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Padre indiano em Portugal. “Agora é a nossa vez de ajudar”

28 nov, 2016 - 18:13 • Ângela Roque

Na sua família são oito irmãos, quatro dos quais religiosos. Vem de uma igreja que tem “excesso” de vocações, num país onde a expressão “católico não praticante” não faz sentido e os missionários já foram portugueses. Agora é ao contrário.
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O apelido tem 20 letras, mas o nome próprio é simples: Chama-se Paul Kollithanathumalayil, tem 48 anos e está em Portugal desde 2005. Os paroquianos tratam-no por padre Paulo. Conta, a sorrir, que alguns já conseguem dizer o nome completo, “sobretudo os mais jovens”.

Quando chegou fez um curso intensivo de português, mas foi no contacto directo com as pessoas que aprendeu a falar a língua, logo na primeira paróquia onde foi colocado: “lá estava uma professora que me ajudava a corrigir as homílias. Eu peço sempre para me corrigirem quando estou errado”.

Já era padre há 10 anos quando veio para Portugal. Disponibilizou-se a partir em missão para Lisboa, quando soube que aqui havia falta de vocações: “Quando ouvi que esta diocese precisava de sacerdotes falei disso ao meu bispo. O convite veio do meu bispo e do senhor Patriarca”.

Natural de Kerala, diocese de Palai, explica que aquela não foi uma zona que os portugueses tenham evangelizado, “quando chegaram já lá havia cristãos. Dizemos que a nossa evangelização vem do apóstolo São Tomé, somos cristãos antigos”. Mas outras zonas da Índia foram e há a consciência de que sendo a Índia hoje um país com muitas vocações, tem o dever de ajudar: “Fazemos parte da Igreja universal, por isso, quando precisavam de sacerdotes lá, iam daqui, agora é a nossa vez de dar e ajudar esta Igreja e este povo”.

O padre Paul é actualmente o prior da paróquia de Sacavém e reitor do santuário de Nossa Senhora da Saúde, naquela mesma localidade. Antes passou por Linda-a-Velha, Carregado e São João da Talha. Diz que aprecia a hospitalidade e paciência dos portugueses para ajudarem quem vem de fora, mas conta que no início lhe foi muito difícil entender como por cá as pessoas vão à Igreja, e como assumem a sua fé.

“Algumas coisas foram muito estranhas para mim. A primeira coisa foi a frase ‘católico não praticante’, foi uma coisa muito nova para mim quando cheguei cá, porque lá na Índia só tem uma pergunta ‘é católico, ou não é católico?’. Foi uma coisa muito difícil para entender. A segunda coisa foi o comportamento dentro da igreja, conversar durante a celebração ou à porta, eram coisas estranhas para mim. Lá as pessoas guardam silêncio dentro da igreja e até fora da igreja, para que as pessoas que estão lá dentro consigam rezar. Foi muito difícil adaptar-me a esta diferença”.

Oriundo de uma família de oito irmãos, em que quatro optaram pela vida consagrada (tem dois irmãos sacerdotes e uma irmã religiosa), diz que na Índia essa é uma situação comum, “tenho muitos amigos com irmãos padres e irmãs freiras”. A grande diferença está na forma como as próprias famílias cristãs encaram as vocações: “Eu costumo dizer que os meus pais rezam ainda mais do que eu”. Lamenta que o Ocidente tenha perdido as raízes cristãs, e que mesmo entre os católicos a transmissão da fé já não se faça da mesma forma: “Os pais devem encontrar algum tempo para sentar com os filhos, rezar, contar as histórias da Bíblia, para eles conhecerem a vida cristã”.

Em Portugal há 11 anos, Paul Kollithanathumalayil encontra-se regularmente com os outros sacerdotes indianos que estão na diocese de Lisboa: “Aqueles da minha terra, que falam a minha língua, constumamos encontrar-nos e trocar experiências. Somos seis de Kerala, da diocese de Palai e da Congregação do Verbo Divino. E agora há mais um novo padre de Cochim que foi ordenado, também fala a minha língua”. E garante que está disponível para continuar por cá enquanto precisarem que sirva a Igreja aqui: “Fui ordenado para servir a minha diocese, mas também para servir a Igreja. Para mim o mais importante é estar o meio do povo, onde necessitam de mim, onde Deus quer que eu sirva”. Por sua vontade ficará mais tempo? ”Se Deus quiser e a saúde permita, com certeza”.

O padre Paul e a maioria dos outros sacerdotes indianos em Portugal pertencem à Igreja Católica Siro-Malabar, que data dos primeiros séculos do Cristianismo e tem a sua sede em Kerala, no sul da Índia. Segundo a sua própria tradição, a zona foi evangelizada pelo apóstolo São Tomé.

A igreja Siro-Malabar é uma igreja Católica de rito oriental, em plena comunhão com Roma mas com a sua própria liturgia, de tradição siríaca, e a sua própria hierarquia.

Esta foi uma reportagem emitida no espaço das 12 horas em que, à segunda-feira, se dá mais destaque às notícias relacionadas com a vida da Igreja.


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  • António de Sousa Per
    30 nov, 2016 Vila Verde, Braga. 23:29
    Gostei muito de saber estes pormenores sobre as práticas religiosas na Índia e de coração contrito sobre o eclipse de DEUS na Europa.
  • Lurdes Bernardo
    29 nov, 2016 Sacavém 19:57
    Excelente pároco 😊 estou muito contente por ser paroquiana da igreja católica onde ele é nosso prior e reitor do santuário de Nossa Senhora da Saúde de Sacavém...Meus parabéns por já nos ter dado tanto de si e do seu tempo, mas já sabe que vai ter que nos dar muito mais dele 😊 vai ter que nos aturar por muitos anos assim o espero.
  • Jorge
    28 nov, 2016 Conchinchina 19:55
    Que continue por cá padre, fique por aqui, os portugueses estão como nunca estiveram a precisar muito de Deus.