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Patriarca diz que preparação para o Sínodo de Lisboa foi como pôr “fermento na massa”

28 nov, 2016 - 13:35 • Ângela Roque

D. Manuel Clemente insiste que a Igreja de Lisboa não se quis focar apenas na história, mas procura imprimir uma dimensão missionária no presente e no futuro, porque uma igreja que não é missionária não é cristã.
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O patriarca de Lisboa elogia a colaboração de milhares de cristãos da diocese, que nos últimos dois anos reflectiram sobre o que mais os preocupa, à luz da Exortação do Papa “A Alegria do Evangelho”. Assim prepararam o que a partir de quarta-feira, e até domingo, estará em discussão na assembleia conclusiva do Sínodo Diocesano de Lisboa.

A comemorar os 300 anos da qualificação como Patriarcado, a diocese de Lisboa tem o “O sonho missionário de chegar a todos”, o lema do sínodo que arrancou ainda em 2014.

Em entrevista à Renascença, o cardeal patriarca fala sobre a “caminhada sinodal” de dois anos, que envolveu mais de 20 mil fiéis do Patriarcado, e explica que da assembleia dos próximos dias resultará um decreto com orientações pastorais. D. Manuel diz ainda que ambiciona transformar o Museu de São Vicente de Fora num “museu vivo e dinâmico”, que mostre, a quem o visite, a realidade da diocese de Lisboa, que tem hoje habitantes de mais de 100 nacionalidades.

O sínodo de Lisboa entra agora na fase final. O processo correu como esperava?

Correu, com as dificuldades que um processo longo tem de manter a chama inicial, mas o que é certo é que ao longo destes mais que dois anos houve mais de 20 mil fiéis, aqui do Patriarcado de Lisboa, que participaram em grupos de reflexão sobre os sucessivos capítulos da Exortação “A Alegria do Evangelho”, que foi lançada pelo Papa Francisco em Novembro de 2013, com a indicação de que depois, em cada diocese, se ver como é que podia levar-se por diante aquela orientação pastoral, muito no sentido de voltar as comunidades mais para fora de si próprias, ganharem mais sentido e dimensão missionária.

Enfim, a palavra missão até aos nossos dias ainda está muito ligada às missões para longe, mas a pouco e pouco ela foi ganhando também o sentido da missão próxima, porque às vezes dentro do próprio prédio há vizinhanças por cumprir, no sentido evangélico, conhecerem-se as pessoas, nas escolas, hospitais, prisões ou empresas, os cristãos terem mais presença evangélica e como é que isso se há-de fazer. Então, os capítulos da Exortação foram estudados, as pessoas foram mandando as suas conclusões e sugestões.

Nesse sentido a participação dos fiéis correspondeu às expectativas?

Quando o secretariado do Sínodo me falou em mais de 20 mil participantes, fiquei satisfeito. Claro que no Patriarcado, que anda por volta dos dois milhões e meio de habitantes, 20 mil são o que são. Mas, enfim, é a lógica do Evangelho, que é ser “fermento na massa”. Diz-se que um pouco de fermento leveda toda a massa… 20 mil já é muito fermento.

O objectivo do sínodo era também impulsionar na diocese este “Sonho missionário de chegar a todos”. Foi um objectivo conseguido?

Vamos vendo, isto é tudo para projectar. Com essas reflexões que chegaram fizemos um documento sinodal que foi entregue aos membros do Sínodo, que está a ser estudado por eles, e hão-de chegar a um documento final que depois será entregue ao bispo diocesano. E o bispo, que é o único “legislador do sínodo”, vai pegar em toda esta reflexão feita, dos grupos à assembleia sinodal, e fará um decreto sinodal, que é um conjunto de grandes orientações pastorais a partir da exortação do Papa Francisco.

E é essa assembleia que decorre de quarta-feira até domingo.

Exactamente, e por isso eu falo sempre na caminhada sinodal de Lisboa. Ou seja, o sínodo, assim como o código o prevê, e que se vai desenrolar até ao dia 4 de Dezembro, é o momento oficial desta caminhada. Mas esta caminhada começou há dois anos e tal e vai prolongar-se, porque depois é preciso que as comunidades cristãs recebam esse decreto sinodal, o façam seu e o apliquem.

E é obviamente muito diferente aplicar esse decreto numa paróquia rural, como ainda as temos nalgumas zonas do Patriarcado, ou no centro da cidade de Lisboa, onde as paróquias muitas vezes vivem de paroquianos que não residem lá, estão de passagem. Ou então numa grande paróquia da zona chamada “termo”, aqui à volta de Lisboa, que pode ter dezenas, ou até uma centena de milhares de habitantes, com muita gente de vários países do mundo (temos aqui no Patriarcado mais de 100 nacionalidades a viver). Portanto, há muitos ambientes, muito diferentes, em que essas orientações sinodais não podem ser aplicadas da mesma maneira.

A assembleia coincide com esta data redonda e importante para a diocese de Lisboa que são os 300 anos da elevação a Patriarcado. Lisboa continua a ser uma diocese missionária?

Pois, tem de ser, porque se não não é uma diocese cristã. Ou seja, esta necessidade e prática de levar mais longe aquilo que recebemos, de partilhar com outros a alegria que recebemos da Páscoa de Jesus, isso é o cristianismo, e tem de ser mesmo efectivo. Não podemos ter um cristianismo de consumidores religiosos, em que andássemos de sítio em sítio, conforme a música, conforme o aquecimento no Inverno ou o fresquinho no Verão. Temos de ser participantes de uma comunidade cristã, e uma comunidade cristã ouve, celebra, mas depois expande, testemunha. Se falta esta dimensão, não há vida cristã.

O programa comemorativo destes 300 anos tem tido vários momentos importantes e muitos deles com envolvimento da juventude.

Sim. Quando pensámos nas comemorações do tricentenário quisemos ir muito além do aspecto histórico. Lembrar uma bula que o Papa Clemente XI no dia 7 de Novembro de 1716 assinou, conferindo à Capela Real o título de patriarcal, que depois passou para a diocese inteira… Bom, isso são coisas que têm a ver com a história de Portugal, com os projectos de D. João V, com o prestígio da corte, etc. Mas isso, só por si, não nos interessaria como acontecimento pastoral e evangelizador.

Como o Papa Clemente XI quando dá esse título a Lisboa refere a expansão missionária que daqui tinha partido, e que ele chama “propagação da fé”, que é mais a linguagem da época, isso sim, isso interessa-nos. Como é que 300 anos depois nós cumprimos essa missão que vem dentro do título? Então, surgiu a caminhada sinodal como grande exercício de missionaridade por parte dos católicos da Patriarcado. Depois, claro, temos momentos mais comemorativos, para a juventude um musical que envolveu uma centena e tal de jovens, dois encontros que foram muito interessantes, o Congresso das Associações de Profissionais Católicos, outros dos Núcleos Católicos de Estudantes, e que também foi muito interessante.

Esses núcleos têm vindo a aumentar nas várias faculdades.

E isso é o Patriarcado, esta Igreja local, no que ela tem de mais vivo. Também teremos, com certeza, o aspecto histórico, com duas publicações muito importantes, uma delas é uma história dos bispos de Lisboa, desde o século IV, e que é uma obra feita por dezenas de professores universitários. Também uma outra obra, que para os historiadores e não só, vai ser certamente de referência, que é a publicação dos documentos principais dos Patriarcas de Lisboa nestes 300 anos, até ao meu antecessor, D. José Policarpo.

Há apenas mais um ponto que eu queria referir destas comemorações, e vamos ver se conseguimos, que é fazer do nosso museu de São Vicente de Fora um museu vivo, dinâmico, como hoje em dia pode ser. Só que isso mete tecnologia, e a tecnologia é muito cara. Vamos a ver se conseguimos levar isso por diante porque é uma maneira depois dos cristãos, e outros, que queiram passar pelo museu, ganharem a consciência de que estão diante de uma realidade que tendo tantos séculos está disponível para o futuro.

Esta entrevista foi transmitida na Renascença no espaço informativo das 12h00, que à segunda-feira dedica mais tempo aos temas relacionados com a Igreja


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