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​António Vitorino. "Guterres aposta o seu mandato na Síria e já está a fazer contactos"

14 out, 2016 - 16:19

As prioridades do novo secretário-geral da ONU são analisadas na Renascença por Pedro Santana Lopes e António Vitorino. Os comentadores do programa "Fora da Caixa" deixam conselhos a Guterres nos primeiros passos a tomar em Nova Iorque
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Fora da Caixa (14/10/16) - Guterres na ONU e a tensão EUA/Rússia
Fora da Caixa (14/10/16) - Guterres na ONU e a tensão EUA/Rússia

Homem muito próximo de António Guterres, o antigo comissário europeu António Vitorino considera que o novo secretário-geral das Nações Unidas assume uma prioridade arriscada mas incontornável.

" Ninguém compreenderia que ele não escolhesse a Síria como prioridade. O mundo está a desabar em torno da questão síria. Não é apenas a Síria, são os refugiados, a relação Leste-Oeste, o estatuto da Rússia no Médio Oriente. E o secretário-geral ia de repente escolher a África Central como prioridade? Não faria sentido em circunstância nenhuma ", afirma Vitorino no programa "Fora da Caixa" da Renascença.

Para o antigo ministro dos governos de Guterres, o sucessor de Ban-Ki-Moon arrisca ao assumir a prioridade ao problema internacional mais complicado do momento. "De alguma maneira, ele aposta o seu mandato na questão da Síria. Está ali o primeiro grande embate sobre um tema muito difícil e muito complexo e ao mesmo tempo incontornável", complementa Vitorino.

Estratégia de pequenos passos

Mas o que pode realmente fazer Guterres pela Síria ? Vitorino pensa que o novo secretário-geral pode "criar pontos de diálogo e propor algumas soluções. Não tem que esperar pelas iniciativas dos outros". Já Pedro Santana Lopes acredita que Guterres pode começar a preparar a sua intervenção de forma muito cuidada, com recurso a uma estratégia de pequenos passos.

" Assad pode receber o Papa Francisco e olhar para ele pensando que não é ele que verdadeiramente manda. Passe a comparação, o secretário-geral da ONU tem um estatuto e uma posição no mundo que não pode ser recebido de qualquer maneira. É evidente que a questão não está na maneira como ele o recebe, mas no modo como Guterres pode fazer as diligências diplomáticas necessárias daqui até lá para que a sua visita seja de facto um marco. Só se vai lá com passos muito pequenos na diplomacia", argumenta o antigo presidente do PSD na Renascença.

O antigo ministro da Defesa insiste que "para já" compete ainda a Ban-ki-Moon abrir caminho a Guterres também na questão síria. "Será ainda Ban-Ki-Moon a pôr fim imediato ao drama humanitário. Essa é a prioridade das prioridades. Obviamente que se isso for possível fazer até ao final do ano, a maneira como Guterres entrar no dossier da Síria poderá ser mais ou menos favorável consoante a situação seja contida ou não", afirma António Vitorino. O antigo comissário europeu sustenta que Guterres "já está a tratar deste tema, como é evidente. Mesmo sem ser formalmente secretario-geral, já está a fazer contactos".

Eleito num mundo perdido

Num quadro de relações conturbadas entre a Rússia e os Estados Unidos, a eleição de Guterres pode ter sido "verdadeiramente a única boa noticia dos últimos tempos" também para a questão da Síria, diz Vitorino. "Apesar de tudo indicia que quer a Rússia quer os Estados Unidos quiseram deixar ali uma porta aberta de diálogo e não criar uma situação de bloqueio ao nível das Nações Unidas que só agravaria uma situação já de si muito complexa".

Pedro Santana Lopes ensaia uma comparação com um cargo de Presidente da Republica confrontado com uma crise aguda.

"Tal como o Presidente da República só pode usar o seu poder se o Governo não tiver maioria - senão distribui afectos - António Guterres pode distribuir afectos mas não fazer muito mais do que isso. 'Não ter maioria' lá corresponde a uma situação de guerra", observa Santana Lopes que vai insistindo numa mudança protagonizada por Guterres na ONU. "Algo nos diz a todos no mundo que este secretario-geral da ONU vai ser diferente".

O antigo primeiro-ministro argumenta que as "circunstancias do mundo" levaram Guterres neste momento para aquele lugar, com os países mais poderosos no mundo dispostos a viabilizar ali "uma válvula de escape com alguma capacidade". Para Santana, " Guterres entrou um pouco porque o mundo está um pouco perdido nas relações de força entre os seus membros mais poderosos".

Outras prioridades

Síria e crise dos refugiados. "Se ele der alguns pequenos passos em relação estes temas, será muito bom", sustenta Santana Lopes que desaconselha atenção prioritárias dirigidas à Ásia. "Se fosse ele deixava agora as Coreias de lado", exemplifica.

Santana Lopes volta a tocar uma das suas ideias-chave repetidas em diversos programas: "tem como prioridade o estatuto e a possibilidade de utilização dos capacetes azuis que fazem muita falta em muitas regiões onde não estão". Para o ex-líder do PSD, Guterres tem força de entrada para melhorar mais a questão do financiamento das operações de paz da ONU.

António Vitorino defende que a ONU carece de uma estrutura permanente de comando nas operações de paz.

"Normalmente as Nações Unidas fazem uma de duas coisas. Ou recorrem a uma organização já existente - e normalmente pedem essas operações à NATO e aí do ponto de vista operacional as coisas estão muito no terreno organizadas - ou quando as Nações Unidas têm que assumir directamente a função de comando - como sucedeu em varias operações em África - a estrutura de comando é muito débil, ficando muito dependente dos países que estão predispostos a participar nessas operações de paz. Uma maior estabilização do contingente das Nações Unidas, dos capacetes azuis, que pudessem intervir em situações de emergência, seria já um passo muito positivo", afirma o antigo ministro da Defesa que serviu nos governos de António Guterres.

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