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Shusaku Endo, escritor de "Silêncio". O cristão japonês a quem assentava mal “o fato ocidental”

19 jan, 2017 - 07:02 • Filipe d'Avillez

Baptizado aos 12 anos, Endo passou o resto da vida a tentar conciliar a sua herança oriental com aquilo que sentia ser uma fé estrangeira. Por outro lado, o seu sentimento de traição à própria mãe motiva a obsessão com a salvação de Judas.
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"O meu chamamento foi fazer filmes". Scorsese tinha "Silêncio" à sua espera desde sempre
"O meu chamamento foi fazer filmes". Scorsese tinha "Silêncio" à sua espera desde sempre

Shusaku Endo ficou para a história como um dos maiores nomes da literatura japonesa do século XX, sobretudo por causa de clássicos como “Silêncio”, que Martin Scorsese leva agora ao grande ecrã, e “O Samurai”, embora tenham sido os seus livros e programas de televisão cómicos – praticamente desconhecidos no Ocidente – que o tornaram um verdadeiro fenómeno de popularidade na sua terra natal.

Homem multifacetado, a estreia do novo filme de Scorsese, que acontece esta quinta-feira em Portugal, gerou renovado interesse na figura do autor. Mas a bibliografia e as entrevistas de Endo revelam um homem profundamente perturbado, até dilacerado por aquilo que sentia ser um conflito entre a sua religião e a sua identidade oriental.

Endo foi baptizado aos 12 anos, juntamente com a sua mãe, e viria mais tarde a comparar o catolicismo a um “fato ocidental” que não assentava bem no seu físico japonês, mas que também não conseguia despir, porque já se tinha tornado parte do seu corpo.

“Silêncio”, o livro sobre o período das perseguições aos cristãos japoneses, surge desse substrato. É uma forma de Endo tentar lidar os seus dilemas e preocupações.

Confrontar o silêncio da Igreja institucional relativamente aos milhares de cristãos japoneses que abjuraram a sua fé publicamente para sobreviver, mas continuaram a praticar o cristianismo em segredo, mantendo as suas comunidades vivas durante 250 anos sem padres e entender o silêncio de Deus perante os terríveis sofrimentos infligidos aos que, pelo contrário, preferiram morrer a negar esse Deus levado ao Japão por portugueses, por um lado, e por fim, como tornar este Cristo mais compatível com o modo de ser japonês.

A inculturação é para a Igreja Católica um exercício por vezes difícil de adaptação da mensagem cristã a diferentes contextos culturais sem a desvirtuar.

O romance autobiográfico de Endo não é “Silêncio”

“Silêncio” está longe de ser o único livro em que Endo aborda esta temática. O padre Adelino Ascenso, missionário no Japão durante mais de uma década e fez a sua tese de doutoramento sobre a obra literária de Endo, observa que este é um assunto que atravessa muita da sua bibliografia.

“‘Silêncio’ é como que o eixo axiológico onde se condensa a teologia do Endo. E depois há um outro romance que a condensa de uma forma talvez mais abrangente, o ‘Rio Profundo’.”

“Um romance que aconselho vivamente é ‘O Samurai’. É um romance autobiográfico sobre um samurai que vai para o México e depois para a Europa, e que se vai encontrando com esse Cristo esquelético, cravado na Cruz, que está sempre presente nos quartos onde fica, nos mosteiros por onde passa... Quando ele é abandonado por todos, especialmente pelo senhor feudal que servia, sente que o único que não o abandonou foi esse Cristo esquelético, acabando por morrer como mártir por Ele.”

“É um romance impressionante”, reflecte o missionário. “Depois tem outras obras, mais cristológicas, como ‘Uma Vida de Jesus’, ‘Nas Margens do Mar Morto’e ‘O Nascimento de Cristo’.”

Judas, o fantasma de Endo e as tormentas de Kichigiro

Uma das personagens mais enigmáticas de “Silêncio” é Kichigiro, um cristão japonês que serve de guia aos dois jesuítas que procuram entrar ilegalmente no país.

Kichigiro vive atormentado pelo facto de ter abjurado – renunciado à fé - para se salvar enquanto toda a sua família permanece firme na fé e é martirizada. Fraco, o malfadado japonês atravessa toda a obra a trair os cristãos e depois a lançar-se aos pés dos padres a pedir a absolvição.

A figura serve um propósito muito específico, explica o padre Adelino Ascenso, sendo ainda mais reveladora dos traumas de Shusaku Endo. “Kichigiro é uma das personagens mais importantes do livro. Ele representa, de forma geral, Judas. Endo coloca ali Kichigiro para tentar provar que Jesus também salvou Judas. Ele tinha esse problema da salvação de Judas."

E porquê? Endo sentia-se ele mesmo Judas. Aos 10 anos, Endo descobriu que quando o seu pai o levava a si e ao irmão para brincar no parque aproveitava para se encontrar com uma amante. Protegendo o segredo do pai, sentia-se a trair a sua mãe.

Mais tarde, depois de os seus pais se terem divorciado, esse sentimento aprofunda-se quando muda de casa da mãe para a do pai, atingindo o ápice quando a mãe morre sem que ele esteja junto dela.

Pelo meio há ainda a história do seu cão de estimação, Negro, que fica para trás quando a família se muda da Manchúria para o Japão.

Para o padre Adelino Ascenso, Endo sentia que se Judas não fosse salvo, significaria uma altura em que a graça não tinha sido suficiente para o pecado - ao contrário do que diz na Bíblia: “onde abundou o pecado, superabundou a graça”.

"Silêncio". "Se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície”
"Se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície”, defende o missionário Adelino Ascenso

De censurado a exemplo

Ao ler “Silêncio”, ou vendo o filme, há quem chegue a questionar a sinceridade da conversão de Endo. Brad Miner, colunista e crítico de cinema e literatura para o site americano The Catholic Thing, especula, em entrevista à Renascença, que o autor “até podia ter amado Cristo, mas não gostava particularmente de cristãos”.

Miner atribuiu-lhe a ideia expressa pelo inquisidor-mor Inoue, que sujeita os cristãos a terríveis torturas na tentativa de os levar à apostasia, de que o Japão é um pântano onde o Cristianismo, importação estrangeira, não pode lançar raízes nem dar fruto. Pela mesma razão, quando o livro saiu, em 1966, houve bispos japoneses que desaconselharam a sua leitura.

Adelino Ascenso procura contextualizar a questão do pântano. “O cristianismo transportado para o Japão como uma religião estrangeira, com esse Cristo estereotipado, ocidental, cai num pântano. Nesse sentido estou de acordo. Mas não estou concordo que o cristianismo no Japão tenha que cair nesse pântano.”

“Tem de haver esse exercício permanente de inculturação. Foi o que o Endo tentou fazer”, explica.

Longe de ser um revoltado contra o cristianismo, Endo era um homem que procurava constantemente compreender Cristo e conciliar a sua fé com as suas origens.

Embora constituam apenas 1% da população japonesa, Shusaku Endo continua a ser uma referência para os cristãos japoneses – que pela sua escassez, vivem em constante diálogo cultural e inter-religioso – 20 anos depois da sua morte.

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