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“Porque é que um padre não pode estar nos palcos?”

15 out, 2016 - 14:40 • Ângela Roque

Victor Silva tem 41 anos e foi ordenado sacerdote há 14. O “padre do rock”, com muitos lhe chamam, acaba de lançar um novo álbum e o vídeoclip “Promessas”. Em entrevista à Renascença, fala das duas vocações que abraçou. Chamam-lhe “maluco”, mas “no bom sentido”.
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Victor Silva é pároco em Lamego, dá aulas de Religião e Moral em Castro Daire e tem entre os alunos e paroquianos muitos dos seus fãs. Despertou para a música quando já estava no seminário e lança, agora, o seu segundo álbum. O primeiro, “Palavras”, saiu em 2009, e duas das canções fizeram parte da banda sonora de uma telenovela, o que ajudou a divulgar ainda mais o seu trabalho.

No novo disco, contou com a ajuda de músicos profissionais. O álbum foi produzido por Nuno Espinheira, dos Blind Zero, e masterizado, em Nova Iorque, por Andy Vandette, um engenheiro de som conhecido no meio e que já trabalhou com muitos artistas portugueses.

Em entrevista ao programa “Princípio e Fim”, que pode ouvir este domingo, depois das 23h30, na Renascença, Victor Silva conta que o pop-rock é o registo em que gosta de cantar e tocar e que é assim que se vê como padre, mesmo que na Igreja, por preconceito, possa haver quem ache isso estranho.

Como é que concilia a vida de padre com a de músico?

Às vezes é difícil. A nível paroquial, torna-se mais fácil, porque quando eu não posso estar e algum colega me substitui. Com a escola é que é mais difícil, porque eu não posso faltar às aulas, tenho essa obrigação.

Tem muitos concertos?

Quando lançamos o primeiro disco, tivemos bastantes. Agora, com o projecto "Faces", até Dezembro será tempo para a promoção e divulgação e só a partir de Janeiro de 2017 é que arrancam os concertos.

Essa paixão pela música é anterior ao sacerdócio ou foram paixões paralelas?

A música nasceu primeiro. Eu já estava no seminário. Ouvia música e gostava de música. Aprendi a tocar viola e fui descobrindo que era possível fazer alguma coisa. Escrevi algumas músicas, que fui guardando ao longo dos anos. O primeiro disco, o “Palavras”, saiu já eu era padre. Portanto, é curioso: a música nasceu primeiro, fui padre e só depois é que lancei o primeiro álbum.

A música ajuda-o a ser padre?

Sim, eu creio que sim. Aproxima-me mais das pessoas e acho que aproxima as pessoas da Igreja. Porque ser padre não é estar só na sacristia e na Igreja. É estar onde estão as pessoas e o Papa Francisco tem-nos falado muito disso, da Igreja ser uma Igreja de missão, que tem de ir ao encontro do outro. E eu uso a música para isso.

A música é um meio de evangelizar?

É um veículo poderoso, sendo bem utilizado.

A sonoridade dos seus trabalhos é uma sonoridade actual, pop-rock. Também é uma forma de chegar a mais gente?

Este álbum, o “Faces”, teve a produção no Nuno Espinheira, dos Blind Zero, e a participação do Pedro Guedes, na bateria. E foi curioso porque eles eram de uma banda de referência para mim, na adolescência, e tê-los conhecido e sermos amigos era algo que estava longe de mim. estava longa imaginar que um dia iria poder gravar com eles. Sei que sou o primeiro padre português a tocar numa toada pop-rock. Não há muitos. Na Península Ibérica, temos o padre Jony, que faz rock e rap cristão. A minha música é uma música de registo actual, que é audível, sem ferir as susceptibilidades das pessoas que possam dizer "ai, este padre é um grande maluco!".

Dizem-lhe isso?

Às vezes, sim. Mas, "maluco" no bom sentido.

As suas músicas falam sempre de Deus ou isso não é obrigatório?

Não é obrigatório. Os temas que escrevo e que componho, e que estão neste álbum, falam-nos daquilo que caracteriza o ser humano na sua essência, da esperança de que o amanhã será melhor. E falam-nos de uma coisa que é muito importante, que é o amor. O amor que temos pelos pais, pelos nossos amigos, pelo namorado ou namorada, este amor que é essencial à vida do homem, do ser humano.

Nasceu no distrito de Viseu, foi ordenado padre em Lamego e é aí que é pároco. É professor numa escola de Castro Daire. Os seus paroquianos e os seus alunos acompanham esta sua vertente musical, são seus fãs?

Os alunos, sim. E é curioso porque terem um professor que vai à televisão, que está nas rádios e que sai nos jornais, para eles é motivo de orgulho. Eu, se calhar, se tivesse a idade deles, também me sentiria assim. "Eh pá, o nosso professor é que é fixe". Mas não é só isso, também são os conteúdos que leccionamos nas aulas, é preciso muito mais do que "ser fixe". A nível das paróquias, há sempre aquele receio dos paroquianos puderem dizer "ah, o nosso padre não tem tempo para rezar missa". Mas não, nunca falhei os meus compromissos.

E também toca nas missas?

Toco nas missas quando é a festa da catequese. Paramentado, e toco com eles.

Em relação à hierarquia, o bispo D. António Couto gosta que seja assim um padre "rockeiro"?

Por acaso, nunca falámos sobre isso. Como eu estive muitos anos a trabalhar na diocese de Bragança, só regressei no ano passado à diocese de Lamego. Nunca tive essa conversa. Mas ele sabe como é que eu sou e nunca me disse nada. Portanto, é porque, provavelmente, gosta e acha que aquilo que faço, faço bem.

Com o seu primeiro álbum “Palavras”, editado em 2009, viu dois dos seus temas serem usados numa telenovela da TVI. Isso também foi um marco importante para o seu trabalho e para divulgar aquilo que faz?

Foi e teve outra particularidade: obrigou-me a ver, pelo menos, os dez primeiros episódios da novela - coisa que eu nunca faço, não tenho tempo para isso - só para ouvir a música. E gostava de ouvir. Isso deu destaque ao projecto.

Tem havido uma preocupação com a qualidade. Como já referiu, o novo álbum tem a colaboração de músicos profissionais...

Tenho duas participações na música “Promessas”, com o Guilherme Sá, da banda brasileira Rosa de Saron. Eles têm mais de quatro milhões de seguidores no Facebook, é uma banda carismática no Brasil, E tenho a participação da Lara Afonso, que trabalha na CMTV. Convidei-a e ela aceitou este desafio num dos temas que é o “Sem medos”.

E no plano da produção teve essa colaboração de músicos dos Blind Zero...

Sim. A música aproxima as pessoas e nós tornámo-nos muito amigos, encontramo-nos sempre que possível. Tive esse prazer de conhecer o Nuno Espinheira [baixo e voz], de conhecer o irmão dele, Vasco, e também o Pedro Guedes [baterista]. A participação deles foi óptima, porque estão há muitos anos na música, sabem muito de música.

Foi uma ajuda profissional importante…

Sim. Eu procurei neste álbum um registo mais "british". Há uma série de referências que eu fui buscar, desde U2 a Coldplay, até à própria Pink. Tentámos misturar tudo aquilo que eu gosto e aquilo que eu ouço, e acho que o resultado foi muito bem conseguido. O álbum teve, depois, na parte das misturas de todas as faixas, o Mário Pereira, que é também um dos grandes músicos portugueses, e o projecto final foi masterizado em Nova Iorque, nos EUA, pelo Andy Vandette, um engenheiro de som que já trabalhou em Portugal com outros artistas como João Pedro Pais, Paulo Gonzo, Xutos, Deolinda e Legendary Tiger Man.

O padre Victor tem uma banda com a qual toca?

A banda chama-se "Padre Victor" e inclui o Zé Pedro, que é baixista, o André Diamantino, baterista, e o Vitor Ló, guitarrista. Além de serem músicos profissionais - e grandes músicos - há algo que nos une muito mais do que a música, que é a amizade. Somos todos amigos uns dos outros e há muita cumplicidade entre nós.

A banda ensaia com frequência?

Sim, ensaiamos. Estamos a preparar já o novo espectáculo de 2017 da tour "‘Faces".

Portanto, o disco já está aí, mas concertos só a partir de Janeiro?

Sim. O disco já está disponível nas plataformas digitais, através do Spotify e do iTunes. Já podem fazer o download. E, através da minha página oficial do Facebook encontram todas as novidades, sempre. A partir de Janeiro, sairá ao segundo vídeoclip do álbum, juntamente com o disco em formato físico. Agora, saiu nas plataformas digitais, porque esta é a era digital e tudo o que podermos usar hoje a este nível, usamos.

Para quem não conhece, porque é que é importante ouvir a sua música?

O desafio que eu faço às pessoas é mesmo esse: procurem e ouçam, porque não é música chata e não há que estranhar que um padre cante. Em Portugal, queremos ser vanguardistas, mas, depois, somos retrógrados em muitas coisas da Igreja. Acham que o padre não deve andar a tocar, não deve andar nos palcos, mas queremos que os padres casem, ou pudessem casar, e queremos muito e muita coisa... Procurem sobre este projecto. Garanto que não será nada chato.

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  • M.Gabriela F.M.MotaC
    17 out, 2016 Freixo de Numao 5155-201 00:39
    Foi nosso Pároco antes de ser músico e gostamos muito de ouvir sua voz a cantar e na Missa 👏🎶👌