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Leia um excerto de “Francisco Sá Carneiro: Um Católico na Política”

23 nov, 2016 - 19:01 • Fernando Gomes Perpétua

“Francisco Sá Carneiro: Um Católico na Política”, de Fernando Gomes Perpétua, é um olhar sobre o percurso biográfico do fundador do PSD e ex-primeiro-ministro. “Será a política um lugar de irremediável perdição? Terá a vida e a cultura cristãs algo a dizer ao ‘homo politicus’ de hoje?”, questiona a editora, a Aletheia, na sinopse do livro que chega esta quarta-feira às livrarias. A Renascença publica uma passagem do livro.
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O 25 de Abril, a fundação do PPD, o I Governo Provisório e o combate ao comunismo

25 de Abril de 1974. 8h00. Sá Carneiro levanta-se. Toma um duche. O telefone toca. Isabel atende. Manuel Macedo Pinto, eufórico, anuncia: está a acontecer uma revolução em Lisboa. Isabel corre para a casa de banho. Grita:

- “Chico, ligou o Manel e parece que há uma revolução!”

O duche acelera. A partir desse instante, tudo na vida de Sá Carneiro acelera. Sai do banho. Veste um roupão. Frenético, agarra-se ao telefone. Contacta Balsemão, Rebelo de Sousa, frei Bento e muitos outros. É chegada a grande hora.

Spínola recebe o poder de Otelo Saraiva de Carvalho, que não esconde a preferência por entregá-lo a Costa Gomes.

No dia seguinte, Sá Carneiro parte para Lisboa. Não suporta estar na periferia dos acontecimentos. Reúne-se com Spínola e com elementos da Junta de Salvação Nacional e do MFA. Oferece apoio e colaboração.

Regressa ao Porto. Dá a sua primeira entrevista televisiva. Na noite de 27 de Abril, entra em casa dos telespectadores, através da RTP, à hora do Telejornal. Surge sereno e seguro, sentado num maple, em casa, na Foz. Atrás de si, um candeeiro, flores e a imagem do Menino Jesus. Fala com tranquilidade e segurança. Sabe o quer e para onde ir. Define as etapas do processo político nacional. Estabelece o rumo para a democratização do país.

Avança para a criação de um partido político. Contacta amigos e companheiros. Dá prioridade aos da Ala Liberal. Quer um partido de centro-esquerda, inspirado na social-democracia nórdica. Vai anunciá-lo no dia 6 de Maio, às 19h00, em comunicado, no começo do Telejornal. Tem nome: Partido Social Democrata. Na véspera, contudo, surge um contratempo. Um outro grupo anuncia a criação do Partido Cristão Social Democrata. Sá Carneiro fica irritado. No dia 6, a uma hora do anúncio público, o partido não tem nome. Em Lisboa, na sede do Expresso, Balsemão, Marcelo e Magalhães Mota lançam sugestões, ensaiam siglas. No Porto, colado ao telefone, Sá Carneiro rejeita-as, uma após outra. Rúben Andersen Leitão, escritor e jornalista, entra nas instalações do jornal. Observa o frenesim. Acha-lhe piada. “No meio da confusão, berrou uma alternativa: Partido Popular Democrático.” Sá Carneiro ouve. Concorda. Poucos minutos depois, decide. Avançam para o anúncio ao país.

No dia 8 de Maio, os três fundadores, Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota dão uma primeira conferência de imprensa. Sá Carneiro define o espaço politico do PPD. Identifica os seus adversários. Demarca-se do comunismo, do socialismo de Mário Soares e do Estado Novo. Defende a linha de rumo social-democrata. Promete detalhes programáticos para os dias seguintes. Barbosa de Melo trata de os redigir. As bases do programa do PPD têm de estar concluídas para serem discutidas e aprovadas no dia 12 de Maio, Domingo, na Curia.

Com as linhas programáticas partidárias aprovadas, Sá Carneiro centra-se no I Governo Provisório. Consegue dois ministros para o PPD. O mesmo número que o histórico PCP. Menos um que o PS.

O primeiro governo da democracia portuguesa junta Sá Carneiro, Mário Soares e Álvaro Cunhal. As propostas de distribuição de pastas sucedem-se. São analisadas, calculadas. Umas, rejeitadas. Outras, aceites. Tudo numa espécie de tabuleiro de xadrez, em que cada um dos actores pondera o peso presente e a vantagem futura.

No dia 15 de Maio, o General Spínola toma posse do lugar de Presidente da República. O autor de Portugal e o Futuro, defensor da via negocial para o problema colonial português, vê reconhecido o seu papel de moderador do delicado xadrez político nacional. Tem ingentes desafios pela frente. O primeiro está em curso, mas necessita de ser rapidamente concluído: a formação do governo e a escolha do primeiro-ministro. A Comissão Coordenadora do MFA apresenta a Spínola três nomes: Pereira de Moura, Miller Guerra e Raúl Rego. O presidente rejeita-os. Indica Adelino da Palma Carlos. O MFA resmunga, mas não recusa.

Palma Carlos tem 69 anos. A sua ficha médica regista dois ataques cardíacos. O seu curriculum vitae não esconde a enorme inexperiência política. Exige a seu lado um jovem, com energia, visão política e capacidade para dinamizar o governo. Recorda-se de um ex-aluno. Chama-o. Convida-o. Ele resiste, surpreendido. No dia 16 de Maio, Palma Carlos anuncia ao país, que o ajudará, na direcção do governo, “com o entusiasmo da sua mocidade, o senhor ministro sem pasta, Dr. Sá Carneiro, a quem solicitei que desempenhasse a missão específica de adjunto do primeiro-ministro e que aceitou o encargo.”

O novo governo é uma coligação alargada. Sá Carneiro tem nele um papel determinante. Palma Carlos não abdica da sua presença permanente.

“O I Governo Provisório durou 55 dias e foi o período mais louco da vida de Sá Carneiro.” O conselho de ministros reúne quase diariamente. O ritmo é frenético e tenso. Os problemas surgem em catadupa. Exigem respostas rápidas, mas negociadas. As negociações são lentas, duras, complexas. Sá Carneiro queixa-se de que se avança pouco, de que se legisla pouco, de que se reúne muito, de que se discute muito.

A dada altura, decidem que Sá Carneiro faça reuniões prévias com ministros de pastas específicas, para facilitar os conselhos de ministros alargados. As questões sucedem-se: o salário mínimo, a lei das rendas, o controlo dos preços, os saneamentos dos funcionários afectos ao antigo regime, as relações externas, as desordens públicas, as manifestações diárias, a venda de armas ao estrangeiro. O caos ameaça instalar-se. O país vive em sobressalto. Sá Carneiro sente que o governo começa a estar cercado por greves permanentes, por reivindicações irrealistas, por ocupações constantes de empresas. Culpa os comunistas e a Comissão Coordenadora do MFA.

A tensão entre Spínola, o governo e o MFA é cada vez maior. O processo político radicaliza-se. O Conselho de Ministros vai-se transformando num espaço de confronto permanente, num palco de guerras políticas e pessoais. Palma Carlos confessa “estar a atingir o limite da sua paciência.”

A 5 de Julho, sexta-feira, o governo aprova o aumento de vencimentos da função pública. Os aumentos são variáveis em função dos rendimentos. A notícia percorre o país. De imediato, os telegramas de protesto começam a chegar aos gabinetes dos ministros. Na segunda-feira, uma multidão furiosa grita, em São Bento, por aumentos iguais. Sem força política, o governo vê-se obrigado a anunciar aos manifestantes a revogação do decreto.

Sob vigilância do MFA, Palma Carlos e Sá Carneiro queixam-se a Spínola. Pedem a demissão. O Presidente trava-os. Os membros da Comissão Coordenadora do MFA são remetidos de São Bento para a Cova da Moura. As greves aumentam todos os dias. Também as manifestações e as ocupações selvagens de fábricas. Palma Carlos volta a pedir a demissão. As divisões acentuam-se. Os ministros comunistas não desistem da sua agenda política. Spínola vê-se obrigado a presidir a uma reunião do Conselho de Ministros, para acalmar a situação. Sá Carneiro denuncia a estratégia de poder dos comunistas. Combate-a. A situação torna-se insustentável. Palma Carlos desabafa com os ministros mais próximos: “Eu não aguento isto, vou-me embora.” Pouco depois, anuncia a sua “irrevogável” decisão: “não quero morrer como traidor à pátria. Prefiro sair agora, levantado, do que daqui a três meses, coberto de lama e de sangue.” Firmino Miguel, segue-o. Sá Carneiro segue-o. Vieira de Almeida segue-o. Magalhães Mota segue-o. Raúl Rego quer segui-lo. Mas recua, pressionado por Mário Soares.

A primeira experiência governativa de Sá Carneiro chega ao fim. A sensação é de derrota. Os democratas civis estão mais fracos. Os militares revolucionários estão mais fortes. Decepcionado, regressa ao Largo do Rato, ao PPD. A sua situação interna é preocupante: irregularidades administrativas, deficiente implantação regional e a suspeita da presença de um infiltrado do PCP, a preparar-se para tomar o PPD de assalto.

Cansado e sem lucidez, Sá Carneiro refugia-se algum tempo no Porto e em Barcelos. Precisa de recuperar energia e disposição. Os intensos dias de governação, a situação política nacional e as desavenças partidárias deixam-no exausto. Percebe que tem de enfrentar grandes problemas. No país, Vasco Gonçalves. No partido, Sá Borges. “Sá Borges era um infiltrado comunista no PPD e tinha a missão de tomar o poder por dentro.” Vasco Gonçalves, primeiro-ministro indigitado, pretende dividir o PPD a partir de fora.

Sá Carneiro tem pela frente o I Congresso do PPD. Está a dois meses da sua realização. Começa a trabalhar nos estatutos e no programa partidário. Prepara-os. Prepara-se. Precisa de uma secretária. Chama Conceição Monteiro, prima de Balsemão, que se torna, a partir daquela altura, sua secretária particular. Reconhece debilidade na sua forma de comunicar. Recorre à actriz Glória de Matos para o ajudar. No partido, a tarefa é enorme. Define prioridades. Começa pela província e pelo Norte. Depois, Lisboa. A ajuda da Igreja Católica é tida como fundamental. Tem uma estrutura organizada, uma audiência alargada e permanente.

O PPD precisa de crescer, de alargar a sua base de apoio. Contra muitas vozes internas, que não aceitam figuras associadas ao Estado Novo, Sá Carneiro inscreve, entre outros, Mota Amaral, Jacinto Nunes e João Salgueiro. Irrita Mário Soares com a insistência na afirmação da identidade social-democrata do PPD e com a acusação de que “o PS é um partido de marxistas.” Em entrevista ao Diário de Notícias, em 13 de Junho de 1974, reafirma o que consta das linhas programáticas aprovadas e que não se cansa de repetir até ao fim:

“O Partido Popular Democrático foi o único, até agora que apareceu a defender a social-democracia, como já disse. Nesse sentido, pode considerar-se de centro-esquerda, ou de esquerda não marxista, se quiser. Nisso, difere obviamente dos partidos comunista e socialista.”

Lá fora, no país, a situação está cada vez mais tensa. Spínola está em queda. Sente o poder a fugir para o MFA. É forçado a presidir a uma descolonização apressada. Fá-lo com o coração destroçado. Teme a escravidão dos povos africanos, ditada por Moscovo. Isolado, apela ao “Povo”, à “maioria silenciosa”, para que se defenda “activamente de todos os totalitarismos." Quer reassumir as rédeas do poder. Julga consegui-lo através de uma movimentação de massas. Prepara uma manifestação de apoio. Agenda-a para 28 de Setembro. Ausculta lideres partidários. Vai em frente. Não ouve ninguém. Não valoriza as resistências. O PCP percebe o objectivo. Organiza o boicote. Apela ao combate contra a “reacção”. Ameaça: “se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhos, antes que morda.” O PPD, por Sá Carneiro, não concorda com a radicalização de Spínola. Distancia-se. O CDS faz o mesmo. Na noite de 25 de Setembro, Spínola entra no Campo Pequeno. Vai assistir a uma tourada. O povo aplaude-o. Vasco Gonçalves entra, pouco depois. É vaiado. A banda começa a tocar o Avante Camarada. O povo abafa-a. Entoa o hino nacional. Spínola rejubila. Mas na manhã do dia 27, o COPCON prende dezenas de pessoas, por suspeita de envolvimento na preparação da manifestação favorável ao presidente. Spínola convoca a Junta de Salvação Nacional. Acusa Alvaro Cunhal de estar às ordens de Moscovo. Propõe a demissão imediata do primeiro-ministro Vasco Gonçalves. Olha em volta. Ninguém se solidariza com ele. Nem Magalhães Mota. Nem Lourdes Pintasilgo. Ninguém.

Álvaro Cunhal coordena a resistência. Organiza barricadas populares à entrada de Lisboa. Visa impedir a entrada de apoiantes do presidente. Vasco Lourenço mobiliza apoios militares. O PPD prepara-se para a possibilidade de ter de passar à clandestinidade. Às três da manhã todas as estações deixam de transmitir, excepto a Emissora Nacional. Às oito, emite a Grândola Vila Morena. À uma da tarde, Spínola divulga um comunicado, no qual declara que “a manifestação da maioria silenciosa se tinha tornado inconveniente e, por isso, devia ser cancelada.” O PCP vence a batalha. Parte para a plena posse do poder no país, no Estado.

O PPD de Sá Carneiro continua em busca de afirmação. A 25 de Outubro de 1974, seis meses depois do 25 de Abril, realiza o seu primeiro comício em Lisboa. Mota Pinto lança o famoso slogan “Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”. Sá Carneiro apela à consolidação da democracia portuguesa e define os grandes desígnios da sua luta política: “…caminhar para a igualdade na liberdade. Alcançar rapidamente o progresso na segurança. Reformar profundamente a sociedade com pleno respeito da pessoa humana….”

O I Congresso Nacional do PPD está à porta. É o momento formal de entrega do partido às bases para que decidam o seu futuro. Sá Borges, responsável pela implantação do partido, é uma ameaça permanente. O líder apela a todos “para que mantenham o partido unido.” Aceita uma lista de consenso. Obtém 90 por cento dos votos. Na aparência tudo está bem. Mas Sá Carneiro fica em desvantagem na sua própria Comissão Política.

Dias depois, a 29 de Novembro, tem lugar outro grande comício. Desta vez, no Porto. Sá Carneiro insiste na via social-democrata para Portugal. Defende a democracia política, a democracia económica, a democracia cultural, a promoção da liberdade de espírito e da criatividade individual, a via reformista. O entusiasmo cresce. O comício termina em apoteose. Sá Carneiro é aclamado por milhares.

Mas Portugal está cada vez mais perto de uma guerra civil. Sá Carneiro sabe-o. No dia 1 de Fevereiro de 1975, em Aveiro, volta a apontar os seus inimigos: “Aveiro é a terra que pode orgulhar-se de não ter abdicado nunca perante a humilhação da ditadura e a despersonalização do totalitarismo.” Declara “estar a ser feita uma revolução aceleradamente sob a direcção do Partido Comunista.” Adverte que “há que rejeitar terminantemente aventuras revolucionárias.”[i] Protesta: “não pode mais continuar a viver-se num clima de guerra civil, (…) há que saber resistir a toda esta guerra psicológica que arrasa e paralisa as pessoas.”

Mas é precisamente nesta altura decisiva, neste momento dramático da vida política do país, que Sá carneiro não resiste.

19 de Fevereiro. 2h00. Sá Carneiro entra em estado de choque e em falência respiratória. É transportado para a sala de cirurgias da Casa de Saúde do Carmo, no Porto. Os médicos avaliam-no. Decidem operá-lo imediatamente. Os vários nós no intestino, que lhe causam dores insuportáveis e lhe ameaçam a vida, são desfeitos. Mas a recuperação é lenta e prejudicada por uma depressão, que urge esconder do país.

Com Sá Carneiro ausente, doente, o PPD transforma-se num campo de batalha. As lutas e as divisões internas acentuam-se. No país, Spínola prepara uma aventura desastrosa. Rumores crescentes indicam que pretende avançar para um golpe de Estado. Quer recuperar a “pureza do 25 de Abril”. Consta-se que em 12 e 13 de Março o PCP planeia desencadear a “matança da Páscoa” e liquidar “quinhentos oficiais e mil civis, inimigos da revolução, incluindo o próprio Spínola.” O General decide avançar. Às 9h00 da manhã, na Base Aérea de Tancos, apela aos seus homens. Motiva-os a lutar. Pouco depois, porém, está derrotado. Às 17h00, foge à pressa para Espanha, num helicóptero. Para trás fica Portugal no caos. Nessa noite, a “assembleia selvagem” decide criar o Conselho da Revolução e avançar de imediato para as nacionalizações. No PPD, pondera-se, de novo, a passagem à clandestinidade.

Sá Carneiro assiste, perturbado e impotente, ao avanço da revolução. O irmão Ricardo leva-o para Londres. A “29 de Março, Francisco sobe as escadas do avião, dividido entre a esperança de uma cura definitiva e a ansiedade de abandonar o país, por um prazo de tempo desconhecido.”

Aproximam-se as eleições de 25 de Abril. Francisco hesita sobre a vinda a Portugal, para votar. Machete incentiva-o. Isabel tenta sustê-lo. No dia 24 de Abril voa para Lisboa. À porta da sede do PPD, centenas de militantes saúdam-no. No dia seguinte, vota no Porto. O PPD obtém 26,39% dos votos. O PS vence com 37,87%. Apesar do segundo lugar, Sá Carneiro, fica satisfeito. Contém o PCP, que obtém uns escassos 12,46%. Regressa a Londres. Recomeça a ler, a passear, a escrever. “Visita o Museu Britânico, a Tate Gallery, a London Gallery. Vai à missa ao domingo a uma igreja perto de casa.” Recebe vistas dos amigos portugueses.

No início de Maio é submetido a nova cirurgia. Tem catorze focos de infecção no abdómen. Os efeitos positivos da cirurgia são imediatos. Reanima-se. Regressa. Pede a convocação de um Conselho Nacional do PPD. Nuno Rodrigues dos Santos anui. Volta a Portugal na véspera. Duas mil pessoas esperam-no à porta do partido. Empunham cartazes: “As bases estão com Sá Carneiro”. A 24 de Maio, o Conselho Nacional elege Emídio Guerreiro para dirigir o partido, interinamente. Pouco depois, viaja novamente para Londres. Os médicos sugerem-lhe uma mudança de ares, que apanhe sol, que contacte com a Natureza. Parte para o sul de Espanha. Arrenda uma casa, na zona de Marbella, em São Pedro de Alcântara. Chama-se San Damian. Sá Carneiro voa para lá. Isabel junta os filhos, uma empregada, várias malas e arranca no seu Citroën para junto do marido. Sá Carneiro melhora, ganha peso e ânimo. Aos domingos, vai à missa. Lê os jornais portugueses e ouve os noticiários. Conceição Monteiro informa-o, todos os dias, por telefone, sobre a evolução política nacional e partidária. Ele ferve. Começa a pensar no regresso.

24 de Setembro de 1975. Sá Carneiro anuncia o regresso à política e ao partido. Numa conferência de imprensa, no Hotel Roma, em Lisboa, justifica os sete meses de ausência da vida política activa. Defende-se dos ataques à social-democracia. Comenta com ironia que “em Portugal não pode ser-se anticomunista, mas parece dever ser-se anti-social-democrata.” Adianta que a sociedade que defende “é aquela em que cada um se realiza plena e livremente, abolidas que sejam as condições de alienação, exploração e opressão da pessoa humana.” Condescende com o VI Governo Provisório. Nega querer virar o partido à direita. É implacável com o MFA.

Três dias depois, em 27 de Setembro, na estalagem Via Norte, tem lugar uma reunião do Conselho Nacional do PPD. Destina-se a decidir sobre a reintegração imediata de Sá Carneiro na liderança e a analisar a situação político-partidária. O encontro começa com uma derrota. Os conselheiros não aceitam reintegrar o fundador. A noite será longa. Durante horas, o ex-líder é atacado, numa estratégia concertada para o destruir. Às 2h da manhã chega a sua vez de intervir. Termina às 8h. É o maior discurso da sua vida. Bebe “quase cinco litros de água do Luso.” Antes de terminar exige que a votação sobre o seu regresso se volte a realizar. Desta vez, em escrutínio secreto. Dos 134 conselheiros, 111 votam a favor.

30 de Setembro. Quarenta e oito horas “depois do Conselho de Ministros ter estado sequestrado durante várias horas, PS e PPD” juntam-se em São Bento, numa manifestação conjunta de apoio ao VI Governo Provisório. No dia seguinte, no Porto, perante oitenta mil pessoas, Sá Carneiro insiste:

“O povo português quer ordem democrática e não instabilidade oportunista, quer paz e não desassossego permanente, quer instrumentos de trabalho para produzir e não G-3 em mãos de aventureiros, quer liberdade real, concreta e quotidiana e não opressão siberiana.”

Mas a tensão não baixa. Nos primeiros dias de Outubro, o Porto é palco de violentos confrontos. O seu ponto alto é a noite de 8 para 9. O local é o RASP, em Vila Nova de Gaia. Os militares afectos à extrema esquerda, ocupam o quartel. Cá fora, uma manifestação de civis protesta. Os confrontos aumentam durante a madrugada e provocam dezenas de feridos. Sá Carneiro reage. Denuncia “os ataques cobardes, a perfídia repelente e a vermelha orquestração de clamores hipócritas, que fazem parte de um plano de conquista do poder pelos comunistas.” Incita os portugueses a resistirem: “O povo tem de estar consciente do perigo, tem de estar presente nas ruas contra os pró-soviéticos emboçados dos SUV, os arruaceiros da FUR e todos os marginais portugueses e estrangeiros que por aí pululam, pagos muitas vezes com o dinheiro do povo.” Resiste. Insiste. Combate. Ataca Álvaro Cunhal. Acusa-o de desrespeito pelas pessoas humanas e de estar a fomentar a subversão, a indisciplina e a agitação, depois de ter perdido a cúpula do poder, agora que Pinheiro de Azevedo é primeiro-ministro, sucedendo a Vasco Gonçalves. No Porto, em Coimbra, em Braga, em Aveiro, em Faro, em Lisboa, são milhares as pessoas que o ouvem, que se entusiasmam, que aderem aos seus apelos contra os adversários da democracia.

A tensão, no entanto, não abranda. O PCP continua a fomentar a instabilidade, a dividir o país, a fracturar as Forças Armadas. PS e PPD decidem unir-se. No dia 25 de Outubro juntam, no Porto, mais de cem mil pessoas. Defendem o VI Governo Provisório. Pinheiro de Azevedo, “com Sá Carneiro à sua esquerda e Mário Soares à sua direita” faz um discurso duro. Apela ao regresso das armas aos quartéis, dos julgamentos aos tribunais, dos trabalhadores ao trabalho, do país à tranquilidade. Ali perto ouvem-se petardos, granadas, gás lacrimogéneo. Uma nuvem de fumo invade a praça. Pinheiro de Azevedo declara: “é apenas fumaça.” E prossegue.

12 de Novembro. A Assembleia Constituinte é cercada por oitenta mil trabalhadores da construção civil. Vinte e quatro horas depois, Mário Soares recebe uma informação secreta: “está em preparação um golpe para o fim-de-semana seguinte, com o objectivo de criar a Comuna de Lisboa.” Contacta Sá Carneiro. Pede-lhe para que abandone a capital. PPD, PS e CDS convocam uma manifestação para sábado, na Praça General Humberto Delgado, no Porto. No Terreiro do Paço, nessa mesma noite, duzentas mil pessoas respondem ao apelo do PCP. A guerra civil está eminente. Portugal, a arder.

Na manhã de 25 de Novembro, Sá Carneiro parte para a República Federal Alemã. Tem encontros agendados com Willy Brandt e Helmut Schmidt. A meio de uma reunião, Conceição Monteiro irrompe na sala. Anuncia que a televisão transmite imagens de Portugal, que o PCP tenta tomar o poder. Vários sectores das Forças Armadas resistem. Os partidos democráticos insurgem-se. Apelam à resistência. O povo junta-se ao combate pela democracia. No final, todos saem vitoriosos, excepto os comunistas.

Dias depois, o PPD realiza o seu II congresso, o célebre congresso de Aveiro. Sá Carneiro tem de enfrentar a Plataforma Social-Democrata para o Socialismo, tendência interna do PPD, na qual se destacam Sá Borges, Mota Pinto e Emídio Guerreiro. A Plataforma pretende provocar profundas alterações estatutárias. O debate incendeia o Congresso. Sá Carneiro dramatiza. Abandona o Teatro Avenida. Os congressistas chamam-no. Sá Carneiro regressa, vitorioso. Os opositores ausentam-se, derrotados. Anunciam o abandono do partido.

O PPD, contudo, aguenta-se. Resiste à tentativa de desagregação. Prepara a primeira campanha eleitoral democrática. Sá Carneiro é a grande figura. Popular, carismático, lúcido, firme. Percorre o País num Citröen 2 Cavalos. Fala aos portugueses. Entusiasma-se. Entusiasma-os. Acredita na vitória até ao fim. Mas é cedo para ter razão. Ela não surge. O seu partido, em 25 de Abril de 1976, obtém, apenas 24,3% dos votos. O PS, de Mário Soares, volta a vencer. Sá Carneiro mergulha numa “depressão total.” Quem está por perto para o apoiar?

Das tensões no PSD até ao governo de Portugal

No início de 1976, Sá Carneiro almoça com Natália Correia. Tem, por ela, uma admiração especial. Considera-a desafiante e provocadora. Até do ponto de vista político. Mas neste dia, quer saber o que ela pensa da editora da Dom Quixote.

- “Natália, que tal é a nossa editora? Você conhece-a bem e…”

- “É melhor não querer saber como ela é. É uma princesa nórdica, que jaz adormecida num esquife de gelo, à espera que venha o príncipe encantado dar-lhe o beijo de fogo. Esse príncipe encantado é você. Porque ela é a mulher da sua vida. Corra para ela e convide-a.”

6 de Janeiro de 1976. Vigésimo primeiro aniversário do início do namoro com Isabel. Sá Carneiro almoça com Snu Abecassis. Ao chegar à sede do PPD, depois do encontro, confessa a Conceição Monteiro: “Ela é brilhante.”

A partir dessa data, a vida de Sá Carneiro muda radicalmente. Altera hábitos sociais. Frequenta locais e círculos, que até então evita. Procura eventos e locais onde Snu possa estar. A escandinava, que chega a Portugal em 1962, por casamento com Vasco Abecassis, “depois de ter vivido o ar livre das democracias, de sociedades abertas, onde não fazia sentido questionar a liberdade”, irrompe na vida de Sá Carneiro como um furacão. A relação com Isabel arrefece. O ambiente familiar degrada-se. Os filhos apercebem-se. Sá Carneiro pede o divórcio. Isabel recusa-lho. No PPD, teme-se o escândalo. Amigos e companheiros de partido receiam as implicações político-partidárias da paixão do líder por Snu. Mas Sá Carneiro não desiste. Sofre, mas não desiste. Quer continuar a viver com a intensidade de sempre. Sente a morte próxima. Quer aproveitar a vida.

Derrotado nas eleições legislativas de Abril, o PPD foca a atenção na eleição presidencial. Soares prepara-a com o Conselho da Revolução. Apresenta-lhe uma lista de quatro nomes: Costa Brás, Firmino Miguel, Pires Veloso e Ramalho Eanes. Este recebe sete dos nove votos. Soares avança para a apresentação de Eanes. Marcelo Rebelo de Sousa toma conhecimento do nome escolhido pelo PS. Sem estratégia definida, Sá Carneiro recebe a informação de Marcelo a meio de uma reunião do PPD. Nessa mesma madrugada, a agência de notícias ANOP fica a saber que o PPD é o primeiro partido a apoiar Ramalho Eanes. Mário Soares fica furioso. Eanes explode.

Eleito, em 27 de Junho, com 61,5%, Eanes não faz a vontade de Sá Carneiro: um governo de coligação com o PS. Prefere agradar a Mário Soares: um governo minoritário, apenas com os socialistas.

Sá Carneiro investe, a partir de então, em duas frentes: no reforço da implantação nacional do PPD e no ataque violento ao governo do PS. Propõe uma alteração ao nome do partido. Sabe que o PS se quer apresentar ao país como o único partido social-democrata. Desde a noite de 2 para 3 de Outubro, o PPD passa a designar-se: Partido Social-Democrata, PPD-PSD. António Capucho desenha as três setas que passam a ser o seu símbolo.

O país, entretanto, continua a caminhar para a bancarrota. Sá Carneiro responsabiliza Mário Soares. Os militantes do PSD entusiasmam-se com o elevar da tensão política. Mas Sá Carneiro não quer derrubar Soares. Quer juntar-se a ele, no Governo. Soares recusa. Como Sá Carneiro, ele quer ser o equilíbrio do regime.

Afastada a hipótese de convergência com o PS, rompida a relação de confiança com Eanes, acentuada a crise social e económica no país, Sá Carneiro não tem alternativa a uma postura de combate sem tréguas. Muitos discordam. No fim de Janeiro de 1978, o partido encontra-se para a realização do Congresso do Cinema Vale Formoso, no Porto. Os opositores do líder procuram afastar Sá Carneiro. Marcelo Rebelo de Sousa tenta o consenso com uma moção de equilíbrio. O partido aprova-a, quase por unanimidade. Com uma abstenção: a do líder. O congresso é surpreendido. Acaba de votar contra Sá Carneiro. Todos querem recuar. Sá Carneiro não aceita recuos. Sousa Franco substitui-o.

Por essa altura, abandona a liderança. Mas não a política, nem o PSD. Continua a criticar, em entrevistas e artigos de opinião, os órgãos de soberania e a direcção do partido. Em 2 de Abril reúne milhares de apoiantes, no Vimeiro. Sousa Franco enfurece-se. Percebe que não tem poder. Convoca um Conselho Nacional. Adopta uma estratégia, que passa pelo abandono de funções. Visa testar os apoios de que dispõe. Dá conta da sua escassez. Vai embora. Uma comissão é eleita para preparar um outro congresso e o regresso de Sá Carneiro. Entretanto, surgem as Opções Inadiáveis. Reúnem os descontentes com o líder. Sá Carneiro derrota-os. Mas não os elimina.

No início de 1979, os Inadiáveis, cada vez mais próximos de Eanes, regressam. Provocam várias cisões internas. O grupo parlamentar divide-se. Fica reduzido a metade. Muitos entendem que é a hora derradeira do líder do PSD. Sente-se só, como nunca. Como nunca, acredita ter razão.

Eanes está na origem da segunda grande fractura do PSD. Mas Sá Carneiro não esmorece. Poucos depois, concentra milhares de pessoas num comício, em Lisboa. Entusiasmado, procura Soares. Propõe-lhe uma aliança com base num denominador comum: derrotar Eanes. Soares recusa. Crê que Sá Carneiro, após a crise dos Inadiáveis está politicamente morto. Engana-se. Com a recusa do PS, Sá Carneiro dirige-se a Freitas do Amaral. A aceitação é imediata. O governo de Mota Pinto, entretanto, cai. Eanes propõe eleições intercalares. Até lá, nomeia Maria de Lourdes Pintasilgo. A direita hesita. Eanes insiste. Cola-se à esquerda radical. O VII Congresso do PSD aprova a estratégia do líder: coligação com o CDS e com o PPM.

A campanha eleitoral da AD sai para a estrada. O combate é duro, desgastante. A Aliança Democrática procura provocar a mudança significativa da política portuguesa, excessivamente ameaçada pelo radicalismo de esquerda. Os comícios e sessões de esclarecimento multiplicam-se. Alargam-se a todo o país. Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Ribeiro Telles insistem na necessidade de mudar e modernizar Portugal, de romper com o radicalismo dos comunistas, de acabar com o bafo mofento do Estado Novo, de rever a constituição, de promover o investimento, de dinamizar a economia, de melhorar o sistema de saúde e de educação, de reformar a agricultura, de promover a qualificação dos portugueses, de centrar a atenção nas necessidades concretas dos homens e mulheres de Portugal.

2 de Dezembro de 1979. Sá Carneiro, no Hotel Altis, recebe os primeiros resultados eleitorais. As vinte freguesias-tipo, previamente definidas, apontam para uma vitória por maioria absoluta. A confirmação dessa notícia é dada pela RTP. A AD obtém 45,2% dos votos. Vence as eleições com maioria absoluta. Sá Carneiro não sustém a alegria.

3 de Janeiro de 1980. Dois dias depois de um grande sismo nos Açores, Sá Carneiro toma posse como primeiro-ministro do governo de Portugal. Rompe, de imediato, com os diplomas de Pintasilgo, com o socialismo, com a União Soviética. Acelera a acção governativa. Intensifica a Reforma Agrária. Distribui terras a agricultores e a pequenos proprietários. Atrai investimento estrangeiro. Flexibiliza as leis laborais. Força a rápida adesão à Comunidade Económica Europeia. Disciplina as contas públicas. Descentraliza a administração.

Mas nem tudo são rosas. Os ataques sucedem-se: pessoais: sobre a relação com Snu e a sua alegada dívida à banca; políticos: do PCP e de Eanes. Pondera, então, ser candidato presidencial. Para afastar o presidente, não basta o confronto constante e quotidiano. Precisa de o derrotar nas urnas. Mas tem um problema: a relação com Snu. Para o resolver, Sá Carneiro tenta obter a nulidade do casamento católico. Invoca falta de plena maturidade humana à data da celebração. Em Roma, cria expectativas positivas quanto ao desenlace do seu intento. No Porto, D. António Ferreira Gomes encarrega-se de as esbater. Sá Carneiro abandona, então, a ideia da candidatura presidencial. Concentra-se nas eleições legislativas de Outubro. Tem a consciência do bom trabalho governativo. Aponta para uma nova maioria absoluta. Espera eleger 130 deputados.

5 de Outubro de 1980. Os portugueses vão às urnas. A AD vence de novo. Mas as expectativas de Sá Carneiro não correspondem aos mandatos parlamentares obtidos. Ficam aquém deles. A coligação obtém 47, 36%. Elege 134 deputados. Sá Carneiro, radiante, afirma: estas eleições constituem “a primeira volta das eleições presidenciais.” Eanes continua na sua linha de mira. Sá Carneiro quer “um governo, uma maioria, um presidente.” Quer tudo. Sempre.

Soares Carneiro é a escolha possível para o confronto eleitoral com Eanes. Os 47% das legislativas são um grande resultado. Mas não garantem a vitória. Apenas uma derrota honrada. Soares Carneiro não entusiasma. Sá Carneiro não desiste. Luta até ao último instante. O último instante é o Porto.

O fim

4 de Dezembro de 1980. Conceição Monteiro reserva quatro bilhetes para o voo da TAP das vinte horas e vinte minutos, entre Lisboa e o Porto. Os bilhetes destinam-se a Sá Carneiro, Snu, António Patrício Gouveia e João Cordeiro Pereira, assessor de imprensa. Sá Carneiro entra no Palácio de São Bento às nove horas e trinta minutos. Ao meio dia tem uma reunião decisiva para encerrar o orçamento das Forças Armadas. Atrasado para um almoço marcado para as treze horas, no restaurante Tavares, sai antes da reunião terminar. Adelino Amaro da Costa, ministro da Defesa, vem atrás dele. Oferece-lhe boleia para o Porto, num Cessna de cinco lugares. Partirão pelas dezanove horas, para terem tempo de jantar no Escondidinho. Depois, é só atravessar a rua e entrar no Coliseu, para o último comício. Sá Carneiro aceita e agradece. Dá instruções a Conceição Monteiro para manter a reserva na TAP, pois é Dezembro, mês de intempéries.

No Tavares, Sá Carneiro pede “uma canja de perdiz e uma perdiz estufada sobre pão torrado.” Freitas do Amaral, mais tarde junta-se a Sá Carneiro e aos que o acompanham. “Falam de aviões e de voos, a propósito das deslocações inerentes à campanha.” Sá Carneiro adianta que não lhe faz a menor impressão viajar em avionetes. Está habituado. Depois, discutem o que dizer na conferência de Imprensa dessa tarde. Todos desenham cenários eleitorais. Todos apontam estratégias futuras, após a primeira volta das eleições, no domingo.

Dezanove horas. Sá Carneiro entra, com Snu, na sala VIP do Aeroporto da Portela. Adelino Amaro da Costa atrasa-se, como sempre. Sá Carneiro não gosta, mas já está habituado. Fala com Snu, com Patrício Gouveia. Aguarda. O ministro da Defesa chega, finalmente, com a mulher. São dezanove horas e dez minutos. Todos juntos, apanham uma carrinha até ao Cessna, modelo 421-A, com a matrícula YV-314P. No interior do avião, Sá Carneiro senta-se “à frente do ministro da Defesa, que estava de costas para o comandante; ao lado do primeiro-ministro estava Snu; à frente dela, Manuela Amaro da Costa; e, na parte de trás, António Patrício Gouveia.”

Dezanove horas e trinta e cinco minutos. Jorge Albuquerque tenta pôr o motor a funcionar. Em vão. Tenta novamente. Não consegue. Sai do avião e requisita um gerador. “Ao fim de sete minutos, o motor direito pega, finalmente. Mas o esquerdo só se porá em movimento 22 minutos depois.” Vinte horas e nove minutos. Um dos pilotos pede à torre de controlo, que averigue se a TAP mantém as reservas em nome do primeiro-ministro. Dizem-lhe para aguardar pela resposta. Quatro minutos depois, o motor esquerdo começa a funcionar. O piloto decide arrancar. Toma a pista mais curta. São vinte horas e dezasseis minutos e trinta segundos. Descola 12 segundos depois.

Comentários
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  • Fernando
    25 nov, 2016 Lisboa 10:02
    JOSE FURTUOSO. És capaz de repetir para se perceber melhor.
  • Jose Furtuoso
    24 nov, 2016 valongo 17:01
    Como se pode ver por alguns comentarios ha ainda muito traidor e com vontade de continuar o trabalho dos mortose vivos que trair era o que melhor sabem fazer.Talvez façam isto para vingar a vontade de quem tudo fez para fazer desaparecer este País como Naçao e uma Patria de gente de valores e que amam sua Patria e nao se vendem a ninguém.
  • Luis
    24 nov, 2016 Lisboa 10:28
    Não restam quaisquer duvidas, comparar o actual lider do PSD, como cidadão, como profissional, como pessoa e como politico, com o lider fundador do partido é o mesmo que comparar o olho do dito com a Feira de Borba. Um construiu o partido da forma descrita no artigo e por isso é recordado. O outro destroi o partido, depois de quase ter destruido o País, de forma manifesta e ainda evoca o diabo para voltar a ser 1ºMinistro. Com a dimensão de Sá Carneiro houve e há poucos. Com a desqualificação de Passos não há nem nunca houve nenhum. Passos até para os seus já é um autêntico emplastro.
  • Francisco Santos
    23 nov, 2016 Barcelos 23:58
    Aqui estao os nomes dos "traidores" que fizeram de Portugal o que hoje é. .Mas faltam os nomes dos conselheiros da revoluçao que eram muitos.Agora aqui se ve os traidores que houve na Revoluçao.Memo aqueles que pareciam amigos num dia estavam do outro lado.Apenas houve um homem com palavra e honra, esse foi SA CARNEIRO.E bom que divulguem este texto aos jovens para eles intenderem o que é trair só por interesse pessoal e ideologico,mesmo que isso resultasse numa guerra entre Portugueses.E alguns hoje ainda estao vivos.E outros estao a negar tudo o que muitos na altura era impossível.Hoje levaram para nos.governar gente que condenaram portugal à estagnaçao e miséria e subdesenvolvimento.Por isso os jovens vao embora,mas o mal vem de longe.Mas os traidores ainda hoje a politica para eles é o seu bem estar e de seus seguidires.
  • Frank
    23 nov, 2016 Idanha 23:38
    Gostei deste excerto. Lanço um desafio ao autor: escrever um livro sobre o que mudaria se Sá Carneiro não tivesse morrido.
  • 23 nov, 2016 aldeia 21:35
    E hoje!.....o PPD já não existe,há no seu lugar um conjunto de pessoas,sempre a dizer mal de tudo e de todos,em que nada ajudam Portugal,não querem saber do povo, e dá-se pelo nome de psd.
  • Helena Tomé
    23 nov, 2016 Ermesinde 21:20
    Parece-me demasiado complexo. Não cativa, cansa. Não fala de aspetos que seriam muito interessantes. Lembro-me perfeitamente de que chorei quando Sá Carneiro morreu. Pareceu-me que era o fim da nossa curta democracia. Era muito nova, mas lembro-me, também, de não entender como é que se falava de Snu Abecassis na vida de Sá Carneiro abertamente, embora, não se fizessem perguntas acerca dela, até que ela desapareceu rapidamente da minha imaginação logo após o acidente. Muitos anos depois, pressenti que o caso de Sá Carneiro com Snu Abecassis era muito mais poderoso do que tinha parecido na época dos acontecimentos. Aquele advogado do Porto, pequenino, com uma voz que nos dissipava as dúvidas, tinha ido para Lisboa, tinha-se "apoderado" de uma senhora estrangeira casada com um importante português, passa a viver na sua casa, a fazer as suas rotinas, com os filhos dela e dele pelo menos um. Da sua casa dita opiniões através do telefone. Interrompem-lhe o jantar, mas a leve brisa passa pelo tule das cortinas e o ambiente é harmonioso, ele é feliz... obteve o que quis, ter aquilo que nunca teria sem Snu Abecassis. Fiquei muito admirada quando li alguns aspetos desta perspetiva, dele ter vivido com uma pessoa para quem a democracia era qualquer coisa de natural, alguém de opiniões fortes, alguém conhecido e muito respeitado, cujo marido se aborrecia e se ia deixando engordar, com acesso à Lisboa literata, às grandes famílias, ele, um símbolo do poder em Portugal. Católico... talvez