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2017: O ano em que os computadores aprenderam a fazer “bluff”

02 fev, 2017 - 17:27 • Filipe d'Avillez

Já tínhamos perdido no xadrez e em damas, mas pela primeira vez a humanidade foi derrotada por uma máquina a jogar poker. O princípio do fim, ou meio caminho andado para comprar um carro ao melhor preço?
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Se algum dia as piores profecias da ficção científica se cumprirem, enquanto estiver escondido numa gruta para evitar os drones enviados para eliminar os últimos seres humanos que ainda resistem ao regime das máquinas, lembre-se que tudo começou com um jogo de poker.

Sim, tudo bem, estamos a ser alarmistas. Mas foi precisamente com alarme que o mundo descobriu esta semana que um computador venceu, pela primeira vez, um torneio de poker contra quatro dos melhores profissionais do jogo.

"Libratus", um programa de inteligência artificial desenvolvido pela universidade de Carnegie Mellon, não só venceu como arrasou a concorrência humana num torneio que durou 20 dias. Os jogadores de carne e osso apenas levaram a melhor em cinco desses dias.

No último torneio do género, contra um programa chamado "Claudico", a vitória humana foi arrasadora. “Demos cabo do 'Claudico', fartámo-nos de fazer bluff, mas desta vez parecia que estava a acontecer o oposto”, diz o jogador Dong Kim, de Seattle.

E é precisamente aí que reside a surpresa. É que ao contrário de xadrez e damas, outros dois desportos em que as máquinas já bateram os homens, poker é um jogo em que nenhuma das partes está na posse de toda a informação. Nesse sentido é mais semelhante aos problemas do mundo real. A falta de informação disponível no poker tem de ser compensada com a leitura dos comportamentos humanos e o recurso ao "bluff", a arte de convencer o opositor de que se tem uma mão diferente daquela que se tem na realidade e daí retirar benefício.

“A capacidade da inteligência artificial para raciocinar com base em informação imperfeita já ultrapassou aquela dos melhores humanos”, garante Tuomas Sandholm, criador do "Libratus".

A sua satisfação não deriva apenas do facto de ter criado uma máquina capaz de vencer jogos de cartas: “Pode ser usado em qualquer situação em que a informação se encontra incompleta, incluindo negócios, estratégia militar, segurança cibernética e tratamentos médicos”.

Ponhamos de parte, por momentos, o cenário apocalíptico com que abrimos esta notícia e imaginemos antes uma situação mais simpática. E se a capacidade de fazer “bluff” dos computadores pudesse ser posta ao serviço da humanidade? É o que avança Frank Pfenning, chefe do Departamento de Ciências da Computação da Universidade da Carnegie Mellon.

“O computador não consegue vencer no poker se não puder fazer ‘bluff’. O desenvolvimento de inteligência artificial que possa fazer isso é um grande avanço científico e tem numerosas aplicações. Imagine que um dia o seu smartphone consegue negociar por si o melhor preço para um carro novo? Isso é só o início”, profetiza o investigador.


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