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Análise

Al-Azhar: na corda bamba entre o Estado e o fundamentalismo

26 abr, 2017 - 16:00 • Filipe d'Avillez

O Papa Francisco visita o Egipto para participar numa conferência sobre a paz. A instituição é das mais importantes no mundo islâmico, mas acaba por ser criticada por radicais e liberais.

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O Papa Francisco é um dos principais convidados numa conferência sobre a paz marcada para 28 de Abril, organizada pela Universidade Al-Azhar, no Egipto.

O objectivo da conferência é criar uma nova plataforma de diálogo entre cristãos e muçulmanos e o facto de o grão-imã da Universidade, o sheikh Ahmed al-Tayib, ter conseguido reunir no local os líderes das três maiores comunhões cristãs do mundo – o Papa Francisco, o patriarca de Constantinopla e o Papa Tawadros II de Alexandria é revelador da seriedade do evento e das intenções dos participantes.

A Al-Azhar é vista por muitos como um dos baluartes do islão moderado. As suas decisões e interpretações de ensinamentos islâmicos são aceites com enorme autoridade por muçulmanos sunitas em todo o mundo. Mas, na sua tentativa de apresentar uma face do islão diferente da que tem feito manchetes há mais de década e meia por causa de grupos terroristas, o Al-Azhar faz um difícil jogo de equilibrismo que lhe acaba por merecer críticas de vários frentes e realça um dos principais problemas do Islão: o facto de não ter uma hierarquia centralizada nem uma figura como o Papa que pode, em último caso, decretar quais são as posições correctas ou erradas acerca de um assunto.

Durante vários séculos, esse papel era desempenhado pelo Sultão do Império Otomano, que dominava grande parte do mundo islâmico, mas com a queda dos sultões desapareceu a figura política e cada imã, em cada mesquita, tornou-se, efectivamente, senhor da doutrina que ensina.

Em vários países, porém, a tentação de os políticos controlarem as mensagens políticas não desapareceu. Na Turquia, por exemplo, todos os sermões são escritos por um departamento do Estado que, depois, os envia para os imãs locais e, recentemente, o Presidente do Egipto criou uma figura institucional para fazer o mesmo.

O acto enfureceu a Al-Azhar, cujo órgão oficial, “A Voz do Al-Azhar”, tem publicado artigos a criticar a medida e outras da parte do Governo que entende como sendo intrusivas. Outro exemplo surgiu quando o Presidente Sisi sugeriu que se mudassem as leis para que não bastasse a um muçulmano dizer três vezes a palavra “divórcio” para se divorciar da sua mulher. A universidade respondeu que isso era impossível - o islão permite-o e, portanto, não há nada a fazer.

A relação difícil entre a Al-Azhar e o Estado egípcio não é só embirração, é também uma importante estratégia. Uma relação demasiado próxima poderia ser desastrosa para a reputação da instituição, dando força aos fundamentalistas que já afirmam que a universidade está ao serviço do Governo ou de outras forças que não têm em vista a defesa do islão.

Esta situação realça uma dificuldade que se vai repetindo no mundo islâmico. Sempre que uma voz influente se levanta para criticar o fundamentalismo e estender a mão a cristãos ou outras minorias perseguidas – incluindo outras comunidades islâmicas consideradas heterodoxas ou demasiado liberais – acaba por ver a sua credibilidade minada por grande parte do clero muçulmano, o que afecta o peso de qualquer afirmação ou conclusão que esses encontros possam produzir.

Este facto agrava-se nas sociedades em que existem mais muçulmanos conservadores ou fundamentalistas, que são, ironicamente, as sociedades que mais poderiam beneficiar do pensamento dos muçulmanos reformistas ou liberais.

Daí que, quando o grão-imã receber o Papa e restantes líderes cristãos, na sexta-feira, estará, por um lado, a consolidar a sua posição como uma das principais vozes do islão, mas, ao mesmo tempo, arrisca ser visto por muitos como um traidor à religião que serve. Neste contexto, uma relação crispada com o regime que derrubou o Governo da Irmandade Muçulmana e com o Presidente que já apelou publicamente à reforma do islão, pode ser mais útil do que parece à primeira vista.

Visita a acompanhar na Renascença

O Papa Francisco parte de Roma às 9h45 de sexta-feira (esta e todas as horas dadas são de Portugal continental) e tem chegada prevista ao Cairo às 13h. Parte então para o palácio presidencial, onde será recebido pelo presidente al-Sisi e o grão-imã da Universidade al-Azhar, Ahmed al-Tayeb. Após os tradicionais discursos de boas-vindas, Francisco e al-Tayeb discursam para os participantes da conferência sobre a paz, que decorre na al-Azhar.

Às 15h30 desse mesmo dia Francisco encontra-se com as autoridades locais e com o patriarca da Igreja Ortodoxa Copta, o Papa Tawadros II, havendo lugar a discursos de ambos os líderes religiosos.

A visita prossegue no sábado, com missa às 9h no Cairo para a pequena comunidade católica do país – sendo que a maioria dos 10 milhões de cristãos egípcios são ortodoxos. Segue-se almoço com os bispos do Egipto às 11h15 e às 14h15 um encontro de oração com religiosos e clero egípcio.

Francisco parte do Egipto às 16h de sábado, com chegada prevista a Roma às 19h30.

A Renascença acompanha toda a visita com transmissões ao vivo no site dos principais momentos públicos, comentário e reportagem em antena e análise dos principais eventos e discursos. A vaticanista Aura Miguel estará também no Egipto.


A Renascença com o Papa Francisco no Egipto. Apoio: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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