oficiais, mas que passam a ser oficiais que são de um jornal. Há nomes que eram garantidamente 64 e que, afinal, mais corpo menos corpo, talvez seja diferente.

Eu não tenho nada a ver com estas polémicas. A pressão que tenho sentido e as ameaças que tenho tido passarei a partilhá-las, a partir de hoje, com a Polícia Judiciária porque me convocaram para ir esta tarde. Entendo que exercer um direito de cidadania não pode ser alvo de uma guerra política, de competição jornalística ou do que quer que seja.

Mas convocaram-na sob que pretexto e de que forma?

No sábado à noite, eram nove e tal da noite, recebi via facebook um pedido de um gabinete, que não sei dizer o nome, da zona de Coimbra que está a fazer a investigação em nome do Governo. Respondi que não tinha naquele dia nenhuma informação a acrescentar àquela que estava na minha página e que era pública e agradeceram. No dia seguinte voltei a receber, também à noite, da mesma entidade um pedido do meu contacto telefónico. Eu [disse] lamento, não sei quem é que está do lado de lá e não forneço o meu contacto telefónico assim de qualquer forma.

Ontem, eram talvez umas onze e qualquer coisa, recebi uma mensagem também via facebook de um inspector da Polícia Judiciária que me deixava o contacto para que eu contactasse hoje a Polícia Judiciária. Respondi de imediato dizendo que deixava o meu contacto e que estava ao dispor para o que entendessem necessário. O senhor ligou-me e pediu-me para estar hoje na Polícia Judiciária.

Porque é que decidiu ir até à zona da tragédia?

Em 1996 tive uma intervenção de apoio humanitário com a Guerra do Kosovo. Foi nessa altura que me apercebi de uma série de situações e de irregularidades, que aliás na altura, como não havia internet, não foram tão noticiadas. Como não consigo ficar indiferente às situações que acontecem às pessoas - que também me podiam acontecer a mim, aos meus filhos, de férias, à minha família - tento sempre ir ao local.

Não comparticipo com dinheiro. Esse não é o tipo de apoio que estou disponível a dar. Poucos dias depois dos incêndios fui ao quartel de Pedrógão Grande entregar exactamente aquilo que pediam: pomadas, ligaduras, etc. Fui de noite, não conhecia o caminho, fui sozinha. Tive o apoio de uma farmácia local de Linda-a-Velha que se ofereceu para vender os medicamentos e as pomadas a preço de custo. Fiquei a ajudar no quartel e depois fui à junta de freguesia, pois entendia que me daria uma identificação e me responderia quais são as aldeias mais afectadas.

Mas a junta de Castanheira de Pera respondeu-me: "Olhe, nós não tratamos de nada disso. Vá ali aos Médicos do Mundo e entregue que eles tratam". Voltei a repetir que só entregava em mão e fui directa às aldeias. Fui primeiro a Vermelho, depois fui a Nogueirinho... aliás, saí de Castanheira de Pera com as pessoas a dizerem-me "são muito mais" [os mortos], o que eu achei estranho. Ouvi novamente essas descrições ou essa referência nas várias pessoas com que me cruzei. Distribuí o que levava. Sobrou-me uma caixa de fraldas, porque não havia um bebé. Voltei para Lisboa com isso.

Voltei dia 17 de Julho, 30 dias depois do início do incêndio, porque entendi que devia e queria levar vida. Foi com alguma estranheza que com menos de 500 euros eu comprei 700 mudas de hortícolas e 73 animais. Contei com o apoio não só de amigos, mas de uma paróquia do Parque das Nações, da Igreja da Nossa Senhora dos Navegantes e de um padre de Bragança. É a primeira vez que estou a falar com um jornalista sobre isto, mas lamento que com tantos milhões que estão confiados por todos os portugueses para ajuda às pessoas eu pergunto-me: "Com meio milhão quantos animais e hortícolas é que já poderiam estar nestas famílias que passaram por tudo isto?"


O Governo já reconheceu os incêndios que atingiram o centro do país em Junho como uma catástrofe natural e activou um apoio de dez milhões de euros, segundo um despacho suplementar.

O incêndio que deflagrou a 17 de Junho em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, provocou pelo menos 64 mortos e mais de 200 feridos e só foi dado como extinto uma semana depois.

Mais de dois mil operacionais estiveram envolvidos no combate às chamas, que consumiram 53 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 75 mil campos de futebol.

Pedrógão, um mês depois. Sobreviver depois de perder quase tudo
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Comentários
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  • Ana Carvalho
    26 jul, 2017 Damaia 15:05
    Mais um esquema D. Isabel Monteiro? Quantas mais empresas vai dar falência e deixar toda a gente, empregados inclusivé, sem um tostão furado?! Eu tinha muita vergonha na cara de aparecer na televisão depois dum estorial como o seu...
  • E agora?
    26 jul, 2017 Lx 09:21
    Que se conhece a lista sem alterações e que a sra empresaria foi longe demais e errou alarmando o país com a conivência de media que vão atrás do que lhes dê aumento de audiências, não vai ser penalizada pela efeitos causados? Só assim se evitará que outros irresponsáveis e desejosos de protagonismo tenham infantilidades desta natureza!
  • Pedro
    26 jul, 2017 Aveiro 00:47
    Acho que a sra não está a fazer nenhum favor partidário. Simplesmente divulgou o que lhe disseram. Resta saber se é verdade.
  • ao americo
    25 jul, 2017 lx 19:51
    E essa conclusão é fundamentada em quê? Na sua restrita opinião! Que vale o que vale!
  • fernando
    25 jul, 2017 ferreira 19:49
    mas alguem confia em esquerdistas e comunistas? são corruptos e mentirosos
  • Americo
    25 jul, 2017 Leiria 19:33
    Boa tarde. Ao ler estes "comentários" chego à triste conclusão que Portugal está mesmo doente.
  • Hugo Silva
    25 jul, 2017 Ourém 17:21
    Mas apareceram mais mortos? Aonde? Mas que palhaçada. Frete político ao Passos à custa duma tragédia nacional. Já chega desta fantochada.
  • as lamentações
    25 jul, 2017 lx 17:11
    desta sra, quanto ao dinheiro, mais de 1 milhão de euros, doado pelos portugueses, talvez as devesse dirigir ao sr presidente da união das misericórdias, que ficou com essa incumbência, pelo menos na noite da festa dos artistas, transmitida na RTP!...já se lembrou disso?
  • fanã
    25 jul, 2017 aveiro 17:07
    Como é que uma cidadã, consegue refutar um levantamento exaustivo comunicado por as diversas autoridades competentes encarregues desse levantamento ??.......... por via de uma comunicação social de imprensa ?.... Conclusão!.........além desta desgraça, esta individua só veio deitar mais gasolina na fogueira, como se mais três ou quatro vitimas muda-se o quer que seja. Quanto ao memorial , seria mais da iniciativa desta comunidade em sintonia com as autarquias locais o que não deixo de querer que seria o que estas ...mais tarde acabariam por propor e edificar. Quanto a esta Sra. cujo rosto vi e voz ouvi, costuma-se dizer "que uma cara diz tudo", a mim deu-me vontade de vomitar de ver tanto protagonismo, ao serviço de quem ...resta a saber !
  • Mas esta,
    25 jul, 2017 lx 16:24
    ilustríssima, compara a situação de guerra do Kosovo com os incêndios de Pedrógão Grande?...Esta ilustre deve estar lé lé da cuca ou então em busca de protagonismo ou de negócio! Para a construção de um memorial precisa da listagem? Mas a lista não está em segredo de justiça e a ser investigada? Mas quem é que lhe encomendou semelhante construção? Não há na região autarcas eleitos, representantes das populações, que deveriam ser previamente auscultados? Estamos onde? Na Venezuela?...