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Papa nas TED Talks pede "revolução da ternura" e humildade aos poderosos

26 abr, 2017 - 11:26

“Porque é que o único futuro merecedor de ser construído é o que inclui toda a gente” é o título da intervenção de Francisco, a primeira de um Papa naquele fórum de divulgação de ideias.

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Papa nas TED Talks. “O futuro é feito de encontros"
Papa nas TED Talks. “O futuro é feito de encontros"

O Papa participou, esta quarta-feira de madrugada, nas TED Talks, um conhecido fórum de divulgação de ideias inovadoras. A participação do Papa teve a duração de 18 minutos e inseriu-se no conjunto de intervenções subordinadas ao tema “The Future You”.

Na sua mensagem, emitida a partir do Vaticano, Francisco defende que uma só pessoa é suficiente para que haja esperança e que “essa pessoa podes ser tu”.

“Gosto muito do tema – ‘The Future You’ – porque, ao mesmo tempo que olha para o amanhã, convida-nos a iniciar o diálogo já hoje; a olhar para o futuro através de um ‘tu’”, começa por dizer.

“O futuro é feito de ‘tus’, de encontros, porque a vida flui através da nossa relação com os outros”, prossegue, sublinhando: “A vida não é tempo que passa, é tempo de encontro”.

Numa intervenção preenchida de esperança para as pessoas de todos os credos e dirigida aos que detêm o poder e aos que não o têm, o Papa deixa três mensagens fundamentais.

O outro, nós, tudo ligado

“Primeiro e acima de tudo, adoraria que este fórum pudesse ajudar-nos a lembrar que todos precisamos uns dos outros, nenhum de nós é uma ilha, um ‘eu’ autónomo e independente separado do outro, e que apenas podemos construir o futuro se nos mantivermos juntos, todos”.

Apesar “de não pensarmos muito nisto, tudo está ligado”, afirma Francisco, reconhecendo que ele próprio luta contra sentimentos do seu íntimo.

“O duro julgamento que fazemos de um irmão ou irmã, a ferida que não sara, a ofensa que nunca foi perdoada, o rancor que só me vai fazer mal – são tudo exemplos de um combate que levo dentro de mim, uma brasa profunda no meu coração que precisa de ser extinta antes que se transforme em chamas, deixando apenas um rasto de cinzas”.

Por isso, sublinha, “a felicidade só pode ser descoberta como um presente da harmonia entre o todo e o individual. Até a ciência – e vocês sabem-no melhor do que eu – aponta para o entendimento da realidade como um lugar em que cada elemento se relaciona e interage com tudo o resto”.

Solidariedade “é uma resposta livre”

Francisco parte para a segunda mensagem com um desejo: “Como seria maravilhoso que o desenvolvimento da inovação científica e tecnológica se fizesse a par com a integração social e a igualdade. Que maravilhoso seria se, ao mesmo tempo que se descobrem planetas distantes, redescobríssemos os irmãos e irmãs que orbitam à nossa volta”.

O Papa considera que “só através de uma educação para a verdadeira solidariedade conseguiremos ultrapassar a ‘cultura do desperdício’, que não tem a ver apenas com comida e bens, mas, acima de tudo, com pessoas que são postas de parte pelos nossos sistemas tecno-económicos”.

Francisco diz que “muitos desejam apagar o termo ‘solidariedade’ do dicionário” e realça que a “solidariedade não é um mecanismo autónomo. Não pode ser programado ou controlado. É sim uma resposta livre, nascida no coração de todos e cada um. Sim, é uma resposta livre!”, insiste.

“Para fazer o bem, precisamos de memória, precisamos de coragem e de criatividade. E eu sei que as TED Talks reúnem muitas mentes criativas. Sim, o amor implica uma atitude engenhosa, concreta e criativa”, afirmou.

Francisco recorreu depois à parábola do Bom Samaritano para descrever “a história da humanidade hoje”, em que as pessoas vivem em sofrimento, “e que tudo gira à volta do dinheiro e de coisas em vez das pessoas”.

“E quantas vezes pessoas que se autotitulam ‘respeitáveis’ não tomam conta dos outros, deixando para trás milhares de seres humanos ou populações inteiras à beira da estrada. Felizmente, há quem esteja a criar um mundo novo tomando conta dos outros às suas expensas”, afirmou.

“Felizmente”, prosseguiu o Papa, “não há sistema que possa anular o desejo de nos abrirmos ao bem, à compaixão ou a nossa capacidade de reagir ao mal”.

“Todos e cada um de nós é insubstituível aos olhos de Deus. Na escuridão dos conflitos actuais, cada um nós pode tornar-se uma vela brilhante, uma lembrança de que a luz vencerá a escuridão e não o contrário”, sublinhou.

“A esperança começa contigo”

“A esperança é a porta que se abre para o futuro. É uma pequena semente escondida na vida que, com o tempo, se transforma numa grande árvore”, diz Francisco, lembrando que “um só indivíduo é suficiente para que exista esperança”.

“E esse indivíduo podes ser tu. E haverá outro tu’ e outro ‘tu que se transformarão em ‘nós’. Mas a esperança começa quando temos um ‘nós’? Não. A esperança começa com um só ‘tu’. Quanto temos um ‘nós’ começa a revolução”, explica.

A revolução

A terceira mensagem da participação do Papa nas TED Talks diz respeito à “revolução da ternura”.

“O que é a ternura?”, começa por questionar. “É o amor que se torna próximo e real. É um movimento que começa no nosso coração e alcança as mãos, os ouvidos e os olhos. Ternura significa usar os olhos para ver o outro e os ouvidos para ouvir o outro, as crianças e os pobres que não têm medo do futuro. Para escutar também o choro silencioso da nossa casa comum, da nossa poluída e doente Terra. Ternura significa usar as nossas mãos e o nosso coração para confortar os outros e tomar conta dos mais necessitados”, descreveu Francisco.

Mas ternura é também “a linguagem das nossas crianças, daqueles que precisam do outro”. Comparando o que se passa na comunicação entre pais e filhos, acrescenta: “ternura é estar ao mesmo nível que o outro”.

E, mais uma vez, trata-se de uma escolha. “Sim, ternura é o caminho da escolha por homens e mulheres mais corajosos e fortes. Ternura não é fraqueza; é uma fortaleza”.

“Permitam-me ser claro nisto e dizê-lo bem alto: quanto mais poderoso fores, mais as tuas acções terão um impacto nas pessoas e mais humilde deverás ser. Se não fores, o teu poder irá arruinar-te e arruinar o outro”, afirma ainda o Papa dirigindo-se a quem detém o poder.

E sublinha: “O futuro da humanidade não está exclusivamente na mãos dos políticos, de grandes líderes ou de grandes empresas. Sim, eles têm uma enorme responsabilidade, mas o futuro está, acima de tudo, nas mãos das pessoas que reconhecem o outro como um ‘tu’ e a si próprias como parte do ‘nós’”.

“Todos precisamos uns dos outros”, conclui.

A intervenção do Papa, intitulada “Porque é que o único futuro merecedor de ser construído é o que inclui toda a gente”, já está disponível em vídeo no site da organização, em mais de 20 línguas.

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