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Trump, Merkel e a f(r)icção das escutas

20 mar, 2017 - 06:50 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

Presidente americano tentou envolver a chanceler alemã no caso das escutas que ele próprio inventou. O contraste entre os dois não podia ter sido maior. Afinidades são nulas.
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A melhor caracterização da visita de Angela Merkel a Washington, na passada sexta-feira, acabou por ser dada por uma piada de Donald Trump, já no final da conferência de imprensa na Casa Branca.

Como sempre acontece nas conferências de imprensa dos Presidentes americanos com dirigentes mundiais, boa parte das perguntas são sobre questões internas dos Estados Unidos. Desta vez, a questão das “escutas” que Obama teria ordenado à Trump Tower, inventadas pelo actual Presidente, tornou-se incontornável.

E, em rigor, o assunto já nem era interno, dado que a Casa Branca o transformou num caso internacional ao fazer suas as palavras de um comentador da Fox News que acusou os serviços secretos britânicos de terem feito as escutas a pedido de Obama.

A alegação suscitou o maior repúdio nas autoridades de Londres, que desmentiram veementemente que tal tivesse acontecido, num incidente que, segundo muitos observadores, afectou o bom relacionamento histórico entre os EUA e o Reino Unido.

Apesar de ter dito pouco antes que se tinha limitado a citar o comentador da Fox e que por isso os jornalistas deviam perguntar à cadeia de televisão e não a ele, Trump não resistiu a ser sarcástico e atirou a seguinte frase: “Pelo menos temos [Trump e Merkel] alguma coisa em comum, talvez”.

Referia-se ao facto de a National Security Agency (NSA) ter tido o telemóvel de Merkel em escuta, segundo as revelações de Edward Snowden em 2013, num incidente que obrigou o Presidente Obama a pedir desculpa à chanceler alemã pelos abusos praticados pela NSA.

Grande parte das pessoas na sala soltou uma gargalhada e a piada surtiu efeito. Mas Merkel, que já arrumava as notas que tinha tirado durante a conferência de imprensa, esboçou um sorriso amarelo, sugerindo algum desagrado.

O incidente revelado por Snowden danificou as relações entre Washington e Berlim durante algum tempo, mas o pedido de desculpas de Obama a Merkel, o facto de o Presidente ser totalmente alheio às escutas e a boa relação entre os dois permitiu ultrapassar o embaraço.

Na verdade, Obama e Merkel partilhavam um grande respeito mútuo e uma grande identidade de pontos de vista sobre os problemas mundiais. Algo que está longe de acontecer com Trump, obviamente, e que este primeiro encontro entre os dois provou inequivocamente.

A frieza com que se relacionaram contrastou, por exemplo, com a simpatia e até algum calor humano que Trump tributou a Theresa May, a primeira-ministra britânica, que visitou Washington há cerca de um mês. Nessa altura, o Presidente americano disse mais do que uma vez que tinha simpatizado com May e que ela era uma daquelas pessoas com quem ele intuiu desde o início do contacto que se iria entender bem.

Mesmo descontando a provável maior simpatia de Trump pelo Reino Unido do que pela Alemanha — sobretudo por um Reino Unido em processo de separação da União Europeia, que Trump tanto elogiou — a chanceler não ouviu qualquer afirmação desse tipo de Trump e talvez a dispensasse plenamente.

Ela própria terá imposto um distanciamento “sanitário” em relação ao seu parceiro, que nunca a tratou por Angela, ao contrário da líder britânica a quem chamou Theresa várias vezes.

Aliás, a antipatia de Trump ficou bem patente quando, na Sala Oval, não correspondeu à solicitação dos repórteres fotográficos e da própria Merkel para apertarem as mãos. Talvez não fosse intencional, talvez não tivesse ouvido o pedido, talvez não tenha havido má fé, mas mesmo que tenha sido esse o caso, não abona nada em favor de um Presidente que, num encontro oficial com a líder de um país aliado, esteja distraído ao ponto de não perceber quando deve apertar a mão à sua convidada.

Para todos os efeitos, é um sinal de indelicadeza e uma “gaffe” protocolar.

É difícil conceber duas personalidades políticas mais antagónicas do que Trump e Merkel. A chanceler alemã é conhecida por ser racional, fria, ponderada, reflexiva, alguém que pensa vezes sem conta nos problemas, deixando-os muitas vezes arrastar-se demasiado até tomar uma decisão.

Além disso, tem uma experiência política de exercício de funções públicas quase ímpar nos dias que correm — Trump é já o terceiro Presidente americano com quem lida. Cultiva o politicamente correcto e respeita as instituições.

Trump é impulsivo, sanguinário, instável, superficial, irracional, que age por instinto e pensa pouco antes de falar ou agir. Não tem pensamento nem experiência política e está em cruzada contra o politicamente correcto.

Não só por ele, mas também por este contraste, havia, naturalmente, grande expectativa em relação ao encontro entre os dois. Para muitos analistas, Merkel surgia em Washington como a líder do mundo livre, lugar que teria preenchido desde que o cargo de Presidente americano é ocupado por Donald Trump, um homem obcecado em colocar a “América primeiro” e que vê inimigos, adversários ou rivais em toda a parte, incluindo entre os mais perenes aliados ocidentais.

Por isso, a frase de Trump que funcionou como uma piada, acabou por ser a melhor confissão — talvez freudiana — daquilo que se passou e que provavelmente sentiu no encontro com a chanceler.

“Pelo menos, temos alguma coisa em comum, talvez”. Ou seja, a única coisa que Trump admitiu ter em comum com Merkel foi mesmo o terem ambos sido alegadamente escutados pela administração Obama.

Aquele “talvez” no fim da frase exprime ainda uma dúvida, mas ficamos sem saber se ela se refere às afinidades com Merkel ou às escutas de Obama.

Uma dúvida que só fará sentido na cabeça de Trump porque, depois de todos os responsáveis das agências de “intelligence” e de inúmeros senadores e congressistas democratas e republicanos terem vindo a público garantir que a administração Obama não ordenou quaisquer escutas à Trump Tower, só mesmo Trump e os seus incondicionais poderiam alimentar essa ficção.

São os “factos alternativos” cultivados pela actual administração para os quais Trump quis arrastar Merkel. A chanceler, obviamente, sorriu amarelo e ignorou o assunto.

Afinal, nem isso têm em comum — só Merkel foi escutada, não Trump. Era difícil, de facto, imaginar maior contraste entre duas personalidades.

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  • Assis Tomé
    21 mar, 2017 Barcelos 01:44
    Parabéns Sr. Jornalista: um excelente artigo e uma visão clara dos (des) caminhos que a Administração de Trump está a testar ou a tentar imprimir aos EUA. Aliás, não percebo o comentário do Sr João Lopes dado que a larga maioria dos jornais reportaram a mesma notícia e idênticas opiniões, carregando ora mais ora menos , num ou noutro aspecto. Mas, pelo que leio, subentendo que D. Trump tem incondicionais, mesmo em Viseu! (Não tenho nada, bem pelo contrário, contra a belíssima terra de Viriato)
  • João Lopes
    20 mar, 2017 Viseu 10:35
    Um funcionário da embaixada da Alemanha teria escrito esta notícia (tão parcial ela é) com mais qualidade e isenção!