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"Silêncio". A recusa do sofrimento ou um convite à reflexão?

19 jan, 2017 - 06:30 • Filipe d'Avillez

A Renascença falou com um colunista católico, com um jesuíta e com um especialista em Shusaku Endo sobre a última obra de Scorsese. Será que “Silêncio” é uma justificação da renúncia da fé? As respostas foram “sim”, “não” e “mais ou menos”.
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"Silêncio". "Se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície”
"Silêncio". "Se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície”

"Silêncio", o nova longa-metragem de Martin Scorsese, que estreia esta quinta-feira, conta a história de dois padres jesuítas do século XVII que viajam de Portugal para o Japão para espalhar o cristianismo e da perseguição a que os cristãos foram alvo. O filme tem gerado muita controvérsia, tal como fez o livro original de Shusaku Endo, publicado em 1966. Em causa está o facto de algumas das personagens centrais da obra renunciarem à sua fé sob pressão das autoridades, enquanto outros se deixam matar por essa mesma religião. Há quem defenda que o livro é um exercício de justificação da apostasia, a renúncia da fé.

Será? Brad Miner não tem dúvidas. “É sim”.

O colunista do site americano "The Catholic Thing", que tratou “Silêncio” num artigo recente, explica. “Não diria que Scorsese está a tomar uma posição em particular sobre a apostasia enquanto virtude, mas penso que ele não acredita que o martírio é uma virtude, que o martírio serve a causa de Cristo”.

“Por isso, a apostasia, nas palavras de uma das personagens – tanto no filme como no livro – é vista como um acto de amor. É o que Cristo faria. E eu penso que isso é claramente desmentido pela história real, em que houve tantos mártires, no Japão e noutros lados, que deram a sua vida por Cristo, que sentiam que o permanecer na fé, não obstante o enorme sofrimento".

O padre José Maria Brito, director do gabinete de comunicação dos jesuítas, ordem a que pertencem os missionários retratados na obra, discorda. Acredita que “Silêncio” é um convite a reflectir sobre por onde passa, verdadeiramente, a fidelidade.

Os japoneses rapidamente aprenderam que era um erro pedir aos cristãos para renunciarem a fé apenas para salvar a vida, uma vez que isso parecia torná-los mais resilientes e os martírios geravam ainda mais conversões. Optaram então por outra técnica, procurando convencer padres e altas figuras da Igreja a renunciarem à sua fé publicamente não para salvar a sua vida, mas a de outros cristãos, sujeitos às mais terríveis torturas.

“Nesse sentido não é um filme que nos dá uma resposta óbvia. Percebe-se que não é o facto de se temer o sofrimento que faz com que se opte pela aparente apostasia, mas sim o desejo de expressar compaixão por pessoas muito concretas, pela comunidade que lhes tinha sido confiada”, afirma.

O sacerdote jesuíta lembra que o martírio era à época – e em larga medida ainda é – uma forma segura de garantir uma coroa de glória aos olhos da Igreja e da cristandade em geral. A apostasia, por outro lado, mesmo que coagida, era causa de tremenda vergonha. As duas personagens principais do filme partem para o Japão precisamente para tentar desmentir os rumores de que o seu mentor, o padre Ferreira, tinha renunciado à fé.

“Parece-me que de facto não é uma justificação da apostasia, mas sim o fazer-nos perceber que muitas vezes aquilo que nos é pedido pode ser contrário ao que nos parece mais lógico e até mais conforme ao que é a proposta cristã”, diz.

“Isso é o que me parece mais interessante no filme, mais desafiador, o que é realmente levar a nossa fé ao ponto de termos de tomar decisões que não são óbvias, mas em que procuramos a maior fidelidade possível daquilo que nos parece ser, naquele momento concreto, aquilo que Deus nos pede e o filme dá-nos um bocado essa indicação”, considera José Maria Brito.

Apostasia ou conversão?

"O meu chamamento foi fazer filmes". Scorsese tinha "Silêncio" à sua espera desde sempre
"O meu chamamento foi fazer filmes". Scorsese tinha "Silêncio" à sua espera desde sempre

“Silêncio” é um filme de excelência, baseado num livro que é considerado um clássico da literatura, pelo que é natural que deixe mais perguntas do que respostas na mente de quem vê e lê. Mas será possível saber qual era a opinião de Shusaku Endo, autor do livro?

A Renascença conversou com o padre Adelino Ascenso, superior dos missionários da Boa Nova, que passou mais de uma década no Japão e fez a sua tese de doutoramento precisamente sobre os aspectos teológicos da obra de Endo. Afinal, em “Silêncio”, Endo está a defender a apostasia?

“De forma nenhuma. Endo foi acusado precisamente de defender a apostasia, quando publicou o livro em 1966. E houve até algumas dioceses onde os prelados não permitiram a leitura desse livro aos católicos, ou aconselharam a que não lessem. Eu creio que foi uma interpretação errada da mensagem que o Endo quis transmitir.”

A questão só se compreende, explica o padre Adelino, se entendermos a grande preocupação de Endo – que foi baptizado aos 12 anos e sentia uma forte tensão entre a sua fé “estrangeira” e a sua herança oriental – pela inculturação, isto é, a adaptação da mensagem cristã e mais especificamente da imagem de Deus e de Jesus, à realidade e sensibilidades japonesas.

“O Deus-Pai, que foi naturalmente transmitido aos japoneses, eles sentiam-no como um juiz – não quer dizer que fosse. Um juiz que estava ali para apontar as suas faltas. O Japão no século XVI era um país miserável, feudal, a esmagadora maioria da população vivia na miséria. E o que eles necessitavam era como que o instinto maternal que os amparasse, que os acompanhasse, que lhes perdoasse as faltas”, explica o padre Adelino, reconhecendo todavia que este dilema interior de Endo pode não ser generalizável a todos os japoneses, nem ontem nem hoje, até porque milhares e milhares de cristãos preferiram morrer a negar esse Deus que os missionários lhes tinham trazido.

"Mas o seu conhecimento de Endo leva-o a concluir que a apostasia de Sebastião Rodrigues, ponto culminante do filme, não pode ser levada à letra. “O que é que o Rodrigues apostatou? Foi o verdadeiro Cristo? Ou foi a imagem estereotipada de Cristo que ele levava do Ocidente? Repare que no início Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso... Depois, quando estava na prisão em Nagasaki, esse Cristo começou a ser um Cristo sofredor, de olhos tristes, e finalmente, quando está para pisar a imagem [sinal público de apostasia], olha para o Cristo e é um Cristo desfeito, de sofrimento.”

“Ao longo da sua peregrinação ele foi-se libertando dessa imagem estereotipada de um Cristo ocidental. Então ele, dizendo assim de uma forma sintética, ele apostatou um Cristo poderoso, que tinha trazido da Europa, um Cristo ocidental, e aceitou no seu coração o Cristo misericordioso.”

"Se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície”

Mesmo com a polémica que “Silêncio” gerou na altura, Endo acabou por merecer o reconhecimento não só da hierarquia local, como até da universal. Paulo VI recebeu-o em audiência e pediu-lhe que continuasse o seu trabalho de evangelização do Japão e o padre Adelino admite ter conhecido vários católicos no Japão que se aproximaram da Igreja por causa da sua obra literária, muita da qual se centra no cristianismo.

Tendo em conta tudo isto, e a variedade de reacções que o filme tem merecido, o que dizer a quem o pretende ir ver?

Responde o missionário que não tire conclusões precipitadas, "que reflicta". "Porque o livro deve levar-nos a reflectir. Se nós reflectirmos sobre o significado de tudo isto, então isso levar-nos-há muito longe. O que eu gostaria é que todos reflectíssemos a partir daí, porque se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície.”


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  • Pedro Santos
    19 jan, 2017 Lisboa 12:48
    Aguardamos da emissora católica igual e aprofundada análise sobre a adaptação que Scorsese fez da obra de Níkos Kazantzákis.