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Crónicas da América
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Análise

“Charme” português em Nova Iorque à procura de investimento americano

20 jun, 2017 - 23:39 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

Seminário promovido pelo AICEP e Câmara de Comércio Luso-Americana enaltece “virtudes” portuguesas e mostra talentos empresariais. Ministro da Economia prevê crescimento de 3% para segundo trimestre. Indicadores económicos fundamentam optimismo.
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Portugal tem charme? E charme é a palavra adequada para definir a capacidade de atracção do país no estrangeiro? A avaliar pelos participantes num seminário em Nova Iorque, esta terça-feira, promovido pelo AICEP e pela Câmara de Comércio Portugal-Estados Unidos, parece que sim.

Charme foi a palavra mais consensual quando o moderador de um dos painéis desafiou os presentes a encontrar um termo que melhor condensasse as características do país e melhor o “vendesse” lá fora.

E este “lá fora” não inclui, naturalmente, o salão do elitista Harvard Club, em Manhattan, onde o seminário decorreu, porque aí toda a gente estava de acordo que Portugal tem muitas outras características que o recomendam. Segurança — somos o terceiro país mais seguro do mundo, depois da Islândia e Nova Zelândia, o que nos dias de hoje não é despiciendo.

Estabilidade política e social, bom clima, boas praias, belas paisagens, boa comida, óptimos vinhos, vida barata, boa localização geográfica, boas infraestruturas rodoviárias e de banda larga, jovens gerações bem preparadas e com bom domínio do inglês, simpatia generalizada, alegria de viver, talento profissional e criatividade q.b.. Basta?

Não. E não porque estas são características que já existem há muito tempo e nem por isso o país tem atraído muito investimento americano. O que falta então? Falta “aumentar o conhecimento do país”, falta fazer mais para que mais americanos conheçam tais características e se deixem seduzir por elas.

Euro, Guterres, Salvador. E euros

Rolando Martins, da Sogrape, invocou um célebre tema do velho grupo de rock Genesis — “I know what I like and I like what I know”, sei do que gosto e gosto daquilo que conheço — para ilustrar a situação. Não se pode gostar do que não se conhece. Por isso, é preciso continuar a trabalhar para divulgar Portugal junto daqueles que não o conhecem.

O momento é propício. Muito propício mesmo, já que nunca como agora tanta gente prestou atenção ao país. A vitória no Euro 2016, a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU e até a vitória no festival da Eurovisão foram os acontecimentos recentes evocados por alguns oradores para defender a necessidade de “cavalgar” a onda positiva do país para o projectar mais internacionalmente.

Num registo mais adequado à audiência, foram vários os que lembraram outras “virtudes”: a recente Web Summit levou a Lisboa cerca de cinco mil americanos e a próxima cimeira vai decorrer também na capital portuguesa; em 2016, houve mais 30% de turistas americanos em Portugal do que em 2015; este ano, só no primeiro trimestre já houve uma subida de 40%; a TAP mais do que duplicou o tráfego entre os dois países depois de há um ano ter aberto as novas rotas de Boston e do aeroporto JFK em Nova Iorque, o que parece comprovar o sucesso da campanha de fazer uma escala em Portugal quando se visita a Europa.

Mas aquilo em que mais se estriba a onda optimista do país são os indicadores económicos positivos, que o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, recordou. O controlo do défice orçamental, a taxa de crescimento económico de 2,8% no primeiro trimestre, a previsão de que no segundo trimestre poderá atingir os 3%, o equilíbrio tendencial da balança comercial, o aumento do investimento privado em 9% no primeiro trimestre e uma economia sustentável e equilibrada no futuro próximo.

Um desempenho económico que mereceu elogios de William Buiter, economista-chefe do Citibank de Nova Iorque, e que marcou, afinal, a grande diferença entre o seminário deste ano e o seu congénere do ano passado.

Em 2016, foi Mário Centeno quem se dirigiu aos presentes com um discurso igualmente optimista sobre o curso da economia portuguesa, mas nessa altura eram maiores as dúvidas do que as certezas. O cepticismo pairava na sala quando o ministro da Finanças enumerou as “virtudes” portuguesas, que eram as mesmas deste ano. Só que a recuperação económico-financeira não passava ainda de uma promessa.

"Made in Portugal"

Caldeira Cabral teve, por isso, este ano a seu favor os indicadores económicos que faltavam a Centeno. Mas teve também o contributo de alguns investidores portugueses cujas empresas são líderes mundiais no respectivo sector. São os casos de Peter Villax (português, embora o nome não o seja), da Hovione, que na área da saúde e investigação laboratorial é o maior empregador privado de doutorados do país; Luís Teixeira, da Farfetch, uma plataforma digital para compra de artigos de luxo; Carlos Alves, da Outsystems, uma produtora de software e aplicações para a web; e Rui Paiva, da WeDo Technologies, que produz software para gestão e optimização da eficiência empresarial.

Tudo empresas nascidas e crescidas em Portugal, mas que se expandiram para todo o mundo, nomeadamente para os Estados Unidos, e não receiam a concorrência internacional. Apenas alguns dados a título de exemplo: a Hovione tem feito cerca de 10% dos produtos que a Federal Drug Administration (autoridade americana do medicamento) aprova todos os anos; a WeDo emprega 600 pessoas de 21 nacionalidades e tem vários escritórios na América; e a Farfetch emprega 1.700 pessoas também de 21 nacionalidades um pouco por todo o mundo.

Exemplos que provam que “o maior défice em Portugal está na liderança, não no talento”, como diagnosticou Peter Villax, embora acrescentando que o sector das tecnologias de informação (IT) é diferente dos outros, porque nele se recruta talento, ao contrário de muitos outros onde “os líderes não o fazem porque não querem ser ultrapassados”. Um empresário que crê no talento português, mas que lamenta que colectivamente não sejamos capazes das mesmas performances como somos a nível individual.

E o que tem ganho o país colectivamente com estes talentos individuais afinal? A imagem externa parece estar a mudar aos poucos. Para Paulo Melo, da têxtil Somelos, dantes era muito difícil impor no mercado do seu sector o “made in Portugal”. Hoje, “o nome do país é uma mais-valia” no têxtil, assegura, exemplificando com os clientes que tem em Nova Iorque e que prezam o produto que importam de Portugal.

Talvez Portugal já não seja só as vitórias no futebol ou na Eurovisão. E já não seja só três sílabas, como lamentava O’Neil. Talvez…

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