O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
A+ / A-

Leia o prefácio que o Papa Francisco escreveu para livro de vítima de abusos sexuais

13 fev, 2017 - 16:39

O Papa Francisco assina o prefácio de um livro escrito por um francês que foi vítima de abusos sexuais praticados por um religioso. Leia aqui o prefácio na íntegra e em português.
A+ / A-

O Papa Francisco escreveu o prefácio para o livro de um homem que foi abusado enquanto criança por um religioso em França. O prefácio foi publicado na íntegra pelo jornal italiano "La Stampa". Segue-se uma tradução portuguesa, da responsabilidade da Renascença, do texto.


"As pessoas que foram vítimas de um pedófilo têm dificuldade em falar daquilo por que passaram e descrever o trauma que persiste mesmo depois de vários anos. O testemunho de Daniel Pittet é, por isso, necessário, de estimado e corajoso.

Conheci o Daniel no Vaticano em 2015, durante o Ano da Vida Consagrada. Ele queria promover em larga escala um livro chamado “Amar é dar tudo”, que reunia testemunhos de religiosos e religiosas, padres e consagrados. Não poderia ter imaginado que este cristão entusiasta e apaixonado tinha sido vítima de abusos sexuais praticados por um padre. Mas foi isso que ele me contou e o seu sofrimento tocou-me profundamente. Vi novamente os terríveis danos causados pelo abuso sexual, bem como a longa e dolorosa caminhada que as vítimas têm pela frente.

Fico feliz por ver que outros podem agora ler o seu testemunho e descobrir até que ponto o mal pode penetrar o coração de um servidor da Igreja.

Como é que um padre ao serviço de Cristo e da sua Igreja pode infligir tanto mal? Como é que alguém que dedicou toda a sua vida para conduzir as crianças até Deus acabar, ao invés, por devorá-las naquilo a que chamei um “sacrifício diabólico” que destrói tanto a vítima como a vida da Igreja? Algumas das vítimas acabam por se suicidar. Estas mortes pesam no coração e na consciência, minha e de toda a Igreja. Às suas famílias ofereço os meus sentimentos de amor e de dor e peço, humildemente, perdão.

É uma absoluta monstruosidade, um pecado horrível, radicalmente contra tudo o que Cristo nos ensinou. Jesus utiliza palavras muito duras contra aqueles que fariam mal a crianças. “Mas, se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar” (Mateus: 18, 6)

Como disse na Carta Apostólica de 4 de Junho de 2016, a nossa Igreja deve cuidar e proteger com especial amor os fracos e os desamparados “como uma mãe amorosa”. Temos afirmado que é nosso dever ser extremamente rigorosos com os padres que traem a sua missão e com a hierarquia, bispos ou cardeais que os protejam, como já aconteceu no passado.

Na sua adversidade, Daniel Pittet encontrou também outra face da Igreja e isso permitiu-lhe não perder a esperança nos homens e em Deus. Fala-nos também do poder da oração que jamais abandonou e que o tem confortado nas horas mais escuras.

Ele optou por se encontrar com o seu atormentador 44 anos mais tarde, para olhar nos olhos daquele que o feriu até à profundeza da sua alma. Estendeu-lhe a mão. A criança ferida é agora um homem erguido, frágil, mas de pé. Fiquei muito impressionado pelas suas palavras: “Muitas pessoas não compreendem o facto de eu não o odiar. Eu perdoei-o e edifiquei a minha vida sobre esse perdão”.

Agradeço ao Daniel, porque os testemunhos como o dele deitam abaixo o muro de silêncio que tem coberto os escândalos e o sofrimento, lançando luz sobre uma área obscura e terrível da vida da Igreja. Abrem o caminho para uma cura justa e para a graça da reconciliação, ajudando os pedófilos a ganhar consciência da terrível consequência das suas acções.

Rezo pelo Daniel e por todos os que, como ele, viram a sua inocência ferida, que Deus os eleve e os cure, e que nos dê a todos o seu perdão e a sua misericórdia."

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.