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“Eu estava como Zaqueu, a ver o que se passava, e o Papa preferiu-me”

30 set, 2016 - 19:40 • Filipe d'Avillez

A jornalista Aura Miguel acompanha os papas há trinta anos e realça a forma como cada um deles manifestou à Igreja a face da misericórdia.
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Foi há 30 anos que a jornalista Aura Miguel, da Renascença, viajou para cobrir ao vivo um evento com o Papa João Paulo II. Três décadas e três Papas mais tarde, diz que continua a surpreender-se com os gestos de misericórdia que tem a oportunidade de testemunhar. Realça uma que se passou consigo, quando soube que o Papa Francisco a tinha escolhido para dar uma entrevista exclusiva.

A jornalista compara-se com Zaqueu, o cobrador de impostos que subiu a uma árvore para ver passar Jesus, que acabou por fazer-se convidado para ficar essa noite em sua casa, conduzindo a um processo de conversão. “A minha relação pessoal profunda de tantos anos era com João Paulo II e com Bento XVI. Este, o Papa Francisco, praticamente não conhecia, por isso estava em cima da árvore a ver o que é que estava a dar. E ele vai e prefere-me, se calhar teve a intuição de que eu precisava desta misericórdia.”

Ao longo das décadas a acompanhar as viagens papais, têm sido muitas as oportunidades de encontrar a misericórdia nas relações pessoais. “Aquilo de que me dei conta desde o início foi que as pessoas verdadeiramente vivas não têm a ver com a idade. O coração vivo é o coração que está certo das coisas que valem a pena, do que é essencial. Isso encontra-se no Papa, claro, mas em muitas outras pessoas e muitas delas muito discretas, inclusivamente algumas com alguma idade, já, mas que mantêm esta centelha do que é o essencial. Certas de grandes coisas, mas vividas na vida quotidiana."

“Ao mesmo tempo, pelas piores razões encontramos jovens que são uns velhos, porque não esperam nada, acham que já sabem tudo e não estão focados naquilo que verdadeiramente vale a pena, que é confiar naquele que nos ama mais que ninguém, que é Deus. Isso é, confiar, na misericórdia.”

Um fio condutor

Neste Jubileu da Misericórdia o Vaticano publicou oito guiões com textos de apoio e recomendações práticas, divididos por temas. O sétimo guião, publicado em Portugal pela Paulus, é sobre “Os Papas e a Misericórdia” e abrange sobretudo João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

“É interessante como nesta era da globalização, com toda a evolução de tecnologia, os Papas e o que eles dizem tornaram-se mais acessíveis. Mesmo não seguindo os passos deles como eu faço, é possível detectar – e o livro começa por sublinhar – que há uma espécie de direcção espiritual colectiva que brota dos ensinamentos dos Papas anteriores, dos mais recentes”, comenta Aura Miguel.

Este fio condutor inclui, no entender da jornalista, a vontade de levar a misericórdia aos outros por parte de quem a experimentou o amor de Deus. “Talvez o Papa Bento XVI o tenha feito de uma forma mais organizada, como é o seu estilo, mas também percebia-se que a experiência dele de misericórdia era de alguém que era muito amado. Aliás todos eles. Acho que pode ser isso o fio condutor.”

“Por isso este livro, ao sublinhar o que é o essencial da misericórdia ajuda-nos. Dei comigo a fazer este fio condutor. São homens completamente diferentes uns dos outros, que têm o essencial do Evangelho para comunicar, e o essencial do Evangelho para comunicar é que Deus é obstinado a amar-nos e não se detém com as nossas misérias, com os nossos pecados. À sua maneira, cada um dos papas tentou demonstrá-lo.”


O Papa da misericórdia

O pontificado de Francisco tem sido marcado por uma grande insistência na questão da misericórdia, nomeadamente com a publicação de um livro-entrevista sobre o assunto e também com a proclamação do jubileu. Mas Aura Miguel recorda que já João Paulo II era conhecido como “o Papa da Misericórdia”, e que foi durante o seu pontificado que se instituiu o domingo da misericórdia, muito ligado às aparições a Santa Faustina. “Foi o grande apóstolo da misericórdia, a sua segunda encíclica foi dedicada à misericórdia, também se sentava a confessar, foi ele que inaugurou este estilo de proximidade.”

Contudo, nem num caso nem no outro, nem até no caso de Bento XVI, que abordou o tema de uma forma mais intelectual, nos seus escritos, é possível avaliar os efeitos práticos no imediato, diz a jornalista. “Esta questão de desejar ver os resultados é um grande mistério, porque no Evangelho os apelos são apenas para lançar a semente, depois o tempo da colheita só Nosso Senhor é que sabe.”

“Certamente alguns efeitos tem, e muitos reconhecem que com este Ano da Misericórdia muitos passaram a encarar a Igreja de uma maneira diferente, como o lugar que nos abraça sem julgar, porque isso foi o que Jesus mostrou continuamente. Há mais alegria no Céu por um pecador que se converte do que por não sei quantos justos... Deve haver imensas festas no céu, permanentemente, quando a pessoa reconhece que não é definida pelos seus pecados”, afirma.

Aura Miguel não tem dúvidas de que cada um se pode sentir como Zaqueu, preferido não obstante os seus pecados e as suas limitações, desde que esteja aberto a sentir o amor de Deus. Se o Papa Francisco adoptou um estilo diferente dos seus antecessores, talvez seja porque é disso que o mundo precisa.

“Os alvos da misericórdia de Deus são os que mais falam dela, porque se entusiasmam com esta maravilha do que é ser o preferido. E tal como Zaqueu foi preferido, assim pode acontecer connosco, porque Deus está verdadeiramente obcecado de amor por cada um, só espera é que cada um dê um passo e adira a esta proposta de Deus.”

“No tempo de João Paulo II isto foi dito de uma maneira, mas talvez nos tempos que correm, com tanta gente a não perceber bem qual é a mensagem da Igreja e a ficarem um bocado presos à dimensão moralista, mais densa, as homilias impenetráveis, de repente haver alguém que testemunha desta maneira essa obsessão boa de Deus para connosco, que nunca desiste, que mantém sempre esperança, que ama cada um da maneira única e que não desiste, é certamente uma modalidade inspirada do Papa Francisco para os nossos tempos.”


Irmãos mais velhos do filho pródigo

A imagem do encontro do filho pródigo com o pai misericordioso, de autoria de Rembrandt, é uma das mais usadas para ilustrar a misericórdia. Aura Miguel não hesita em apontar esse mesmo quadro, que teve o privilégio de ver ao vivo no museu Hermitage, em São Petersburgo, quando lhe pedimos para nomear um objecto cultural que remeta para este assunto.

“É sem dúvida a obra que mais me impressiona. Estive mais de uma hora parada lá. Depois voltei segunda vez, porque achei que não tinha dedicado tempo suficiente a rezar diante da obra e comovi-me imenso, porque precisava de tempo para ver todos os detalhes.”

“O irromper daquele abraço do pai sobre o filho, que tinha reconhecido que tinha errado… Dei por mim a olhar para lá durante muito tempo e pensei: isto é assim quando me vou confessar. É a experiência de quem reconhece que errou. Ajudou-me a perceber a superficialidade com que olhamos para nós próprios e tantas vezes nos aproximamos da reconciliação dizendo meia-dúzia de coisas e pronto. E ali não é nada assim. Aquela experiência é mesmo de uma ternura que nós também perdemos o hábito de expressar. Temos vergonha de manifestar ternura, de dizer que gostamos uns dos outros. Não é nada fácil de se dizer, e aquele quadro diz daquela maneira e é muito impressionante por causa da ternura. É tão atractivo que a pessoa quer aquilo. Só pode ser bom”, sublinha.

A experiência é tanto mais forte, explica Aura Miguel, “porque eu mais depressa pendia para o filho que ficou em casa e que ia queixar-me junto do pai que estava a tratar bem o outro, que tinha sido o rebelde, que se tinha portado mal e só tinha feito asneiras”.

E essa é também outra lição do pontificado de Francisco, acredita. “Francisco demonstra a misericórdia até de uma maneira mais carnal. Quando abraça... Tem mesmo uma predilecção pelos afastados.”

“Creio que isso implica também uma certa conversão, quando olhamos com alguma resistência para a maneira como Francisco se aproxima dos pecadores, ou mostra uma espécie de preferência, quando às vezes nos queixamos que não nos liga tanto e prefere ir para outros que são mais pecadores, ou que estão mais afastados mas se calhar são esses que mais precisam”, conclui.

O jubileu da misericórdia teve início a 8 de Dezembro de 2015 e conclui-se em Novembro deste ano.

Comentários
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  • Pedro
    01 out, 2016 Lisboa 23:48
    Eu...Eu...Eu... "Aura Miguel não tem dúvidas de que cada um se pode sentir como Zaqueu" Eu não tenho dúvidas que Aura Miguel não faz a mínima ideia do que está a falar. Posso sentir-me como Tomé, como João, como Tiago, como tantos outros...até como Paulo/Saulo! Como Zaqueu...é para quem não ouve a RR!
  • João Galhardo
    01 out, 2016 Lisboa 09:54
    Dona Aura Miguel, se o papa a preferiu, é porque a senhora é uma santa. A senhora está irradiada de luz. Não sei mesmo o que dizer disto: Beato ou medieval?