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Seis meses depois, o Brexit ainda é “estranheza” em Londres

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Seis meses depois, o Brexit ainda é “estranheza” em Londres

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23 dez, 2016 - 10:00 • Inês Alberti, em Londres

Do Borough Market aos mercados financeiros da City, a indefinição em torno da saída da União Europeia ainda marca o dia-a-dia na capital britânica. Os crimes de ódio aumentaram desde o referendo de 23 de Junho.
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Seis meses depois do referendo que ditou o Brexit:


Quando em Fevereiro, David Cameron, então primeiro-ministro britânico, anunciou um referendo para a saída da União Europeia, ninguém o levou a sério. Nem a população, nem os ministros europeus, nem o Parlamento. Provavelmente nem a Rainha. Mas no dia 23 de Junho o resultado foi claro: o Reino Unido queria mesmo sair da União Europeia. O “basta” ganhou.

Seis meses depois, se para os ingleses está quase tudo na mesma, para os estrangeiros muito mudou. Londres é a cidade europeia com mais imigrantes. São três milhões, um terço da população. Vêm sobretudo da Índia, da Polónia e do Paquistão.

“Eu sou ucraniana, vivo em Swindon [a quase 130 quilómetros de Londres] e cresci em Espanha. Acho que um país tem o direito a tomar as suas decisões, mas não deve sair assim porque o Brexit é, na verdade, racismo”, desabafa Yulia, de 19 anos.

Mohammed, de nacionalidade curda, cidadania alemã e residência no Reino Unido, concorda: “Durante os últimos 100 anos tentámos unir o mundo inteiro, mas agora há racismo. Sente-se nas ruas, na maneira como as pessoas olham para ti."

É uma sensação de “estranheza”, dizem muitos. Uma sensação de que algo mudou na relação entre os britânicos e os europeus.

Para os britânicos, o problema é a falta de plano e sobretudo, liderança da parte do Governo. “Eu apoiei a campanha para a saída da UE”, admite Brad, de 18 anos, “mas acho que não está a ir da forma que esperava. Pensava que íamos tomar opções mais suaves, mas também estou céptico em relação ao que a [primeira-ministra] Theresa May diz”.

Agnes, de 63 anos, também votou Brexit e quer “é andar para a frente”. “Eu sou a favor do Brexit. No início pode ser um pouco duro, podemos perder dinheiro, mas…não quero saber. E muita gente que conheço também não quer saber.”

Quase tudo mais caro no Borough Market

Apesar de quase nada ter acontecido, tudo mudou. O Reino Unido é agora um reino desunido. Ao contrário do resto do país, Londres votou para ficar na União Europeia. Mas uma cidade não é uma nação, provou o referendo de 23 de Junho.

Mais de metade da população quis mudança: maior controlo nas decisões democráticas, económicas e de imigração. “Acreditamos que as leis que afectam as pessoas deste país devem ser feitas pelos nossos representantes eleitos. Assim podemos negociar com o resto do mundo e não ter um foco unicamente europeu”, explica Matthew Elleny, director da campanha “Grã-Bretanha Melhor Lá Fora”.

Não sente que o seu país tenha mudado, “até porque ainda não saímos”. Mas espera que as mudanças venham rapidamente e com convicção. Quer a saída do mercado livre e o fim do livre movimento das pessoas. “Quem vem da União Europeia pode entrar neste país sem problemas. Mas se vier da Índia ou qualquer outro país, aplicam-se regras muito rígidas. Nós acreditamos que as regras devem ser iguais para todos os países”, explica.

Matthew Elleny não ficou surpreendido com o resultado do referendo. Acredita que Londres não é um bom exemplo do que os ingleses sentem porque a capital não reflecte o resto do país. “Londres é muito rica. O mesmo não é verdade para, por exemplo, os agricultores. Eles sentem os problemas das políticas agrícolas comuns. Londres não quer saber – aqui não há quintas! Por isso, muitos dos aspectos negativos da União Europeia não afectaram Londres”, argumenta.

Mas ainda não há benefícios do Brexit. Consequências também são poucas, mas uma foi clara desde o resultado do referendo: a libra caiu para o valor mais baixo em décadas, atingindo um euro e dez cêntimos. Há um ano batia a marca do euro e meio.

Os primeiros a sentir os efeitos são os pequenos comerciantes. É o caso no moderno Borough Market, um mercado onde uma banca de queijos franceses compete com uma loja de trufas italianas e talhos ingleses partilham espaço com produtos croatas.

A maior parte dos vendedores europeus já sentiram na pele – e no bolso – o efeito do Brexit. “Tivemos que aumentar alguns preços porque os nossos produtos vêm todos da Alemanha. Com a libra mais baixa, fica tudo mais caro”, explica Joan, enquanto prepara um cachorro quente feito com as famosas salsichas alemãs “bratwurst”.

O mesmo aconteceu com Lilly, que importa da Croácia. “Quando o Brexit aconteceu, sentimos logo o efeito porque o nosso fornecimento é todo em euros, mas não passámos o custo aos clientes. A maior parte das pessoas do mercado não o fizeram, mas, se isto for algo a longo prazo, teremos que o fazer”, avisa.

Banca a banca, o caso é o mesmo. Só mesmo nas lojas inglesas, com Brexit ou sem ele, o negócio continua intocável. “Nós temos uma loja de queijos, só de produtos ingleses. Não sentimos qualquer efeito porque produzimos um produto inglês para um mercado inglês”, explica Tommy.

Mais crimes de ódio

Do outro lado do rio Tamisa, há outro mercado, onde os riscos são muito maiores: o mercado financeiro, o motor de Londres como gigante económica.

A directora da City Index, uma empresa de serviços financeiros, diz que os mercados preferem o chamado “soft Brexit”, uma saída suave. Querem que o Reino Unido fique no mercado único.

“Neste momento, as exportações estão a ter bons resultados, mas há grandes preocupações”, diz. “Tudo o que sejam acordos comerciais, bolsas financeiras, estão em risco. Se a economia abrandar as acções de consumo também descem. Mas depois, por outro lado, há empresas como a Burberry que diz que pode ganhar 100 milhões de libras [117 milhões de euros à cotação actual] por causa desta queda na libra”.

Kathleen Brooks diz que o futuro do Reino Unido passa provavelmente por acordos com os Estados Unidos, “porque vai crescer muito nos próximos quatro anos”, China, Ásia e Commonwealth. No entanto, “o Reino Unido tem que continuar a negociar com a União Europeia, que é o nosso principal parceiro económico”

Mas o Brexit não sacudiu só os mercados. Há uma mudança social. Os crimes relacionados com etnia ou religião aumentaram 41% desde o referendo. Em Julho, verificaram-se quase mais dois mil casos do que no ano passado. Há notícias de violência, vandalismo e abusos no dia-a-dia.

O director da campanha “Grã-Bretanha pela Europa”, Tim Skeet, acha “chocante” o que está acontecer pelo seu país e continua a lutar para que o Reino Unido não saia da União Europeia. “Profundamente chocante. O Reino Unido sempre foi uma nação tolerante, aberta. Mas há sítios onde vemos um mal desnecessário e incómodo. Acho totalmente inaceitável, antibritânico e não deve ter lugar numa sociedade civilizada.”

Nos últimos meses, Tim Skeet tem trabalhado para travar o Brexit, mas já aceitou o facto de que a saída do Reino Unido da União Europeia é inevitável. Diz ser “difícil olhar para a bola de cristal” e prever o futuro, mas calcula que a relação da Grã-Bretanha com a Europa vá ser “desconfortável”. “É uma Europa desunida. Tudo isto é uma manifestação de um problema: abrandamento económico, um sistema que não funciona. Mas temos que continuar a viver e trabalhar juntos. A Grã-Bretanha não deixa de ser europeia só porque quebrámos a nossa relação com a União Europeia”, diz.

“Nos últimos 75 anos tivemos paz e prosperidade. E foi porque os povos europeus aprenderam a conviver e a trabalhar juntos. E essa prosperidade mútua é algo de muito precioso que devemos construir e não desmanchar”, explica.

Aconteça o que acontecer, os ferimentos são profundos. Uma Europa frágil, um país dividido, à espera. Esperam também os mercados nervosos e os europeus receosos e desiludidos com a perda de um parceiro.

É preciso dar tempo ao tempo: até o famoso relógio Big Ben que o diga. Depois de 150 anos de serviço vai calar-se para obras até 2020. Quando acordar, o país será outro. E a Europa também.


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