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Acordo Ortográfico

Academia sugere regresso de acentos, consoantes mudas e do hífen

27 jan, 2017 - 19:35

Academia das Ciências sugere "aperfeiçoamento" do novo Acordo Ortográfico. Dois exemplos: o "espetador" não é um "espectador" e o acento deve voltar ao "pára".

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O documento de aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), aprovado na quinta-feira pela Academia de Ciências de Lisboa (ACL), propõe o regresso de consoantes mudas, do acento gráfico, em alguns vocábulos, do circunflexo, noutros, assim como do hífen.

O estudo propõe o regresso das consoantes mudas em palavras como "recepção" e "espectador", ou seja, nos casos em que geram uma concordância absoluta de sons (homofonia) que podem causar "ambiguidade".

O documento "Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa" de 1990 foi aprovado em plenário, na quinta-feira, por 18 votos, com cinco votos contra.

Segundo a proposta apresentada, deve regressar o acento agudo em palavras com pronúncia e grafia iguais, as palavras homógrafas, referindo, entre outras, "pára", forma do verbo parar, que se confunde com a preposição para, também "péla", nome e forma do verbo pelar, que se confunde com a preposição "pela".

Também é recomendado o regresso do acento circunflexo em diferentes vocábulos que são homógrafos a outros, por exemplo, o verbo "pôr", para evitar confundir com a preposição "por".

Defende o estudo o emprego do acento circunflexo "nas flexões em que a vogal tónica fechada é homógrafa de outra flexão da mesma palavra", como os casos de "pôde", forma do pretérito perfeito do indicativo do verbo "poder", para se distinguir de "pode", forma do presente do indicativo do mesmo verbo.

Também a forma "dêmos", presente do conjuntivo do verbo "dar", para se distinguir de "demos", pretérito perfeito do indicativo, do mesmo verbo.

O acento circunflexo é igualmente recomendado para as terceiras pessoas do plural do presente do indicativo, casos de "crêem"," lêem", "vêem", ou do conjuntivo, como "dêem", dos verbos "crer", "ler", "ver", "dar", e seus derivados "relêem", e "desdêem", por exemplo.

O estudo defende a acentuação gráfica na terminação verbal "ámos", relativa ao pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1.ª conjugação, todos os que terminam em "ar". Esta acentuação da terminação verbal "amos" visa "distinguir da terminação 'amos' do presente do indicativo dos mesmos verbos", como "terminámos" e "terminamos" ou "afirmámos" e "afirmamos".

Quanto às consoantes mudas, nos casos em que geram uma concordância absoluta de sons (homofonia), sugere a Academia os termos "aceção", que se pode confundir com "acessão" (consentimento), "corrector", que se pode confundir com "corretor" (intermediário), "óptica", relacionado com a visão, que se confundirá com ótica (audição), além de "receção" (recebimento) que se confunde com recessão (retrocesso), e "espectador", diferente de "espectador" (o que espeta).

Conserva-se também quando a consoante muda "tem valor significativo, etimológico e diacrítico", como por exemplo "conectar", "decepcionado" e "interceptar".

Segundo a argumentação da ACL "eliminam-se [as consoantes mudas] nos casos em que são invariavelmente mudas em todos os países de língua oficial portuguesa"

Deste modo "a grafia passa a ser única" nas palavras "acionar", "atual", "batizar", "coleção", "exato", "inspetor" ou "projeto".

Todavia, quando "se verifica oscilação de pronúncia na variedade portuguesa da língua", recomenda a Academia, "preferencialmente, nestes casos, a manutenção da grafia com a consoante, para evitar arbitrariedades".

Um dos exemplos dados é "fato", na grafia brasileira, e "facto", na grafia portuguesa.

Quanto ao hífen, é recomendação geral, por "clareza gráfica", o emprego quando os elementos dos compostos, com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação, ou seja, quando "o sentido da unidade não se deduz a partir dos elementos que a formam".

Argumenta o estudo que se exige o emprego do hífen, em vocábulos como "água-de-colónia", "braço-de-ferro", "entra-e-sai" e "pé-de-meia", e mantém-se nos termos que já o tinham como por exemplo "trouxe-mouxe".

O hífen deve ser restaurado em expressões em que a soma dos elementos forma um sentido único, como por exemplo "faz-de-conta" e "maria-vai-com-as-outras".

Também no interior de certos compostos vocabulares deve manter-se o hífen e o apóstrofo, como em "borda-d'água", "cão-d'água", "copo-d'água", "mãe-d'água", "marca-d'água", "pau-d'água" e "pau-d'arco", entre outros.

Já os vocábulos, dos quais se perdeu a noção de composição, como "mandachuva", "paraquedas" e "paraquedista", devem escrever-se aglutinadamente, o que não se deve cumprir relativamente aos "compostos com a forma verbal 'manda-' e 'pára-'" que devem continuar "separados por hífen conforme a tradição lexicográfica", casos de "manda-lua", "pára-choques", "pára-brisas", e "pára-raios".

O documento com as "Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa" de 1990, aprovado pela Academia das Ciências, está disponível na internet.

Comentários
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  • Tiz
    31 jan, 2017 Barcelos 00:58
    Também sempre achei este "acordo" um "desatino" total, pois não tem qualquer sentido. Foi imposto por quem parece perceber muito pouco do assunto em questão, interessou a alguns (e MUITO, principalmente aos grandes grupos editoriais) e, por causa deste disparate total, foi IMPOSTO superiormente que as escolas (por exemplo), e, consequentemente, alunos e professores, adoPtassem esta aberração, que nem o "Aperfeiçoamento" agora apresentado poderá jamais apagar. Os exemplos citados são elucidativos, embora não exaustivos: muito boa gente começou a escrever, convictamente "fato", quando se referia a "facto", por exemplo. Também sempre me questionei relativamente à pronúncia (que se aprende e apreende usando a língua) que alunos e jovens iriam dar a "recessão" e receção", pois, interiorizada a pronúncia portuguesa, seriam homófonas, embora sem qualquer relação entre si. A questão etimológica, que, no fundo, é a história gravada na nossa escrita, foi também totalmente ignorada no AO1990. Inacreditável que isto tenha sido aprovado!!! Se se pretendia uniformizar a grafia, outros países de língua oficial portuguesa ignoraram-no, graças a Deus! Os anglófonos convivem bem com a diversidade, e não perdem a sua riqueza por esse motivo. Finalmente, gostaria de deixar o meu veemente repúdio ao epíteto que uma responsável da Associação dos Professores de Português atribuiu aos que se manifestaram contra este acordo. Teve a OUSADIA e FALTA de RESPEITO TOTAL de nos chamar "Velhos do Restelo".
  • Luis
    29 jan, 2017 Lisboa 13:07
    Tenham vergonha nas trombas e acabem com o acordo. Por este andar qualquer dia estamos todos a falar e a escrever crioulo.
  • Olavo
    28 jan, 2017 Cuiaba 10:27
    A língua portuguesa já estava completa e muito bonita antes do acordo ortográfico de 1990 e em nada precisaria mudar. Observemos a natureza: uma mesma espécie de árvores tem muitas variedades e as próprias variedades também se diferenciam de indivíduo para indivíduo. Assim são os animais e os pássaros e tudo mais na natureza.Na minha opinião uma língua com gramática e academia passa a ser uma ciência exata que deve ser obedecida e conservada. Os doutores da língua deve é adequar os neologismos a ortografia e não a língua às tendencias. É muito interessante a gente ler um texto na variedade em que foi escrito porque assim a gente a noção da origem do documento.
  • José Ribeiro
    28 jan, 2017 Linda-a-Velha 01:12
    Um grande aplauso para esta patriótica posição. O desacordo ortográfico de 1990 é um verdadeiro atentado à língua portuguesa. Está repleto de verdadeiras invenções, disparates, sendo infelizmente até anedótico. É necessário por fim à arrogância e falta de senso dos seus autores.
  • Joana Ferrer Antunes
    27 jan, 2017 Lisboa 22:08
    Sugestões sensatas e muito bem-vindas. Eu nunca deixei de escrever como sempre o fiz, e rejeitei desde o início o Acordo Ortográfico. As minhas sentenças são rigorosamente escritas no Português que há muito aprendi (e com muito bons Professores). Saúdo, por isso, a Academia das Ciências. Se, porventura, a alguém desagradarem as minhas palavras, tentem dar-me palmatoadas!