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Meses de reuniões, dois aviões e incerteza. Como se prepara a viagem de avião do Papa

12 mai, 2017 - 11:46 • João Carlos Malta

O comandante que transportou o Papa Bento XVI do Porto para Roma detalha todo o processo. São meses de reuniões, muitas surpresas e a incerteza, quase até à última, sobre qual será a aeronave em que o Papa entra.
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Até ao último momento pode haver incerteza sobre qual o avião em que o Papa vai entrar. Na pista, estão dois aparelhos prontos a descolar. Iguais. Mediante o nível de alerta, a escolha é feita, mais perto ou com mais distância face à hora da partida. Mas nada, rigorosamente nada é deixado ao acaso.

Francisco tem chegada prevista a Fátima para esta sexta-feira à tarde, depois de ter aterrado na base aérea de Monte Real. Levantará voo 22 horas depois, de regresso a Roma.

Mas voltemos à preparação da operação. Tudo começa muitos meses antes com uma bateria de reuniões com as dezenas de pessoas envolvidas. O piloto tem de reunir com elementos do “staff” do Vaticano, com o pessoal do “catering”, com os operadores de “handling”, a segurança e as relações públicas.

É o início de um longo processo que a TAP voltou a repetir na preparação do quinto voo que faz com um Papa.

O comandante Manuel Falé Borges, que transportou Bento XVI do Porto para Roma em 2010, pormenorizou à Renascença os passos que teve de seguir até “cumprir um dos momentos mais gratificantes de toda a carreira”.

Depois de acertados todos os detalhes pré-voo, segue-se a escolha do tipo de avião que vai fazer a viagem. O passo seguinte é a reconfiguração e ajustes no interior da aeronave para que o Papa possa viajar no maior conforto possível.

Na lista de passos a ter em conta, há ainda a escolha da tripulação – ou melhor, de duas tripulações. Nada pode falhar. Se alguém faltar tem de ser substituído de imediato. A escolha do pessoal tem como parâmetros a hierarquia na companhia e a antiguidade.

Já mais próximo da data, poucos dias antes, faz-se o planeamento do voo através do “despacho operacional”. No documento, há várias informações sobre os aeroportos de partida e de chegada, as inoperacionalidades identificadas e ainda os dados climatéricos.

Já no dia, pouco antes de o avião descolar, os tripulantes de cabine e o pessoal técnico preparam tudo antes de o Papa entrar. Quando tudo estiver a postos, o avião parte, finalmente.

Mas no processo há ainda espaço para algumas surpresas. No voo de Bento XVI, em Maio de 2010, foi preparado um jogo de pratos da Vista Alegre com um escudo do Vaticano desenhado, lembra Falé Borges.

O comandante recorda ainda que não contava com a leitura de textos do Papa, durante o voo, destinados a todos os países sobre os quais o A320 que pilotava sobrevoou (Portugal, Espanha, França e Itália).

O ex-comandante da TAP refere que não pode precisar todos os detalhes de segurança que envolvem uma operação desta dimensão porque isso, naturalmente, daria dados preciosos a quem pode querer engendrar um plano para furar os cuidados que foram tomados.

Em 2017, o risco de atentado é bastante maior do que há sete anos, o que leva Falé Borges a dizer que o nível de segurança terá aumentado, apesar de na altura as regras serem já bastante apertadas.

Momento directo ao álbum de recordações

Quando se é responsável pela vida de um Papa, a adrenalina sobe. Mas, acima disso, para Manuel Falé Borges, foi “um privilégio” e uma “honra” transportar o Santo Padre.

As recordações mais fortes dessa experiência única foram conhecer Bento XVI e trocar algumas palavras com ele. “Pareceu-me uma pessoa grande. E essas pessoas têm algo de grande dentro delas”, verbaliza. “Pareceu-me uma pessoa muito doce e muito tranquila. Foi marcante para mim ser um dos comandantes de voo.”

Lembra também que o agora Papa emérito o abençoou, tal como a uma prenda que ele e o resto da tripulação compraram para um companheiro da transportadora aérea que estava doente e tinha realizado uma intervenção cirúrgica delicada. “Se bem me recordo, a oferta era uma miniatura da hélice de um avião.”

Uma bandeira para a história

Tudo correu como o delineado no voo de Bento XVI entre o Porto e Roma. Ou quase tudo. Uma bandeira atrasou o voo uns minutos na pista.

“O avião transporta sempre a bandeira dos países, neste caso eram a de Portugal e a do Vaticano. O que estava a prender a bandeira à estrutura do avião era uma ligação um pouco frágil e a bandeira caiu quando estávamos a entrar na pista”, relembra.

Porque nada na segurança é deixado ao acaso, foi necessário desligar os motores e chamar o carro de apoio. Passado pouco tempo, o problema estava resolvido. “Na brincadeira, dizemos que foi a maneira que arranjamos de ter o Papa em Portugal, mas não envolveu qualquer risco”, afirma, entre risos.

Falé Borges considera-se um homem de fé, mas também um homem da ciência. Quando levanta voo, pelo sim pelo não, leva as duas consigo na bagagem.

“Sou um homem de fé, mas também acredito muito na ciência e, hoje em dia, a ciência aplicada na indústria aeronáutica é muito evoluída e isso vê-se pelo registo de incidentes se o compararmos com os milhões de horas voadas”, remata.

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