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Eutanásia fora de controlo na Bélgica, alerta especialista

07 jul, 2016 - 22:54 • Ana Carrilho

Directora do Instituto Europeu de Bioética espera que Portugal consiga travar a legalização da eutanásia.
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“Não tenho muito orgulho no meu país nesta matéria, mas estou aqui para vos contar a experiência de 14 anos da lei que permite a eutanásia na Bélgica”. Foi assim que Carine Brochier, directora do Instituto Europeu de Bioética, se apresentou no primeiro debate promovido pela recém-criada plataforma Pensar & Debater.

A Bélgica foi o segundo país europeu a legalizar a eutanásia, em 2002, um ano depois da Holanda. Em 2009 foi o Luxemburgo.

A ideia inicial das autoridades belgas era permitir um uso restrito e acabar com as eutanásias clandestinas. Em m entrevista à Renascença, Carine Brochier diz que a realidade é diferente.

“Catorze anos depois vemos que não só continuam a existir eutanásias clandestinas, como também não se controla o que se passa, por exemplo, nas casas de repouso, nos hospitais e nas casas dos pacientes que pedem a eutanásia. É tão difícil controlar os termos da lei, por exemplo o sofrimento insuportável. Como querem controlar isso, é impossível”, afirma a directora do Instituto Europeu de Bioética.

À audiência presente no debate realizado na última semana deixou um apelo: transmitam aos políticos portugueses que esta não é uma situação sustentável.

Questionada sobre o que fazer, Carine Brochier frisou que é preciso estar informado e preparado para rebater a argumentação das pessoas que defendem a eutanásia.

“Em nome da minha autonomia e porque estou a sofrer, peço e tenho o direito de pedir ao meu médico que me mate? Não é assim. A pessoa é um ser de relações, não estamos sozinhos numa ilha. Temos uma família e todo um mundo à nossa volta que amamos e nos ama.”

Para Caroline Roux, da organização francesa SOS - Fin de Vie, “a morte tornou-se um assunto tabu e nem as famílias nem as sociedades actuais sabem como a acompanhar”.

Numa altura em que a questão da morte assistida já entrou no debate nacional, nomeadamente com a entrega no Parlamento de uma petição que defende a eutanásia, outro participante francês na conferência da plataforma Pensar & Debater, Tugdual Derville, da Alliance VITA, deixou o alerta: quando as pessoas resistem à palavra eutanásia, os seus defensores mudam para “ajuda a morrer”.

“O ano passado, na Bélgica foram declarados 2.021 casos. Começámos com 232 casos em 2003 e progressivamente, chegámos a mais de duas mil pessoas que pediram a eutanásia. Mas ainda muitos outros”, sublinha Carine Brochier que, sem querer arriscar números, aponta para mais um milhar de casos que os médicos não declararam.

Mas se na Bélgica existe uma lei que permite a eutanásia porque é que não declaram? Porque receiam estar fora da lei ou porque não foi o doente que pediu mas sim a família, diz a directora do Instituto Europeu de Bioética.

Há uma comissão de controlo, mas este é feito à posteriori. “E como a pessoa já está morta, não pode reclamar”. Por outro lado, a família não vai fazer um escândalo. “Se é uma avó de 85 anos e que ainda por cima tem problemas de demência, por exemplo, a família vai dizer que o melhor que lhe poderia acontecer era morrer. Mas acredito que o melhor que lhe poderia acontecer era ser acompanhada, por exemplo, num sistema de cuidados paliativos até à morte. Porque há coisas tão belas que se podem passar nos últimos momentos de vida”, defende Carine Brochier.

No dia 26 de Abril chegou ao Parlamento português uma petição com oito mil assinaturas em que defende a despenalização da morte assistida. A questão da eutanásia vai entrar no debate político mais cedo ou mais tarde, mas já entrou na discussão social.

Há muito pouca informação sobre os cuidados de fim de vida e o acesso aos cuidados paliativos. Para ajudar a formar opinião, a recentemente criada plataforma Pensar & Debater escolheu o tema da eutanásia para inaugurar a sua actividade. E convidou especialistas franceses e belgas para o debate “Eutanásia … uma questão de vida ou de morte”.


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  • Lan
    04 out, 2016 Lisboa 16:27
    "há coisas tão belas que se podem passar nos últimos momentos de vida" oh sim, como é lindo debitar hipocrisias. Quando esta senhora tiver um ser amado em casa reduzido à condição de um animal, sem ser capaz de se limpar, de se mexer, de se alimentar, de falar, vai achar muito bonito sim.
  • mara
    09 jul, 2016 Portugal 17:52
    Há anos a nora duma senhora, foi a minha casa pedir-me para ir dar uma injeção na sogra, chegamos a casa da doente já tinha falecido, dei imensas graças a Deus pelo facto de não a levar após a injeção, para mim seria um sofrimento atroz se tivesse morrido enquanto a injetava ou após ser injetada. Não compreendo a eutanásia, acho horrenda, e embora não concorde com o suicídio, se estivesse cansada de viver preferia ser eu a fazê-lo a levar alguém a cometer esse crime...
  • Abel
    08 jul, 2016 Mirandela 11:40
    A eutanásia não é tema para ser debatido. Os males têm de ser cortados pela raiz, simplesmente arrancados para não causar mais destruição.
  • Joao V
    08 jul, 2016 Lisboa 09:32
    Cá não precisamos de nenhuma lei para eutanasiar.. Basta deixarem os velhotes nos corredores dos hospitais que acabam por falecer. Isto se não forem antes abandonados pelos filhos...
  • Joao
    08 jul, 2016 Porto 07:12
    Isto não é uma notícia. É um artigo de divulgação de interesses. Que vergonha para a rádio renascença.
  • Jorge
    08 jul, 2016 Porto 05:38
    Luis, há algum problema em ser Cristão e contra a Eutanásia?
  • Jose Antonio
    08 jul, 2016 Barreiro 05:05
    Este artigo fala em como se em Portugal nos hospitais não praticassem já a morte dos doentes não viáveis por iniciativa própria.
  • Luís
    08 jul, 2016 Lisboa 00:34
    Claro que a Rádio Renascença, entidade cujo a totalidade do capital é detido pela igreja portuguesa, é contra a eutanásio. Nada imparcial.
  • Fernando Saraiva
    08 jul, 2016 Porto 00:10
    É deste tipo de investigação e depoimentos que precisamos de debater. Não é só a eutanásia, é também verificar leis àcerca do aborto, drogas, casamentos entre 2 homens e adoção de crianças por homens que se intitulam "casal". Todas estas leis penso que necessitam de depoimentos e estudos bastante aprimorados com um nivel de detalhe que vá mais além do que este depoimento nos deu. Se falarmos aqui da homo-sexualidade ou de 2 homens que fazem sexo como é possivel isso ser considerado natural? Ou como é que se explica às crianças numa aula de biologia que um órgão do sistema digestivo não é um orgão sexual? Um vicio tal como o da homosexualidade ou como o alcool ou como as drogas não deve ser motivo de discriminação, mas de solução com uma re-mentalização das pessoas. Educar as crianças que drogas fazem mal, os perigos do alcool... e que sexo entre 2 homens não é natural, mas antinatural. Porque ninguém nasce com genes perfeitos, sejam pessoas propensas ao alcool, às drogas, aos roubos, à pedofilia e à homosexualidade. As pessoas é que se deixam influenciar pelos maus caminhos e pela perversidade do pensamento.