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Do mundano ao divino. As "tampas-mistério” de um Rosário único

17 fev, 2017 - 15:05 • Rosário Silva

Exposição pode ser vista até 3 de Março na igreja de S. Vicente, em Évora.
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O título aguça a curiosidade: “Levei uma tampa”. E logo no interior de uma igreja!... Nada melhor do que entrar e descobrir uma exposição... de tampas, daquelas que, normalmente, têm como destino o lixo ou a reciclagem. Dos frascos para as mãos de Sílvia Franco Santos, uma jovem natural de Azambuja, que as transforma em peças de arte.

“Foi uma ideia que nasceu por acaso enquanto dava aulas de desenho”, revela à Renascença a designer e ilustradora.

“Sempre usei as tampas dos frascos como recipientes para misturar as tintas, principalmente para as gotas de tinta-da-china, um dos meios mais usados para quem se inicia no caminho da expressão”. E, foram as marcas da tinta que sobrava, que a fascinaram e “talvez por influência da prática de 'scratchboard' (pintura raspada) comecei a raspá-las, a dar-lhes outras formas, num processo rudimentar e simplificado da mesma técnica”, clarifica.

Com 30 anos feitos há poucos dias e com a sensação de ter concluído um ciclo e iniciado outro, Sílvia criou uma peça a que chamou “Rosário” e que apresenta ao público pela primeira vez na Igreja de S. Vicente, em Évora, um espaço propriedade do município, mas dinamizado pela associação cultural Colecção B.

“Durante a criação desta peça houve momentos de completa devoção à minha fé. Eu não fui a maga que transformou, fui apenas a testemunha que assistiu ao processo alquímico. É claro que, é uma ousadia da minha parte pensar nessa perspectiva, mas a verdade é que senti essa transmutação como uma dádiva que me chegou e pela qual estou imensamente grata”, conta-nos.

E tudo começa com a preparação da tinta-da-china nas respectivas tampas que ficam a secar durante uma semana. Depois de estarem prontas, “dependendo do tamanho e motivo de cada uma, demoro entre 3 a 5 horas a raspar o desenho com estiletes e outros meios que deixem uma marca interessante”, explica a também formadora do curso "Ver Para Crer", Formação em Desenho e Percepção Visual, que criou na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, como projecto de investigação do seu Mestrado.

Afinal, que “Rosário” é este e o que conta?

“Rosário, a mulher grande, a mulher tudo, está representada nas 61 tampas que definem os 5 mistérios de um terço e cada mistério apresenta uma sequência de ascensão ao abismo e vice-versa”, revela-nos.

As seis dezenas de tampas contém “retratos de mulheres em situações de êxtase e devoção e com os quais eu tentei criar uma ligação/ponte entre o mundano e o divino no momento dessa felicidade suprema ou entrega absoluta”.

As tampas “mistério” que a artista intitula para si própria de tampas “milagre” são o “testemunho dessa presença” que diz ter trabalhado por si. “Nessas tampas eu intervim muito pouco, nasceram da energia do momento: do sal na água e da tinta-da-china.”

A Renascença quis saber o que a inspira e de quem são os rostos que desenha. “Olhe, são todas as mulheres e apenas uma só: a que é força, energia, coragem, determinação, poder, ousadia, entrega, mas sobretudo amor e devoção”. Mas, prossegue, “não uma devoção religiosa, mas uma devoção à vida, ao momento presente, ao “sentir tudo de todas as formas como dizia o nosso Pessoa”.

E para esta peça, em concreto, relata-nos que o interesse surgiu daquilo a que chama a “realidade dos rostos” tendo-se baseado em “vídeos reais que encontrei na internet, de pessoas anónimas”, tendo procurado representar “a expressão da sua emoção em determinadas situações.”

Acreditando que “nada é por acaso e que todas as circunstâncias da vida” lhe têm proporcionado “momentos maravilhosamente bons e maus”, nutre-a “um grande sentimento de gratidão para com o Universo, para mim uma forma de fé no amor que nos une a todos”, diz-nos no final de uma conversa que convida à visita da exposição na igreja de S. Vicente, em Évora, até 3 de Março.

É lá que está, à entrada, um recipiente onde o visitante pode deixar uma tampa fazendo jus ao mote “Levei uma Tampa”. O ambiente agradece e a designer também.

Neste novo ciclo, que afirma estar a viver, as ideias fervilham na mente de Sílvia e os projectos correm ligeiros à procura de materialização. No imediato, vai surgir um vídeo/instalação “porque quero dar continuidade a este trabalho que tenho vindo a desenvolver”. Mas não só.

A Évora segue-se uma exposição de aguarelas, em Lisboa e, mais audaz, “um livro de ilustração infantil que vai sair em Junho, no dia da criança”.

Para Março há mais uma formação programada para o seu atelier e, claro, para descobrir “o meu site acabadinho de publicar, www.silviafrancosantos.com“, anuncia Sílvia Franco Santos.

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