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Patologista alerta para sobrediagnóstico de cancros muito pequenos

12 jan, 2017 - 17:47

Sobrinho Simões defende que alguns cancros que são detectados a idosos nunca iriam causar problemas no tempo de vida do doente, pelo que não aconselha sujeitar as pessoas a tratamentos.

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O patologista Sobrinho Simões alertou, esta quinta-feira, que se diagnosticam demasiados cancros que se deviam “deixar sossegados”, colocando os doentes num ciclo de tratamentos sem benefícios reais, ressalvando que continua a ser essencial o rastreio precoce.

Falando à agência Lusa à margem de uma palestra promovida pelo International Club de Portugal, Manuel Sobrinho Simões afirmou que “a maluqueira quer de doentes quer de alguns médicos é que está a dar mau resultado”, sobretudo nos cancros da tiróide, mama e próstata, “de longe os que têm mais sobrediagnóstico”.

“Estamos a fazer diagnósticos de cancros muito pequeninos, que não iam dar chatices” porque não conseguiriam desenvolver-se no tempo de vida restante das pessoas, a maior parte delas idosas, salientou.

Colocando-as no ciclo de tratamentos como a radiologia, os médicos estão, nesses casos, a “desgraçar os doentes”, considerou, defendendo que cabe aos médicos serem razoáveis quando as pessoas os procuram para ir numa “caça ao cancro”.

Quando um médico fala de cancro a um doente, “é difícil, depois de começar o processo”, dizer-lhe depois que o cancro que se detectou é demasiado pequeno para justificar tratamento, reconheceu.

O investigador português, considerado um dos patologistas mais influentes no mundo, defendeu no entanto a necessidade de continuar a fazer-se rastreios à população, essenciais para o diagnóstico precoce: “isso é importantíssimo”, reforçou.

Só que “há cancros muito agressivos e outros pouco agressivos”, destacou.

Num país como a Coreia do Sul, começou a rastrear-se o cancro da tiróide, que passou para quarto tipo de cancro mais frequente, accionando tratamentos e extracções da tiróide que são “caríssimos para o serviço nacional de saúde”, mas a mortalidade mantém-se exactamente igual.

Por seu lado, no Japão optou-se por não operar e esperar, repetindo exames anualmente. “Se não crescer, não fazem nada. Têm a mesma mortalidade do que a Coreia do Sul e gastam cem vezes menos”, destacou.

Manuel Sobrinho Simões afirmou perante a plateia do International Club que as doenças “ajudaram a apurar a espécie humana porque matavam os menos aptos, ficando os mais inteligentes e os mais capazes”, mas que as doenças modernas não ajudam a apurar nada, porque “acontecem mais tarde na vida” e não interferem com a capacidade reprodutiva.

Além do cancro, a obesidade, a sida, a tuberculose e a depressão são reflexos de uma civilização de mamíferos que vivem hoje numa sociedade de abundância mas cujos genes foram moldados por condições extremamente difíceis, frisou.

“Não mudámos nenhum gene nos últimos 100 anos”, afirmou, notando que os humanos mantêm o apetite que os seleccionou como espécie de sucesso há centenas de milhares humanos mas que comer “111 quilos de carne” por ano, como acontece com os portugueses, tem “custos na água, na energia, na saúde, no planeta”.

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