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Acidente nuclear em Almaraz pode afectar 800 mil pessoas em Portugal

16 mai, 2017 - 07:00 • Dina Soares

O Exército simulou como Portugal seria afectado em caso de acidente grave na central nuclear espanhola. Norte seria a região mais afectada. A Protecção Civil desconhece o estudo, feito em 2010.
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Cerca de 800 mil pessoas em Portugal podem ser afectadas pela radioactividade caso ocorra um acidente grave na central nuclear de Almaraz, em Espanha, revela uma simulação feita pelo Exército em 2010 a que a Renascença teve acesso.

A simulação, feita pelo Elemento de Defesa Biológico, Químico e Radiológico do Comando das Forças Terrestres a partir de um programa da Nato, tem como base um cenário idêntico ao acidente de Chernobyl, em 1986 – o rebentamento de um reactor, seguido de incêndio.

A simulação foi feita a partir do cenário mais perigoso, com uma probabilidade de ocorrência muito baixa, sublinha a major de engenharia Ana Silva, comandante desta força do Exército, em declarações à Renascença.

O programa simula a evolução da nuvem radioactiva nas 40 horas que se seguem à explosão e a sua deslocação pelo território português, onde chegaria 12 horas após o acidente.

“Os distritos atingidos pela nuvem radioactiva são os que ficam no norte de Portugal, sendo que o distrito de Castelo Branco será o mais afectado, mas sempre com valores baixos de radioactividade. No total, prevê-se que afecte 800 mil pessoas”, revela a major Ana Silva.

De acordo com esta oficial do Exército, “dada a proximidade com a fronteira espanhola, os concelhos de Idanha-a-Nova, Castelo Branco e Penamacor, onde vivem cerca de 45 mil pessoas, registam o maior nível de afectação”.

No entanto, “o problema não é tanto o que resulta da exposição imediata à radiação, mas sim os efeitos que se podem manifestar caso a exposição seja prolongada”.

Apenas os 170 habitantes de Segura, uma aldeia do concelho de Idanha-a-Nova, teriam que ser retirados de suas casas como medida de precaução. Nesta povoação fronteiriça, ninguém conhece o estudo do Exército nem as medidas de segurança a adoptar em caso de acidente nuclear.

Quanto ao nível de radiação, os valores registados vão desde os 100 sieverts por hora, no local da explosão, até 0,1, que será sensivelmente o valor que afecta o território português. O sievert é a unidade usada para avaliar o impacto da radiação sobre os seres humanos, medindo os efeitos biológicos em tecidos vivos produzidos pela radiação absorvida. A absorção de um sievert implica uma possibilidade de desenvolver cancro na ordem dos 5,5%. Doses superiores a 1 sievert adquiridas num curto período podem causar envenenamento por radiação e matar em poucas semanas.

Radiação aumenta possibilidades de cancro

O trajecto da nuvem radioactiva libertada após um acidente grave em Almaraz foi calculado com base na análise das condições meteorológicas registadas entre 2000 e 2010 e tendo também em conta o relevo do terreno.

“Nas primeiras horas após o rebentamento, a nuvem avança para oeste. A seguir, e por influência tanto da cordilheira a norte da central como da Serra da Estrela, passa a deslocar-se para norte”, explica a major Ana Silva.

Quanto ao nível de radiação, os valores registados vão desde os 100 sieverts por hora, no local da explosão, até 0,1, que será sensivelmente o valor que afecta o território português.

O sievert é a unidade usada para avaliar o impacto da radiação sobre os seres humanos, medindo os efeitos biológicos em tecidos vivos produzidos pela radiação absorvida.

A absorção de um sievert (10 vezes mais do que o nível previsto para Portugal) implica uma possibilidade de desenvolver cancro na ordem dos 5,5%. Doses superiores a 1 sievert adquiridas num curto período podem causar envenenamento por radiação e matar em poucas semanas.

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Protecção Civil desconhece estudo

O Elemento de Defesa Biológico Químico e Radiológico do Comando das Forças Terrestre já apresentou a sua simulação aos técnicos de Almaraz e as previsões das consequências coincidem. No entanto, nunca se organizaram exercícios conjuntos nem há planeamento partilhado entre Portugal e Espanha.

A Autoridade Nacional de Protecção Civil não conhece o estudo nem realizou nenhum exercício com base nas suas conclusões.

A major Ana Silva considera desejável a realização de exercícios conjuntos, bem como a informação das populações mais afectadas sobre o que devem fazer em caso de acidente, até porque as medidas são muito simples.

“Não são necessários equipamentos especiais. Basta que as pessoas se fechem em casa, desliguem os aparelhos de ar condicionado, cortem todo o contacto com o exterior e não utilizem água da torneira até que as autoridades comuniquem que o perigo passou”, esclarece a oficial do Exército.

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  • couto machado
    19 mai, 2017 porto 15:48
    Vamos lá ver se a malta percebe: uma coisa é: PODEMOS SER AFECTADOS; outra coisa é: SOMOS AFECTADOS. Em que ficamos ?
  • orfeu
    17 mai, 2017 18:00
    Que fiquem bem identificados os governantes que aprovaram a continuidade de Almaraz. Oxalá não seja preciso, mas se for vamos saber quem eles são!
  • ao mattos sebastian
    17 mai, 2017 lis 17:24
    não ouviu ou ouviu mal, o ministro! É que o exercito não fez qualquer estudo! Entendido?...Ou ainda precisa de um desenho?
  • De Mattos Sébastien
    17 mai, 2017 Ortiga 00:07
    Comentário para o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiro: o senhor Ministro está mais preocupado em desmentir a existência deste estudo do Exercito, do que em elaborar um novo! Incompreensível e por estas e outras as populações fronteiriças e ribeirinhas do rio Tejo continuam abandonadas. Deus nos ajude com Ministros assim. Sobre a Protecção Civil: Mas então a PCivil alguma vez sabe de alguma coisa?. Saberá por exemplo que estamos a ser assinados nas margens do Tejo com metais pesados usados pela industria de celulose e outras?
  • antonio
    16 mai, 2017 lisboa 17:32
    E a novidade qual é? Nunca interessou divulgar o "problema". Inclusivé o PNR já alertou diversas vezes para a situação. Não existe um plano de emergência, nem informação às pessoas!!!
  • João
    16 mai, 2017 Castelo Branco 16:56
    Castelo Branco fica no norte? pensava que estávamos na região centro... Já agora, em nos três concelhos citados vivem cerca de 70.000 pessoas, não são 45.000. O despovoamento do interior é uma facto, mas ainda não chegou a tais extremos.
  • Diogo
    16 mai, 2017 09:24
    Castelo Branco é... o centro de Portugal. O norte...?
  • Daniel
    16 mai, 2017 Entroncamento 08:20
    Eu gostva era de ver um estudo sobre quantas pessoas seriam afectas por um possivél acidente no reactor nuclear experimental do ITN instalado em SACAVÉM!