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​“Crianças têm muita sede de falar de questões espirituais”

03 abr, 2017 - 19:16 • Ângela Roque

Maria Teresa Maia Gonzalez está nomeada pelo segundo ano consecutivo para o prémio ALMA, de literatura infantil. Em entrevista à Renascença fala dos livros que estão quase a sair sobre as aparições de Fátima, das visitas às escolas, do empenho dos professores e da curiosidade dos mais novos.

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É um erro pensar que as crianças não se interessam pela fé e por questões espirituais, diz escritora Maria Teresa Maia Gonzalez numa entrevista à Renascença por ocasião do Dia Internacional do Livro Infantil, que se assinalou no domingo.

Antiga professora é autora de vários livros para crianças e jovens, e vai quase todas as semanas às escolas falar com alunos que trabalham as suas obras.

Também escreve com frequência sobre temas relacionados com a fé e a religião, e tem dado a conhecer várias figuras da Igreja, como Teresa de Calcutá ou Francisco Marto, o pastorinho de Fátima que vai ser canonizado juntamente com a sua irmã, Jacinta. Em entrevista à Renascença, a autora considera um erro pensar-se que as crianças não se interessam pelos temas da fé. E fala dos seus mais recentes livros sobre as aparições de Fátima.

Está nomeada, pelo 2º ano consecutivo, para o prémio ALMA, o mais prestigiado galardão internacional no âmbito da literatura para crianças e jovens. Como é que se sente nesta qualidade?

Sinto uma enorme alegria, não creio de modo nenhum merecê-la, mas é uma honra, vou esforçar-me por merecê-la com o meu trabalho. Foi uma grande surpresa.

O contacto com os jovens tem marcado a sua vida, porque foi também professora durante muitos anos. Escrever para os mais novos é um grande desafio?

É um grande desafio, é um grande prazer, mas acima de tudo, e antes de mais, eu diria que é um dom, que eu estou muito grata a Deus por me ter concedido. Desde logo porque me é fácil revisitar a minha própria infância e a minha própria adolescência, fazer esse mergulho, que é sempre um mergulho de onde eu trago novidades, outras perspectivas, e depois os meus outros mergulhos na infância e na adolescência de hoje, que eu vou tendo oportunidade de fazer nas minhas visitas às escolas e às bibliotecas, nas conversas que tenho até através das videoconferências que faço com muitas escolas, com os alunos que lá se encontram nas bibliotecas escolares para conversar comigo. De tudo isso sai muita inspiração, sai muita vontade de escrever sobre as coisas que inquietam esta juventude. Sobretudo a juventude, mas também as crianças.

Está sempre muito atenta ao que preocupa os mais jovens?

Estou atenta e vou encontrando sempre muitos motivos de reflexão. E por isso escrevo também para os ajudar a reflectir.

Quando vai às escolas falar dos seus livros como é que corre? Há hoje a ideia que os jovens lêem muito pouco. Que percepção é que tem?

Eu só vou às escolas onde os alunos trabalharam algum dos livros que escrevi, para mim é o que faz sentido e, portanto, os diálogos partem sempre das leituras que eles fizeram, das dúvidas que têm, dos comentários que querem fazer e, às vezes, dos trabalhos que fizeram e me querem mostrar, e que são muitas vezes muitíssimo interessantes.

Continua a haver muitos professores interessadíssimos em promover a leitura, não só nas bibliotecas escolares, nas bibliotecas de turma, com inúmeras actividades. Há professores que recorrentemente me convidam, e a outros colegas, e que estão permanentemente a trabalhar neste sentido. E vale a pena falar deles, porque eu penso que nós, autores portugueses para jovens e crianças, também lhes devemos muito. Eu certamente que devo.

E vai muito às escolas?

Vou, todas as semanas do ano lectivo tenho pelo menos uma actividade numa escola.

Como crente, dá atenção aos temas da fé e da espiritualidade, quer em romances, quer nalgumas publicações mais específicas, como a Bíblia para os mais novos (“Passa a Palavra”). Pode dizer-nos que livro é que tem actualmente em mãos?

Olhe, neste momento estão para sair dois livros para os mais pequeninos, que vão ter a chancela da Pass, que é uma marca da Zero a Oito , que têm a ver com as aparições de Fátima. Um chama-se “Tens uma Mensagem”, e o outro chama-se “O Livro da Avé Maria”. Vão sair ao mesmo tempo, agora em Abril. O desafio foi-me lançado pela editora.

Eu já tinha escrito sobre esta temática, mas para jovens, um livro que foi o próprio santuário de Fátima que me convidou a escrever, ao qual eu dei o título “A missão de Francisco”, que já está publicado.

Um romance sobre o pastorinho Francisco Marto, que já se sabe que vai ser santo, juntamente com a sua irmã.

É um romance em que três jovens portugueses de hoje, com as inquietações e os problemas familiares, sociais, e não só, de hoje, e o impacto que tem sobre eles, em especial sobre um deles chamado Francisco, conhecerem a vida dos Pastorinhos, especialmente do Francisco, e como isso transforma a sua vida.

Nós sabemos que a grande importância da mensagem de Nossa Senhora em Fátima é o apelo à conversão, e a coisa mais importante é isso, é sermos capazes de escutar com atenção as palavras da virgem Maria, no sentido de percebermos que elas podem transformar o nosso mundo, e também o mundo dos outros, e é isso que se passa nesse livro. Há realmente uma transformação nas atitudes e comportamentos daqueles jovens que têm contacto com aquilo que se passou com os Pastorinhos.

Agora, para as crianças, naturalmente que os livros são diferentes, a linguagem é muito mais simples, mas procurei na mesma explicar que a mensagem que Nossa Senhora veio trazer àquelas três crianças há 100 anos é também para as crianças de hoje, é para cada um de nós, e portanto está perfeitamente actualizada, porque temas como a paz continuam a ser centrais na nossa vida, e todos nós podemos dar o nosso contributo.

É possível falar destas questões de uma maneira simples e que todos entendam, nomeadamente os mais pequeninos?

Com certeza. E eles entendem e gostam de falar, é muito interessante. Há pessoas que pensam que nas crianças já não há um grande interesse pelas questões espirituais, mas eu acho que é um erro pensar assim, as crianças têm muita sede de falar e de quem lhes fale sobre assuntos importantes, como são as questões por exemplo, da espiritualidade, da fé, da nossa relação com o transcendente. Cada uma delas, mesmo as que não praticam qualquer religião, têm uma noção de Deus, do transcendente, e têm as suas questões, as suas inquietações, as suas dúvidas, e também já as suas ideias, as ideias que foram formando. E é muito interessante ouvi-las e, a partir daí, partir para um diálogo que pode ser um diálogo que dá frutos.

Estes dois livros vão chegar este mês. Já o livro “A missão de Francisco” foi lançado há cerca de um ano…

Na Casa das Candeias, em Fátima. Foi assim um momento muito especial na minha vida.

Agora com a notícia da canonização dos Pastorinhos é um livro que pode suscitar de novo a curiosidade?

Eu espero que sim. É possível encontrá-lo à venda. É uma edição do Santuário, e eu espero que os jovens leiam e fiquem a conhecer a história daqueles três meninos, que é tão apaixonante.

Também escreveu um livro sobre madre Teresa de Calcutá. Tem a preocupação de ir falando das figuras da Igreja que vão marcando as várias épocas?

E madre Teresa é suficientemente recente para os jovens de hoje terem ouvido falar dela, provavelmente até a viram na televisão, ouviram com certeza os pais e outras pessoas falar dela, e portanto eu escrevi “Um lápis chamado Teresa”, visto que madre Teresa se via como um lápis nas mãos de Deus. Eu achei essa ideia maravilhosa, e resolvi escrever também esse livro que foi editado pela Paulinas Editora.

Também é uma jovem chamada Teresa que se interessa pela biografia da madre Teresa. No âmbito da disciplina de Português o professor pede para os jovens fazerem uma biografia, pesquisas sobre alguém famoso, e ela é a única da sua turma que escolhe um santo, os outros escolheram jogadores de futebol, actores, actrizes, cantores, por aí fora. Ela escolheu Teresa de Calcutá e os colegas riram-se dela, mas o que é certo é que ela acabou por ficar fascinada ao conhecer a vida dessa mulher tão extraordinária.

Nestes livros que falam mais sobre estas temáticas da fé também tem “feedback” da reacção de quem lê, dos jovens?

Tenho dos jovens e tenho dos professores. E muitas vezes ouço professores dizerem-me: “ainda bem que falou deste assunto, é preciso que haja pessoas que lhes falem destes assuntos, pessoas que sejam de alguma forma uma referência para eles”.

Quer deixar algum conselho aos pais?

Sobretudo aos pais que são crentes, ou que estejam interessados que os filhos tenham uma educação cristã, de vez em quando visitarem com os filhos uma livraria ou uma biblioteca é algo que pode valer muito a pena a todos os níveis. Apostar e investir na formação espiritual, eu acho que é um dever de todos nós que somos cristãos.

Esta vai continuar a ser uma preocupação sua, enquanto escritora?

É aquilo a que eu chamo uma missão, mesmo.

Comentários
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  • CF
    05 abr, 2017 Oeiras 10:44
    Depurar é revelar, burilar é interpretar.
  • Antonio Ferreira
    03 abr, 2017 Porto 19:57
    Aleluia ! Que mais posso dizer ? Nunca tinha ouvido falar deste escritora de livros infantis, talvez uma falha minha. Mas fico-lhe grato por escrever para as crianças sobre a fé. Um tema que parece ser tabu, em muitas escolas ! Há um enorme défice de literatura para crianças que falem da fé. Independentemente de vivermos num Estado laico, em que eu não me revejo, mas que acho cada um tem o livre arbítrio para fazer as suas escolhas, isso não implica que se feche a porta aos temas da fé. Portugal, continua a ser um país onde as pessoas são maioritariamente católicas e, como tal, nenhum governo deve esquecer esse facto. Quer sejamos; católicos, protestantes, budistas, etc., somos todos filhos de Deus. Somos uma sua partícula, por isso somos constituídos por; corpo e alma. E a alma pertence a Deus. Independentemente do caminho que seguirmos, de qual seja a nossa opção, nunca devemos esquecer isto e, a fé pode ajudar-nos a compreender melhor, tudo isto.