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Magda Gomes Dias: Ninguém tem filhos para gritar com eles

01 jun, 2016 - 15:51 • Marta Grosso

"Berra-me Baixo", de Magda Gomes Dias, é um livro para ajudar os adultos a ter melhores relacionamentos com os filhos.
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O despertador toca e mais um dia começa. Os miúdos acordam e seguem-se muitos “não quero” e inúmeros “despacha-te!”. Ainda não são 9 da manhã “e já gritei, já humilhei, já ameacei”. Soa-lhe familiar?

Qualquer pai ou mãe sabe que há momentos em que é difícil manter a calma e o tom de voz em níveis abaixo de soprano. Mas o sentimento de culpa que se segue a gritar com os filhos é muito grande e os resultados… fraquinhos.

Para ajudar os pais a melhorar o seu relacionamento com os mais novos, Magda Gomes Dias fez o livro “Berra-me Baixo”. “Ninguém tem filhos para andar a gritar com eles”, diz à Renascença a autora, que, em 21 dias, promete abrir caminho à transformação.

“Comprar este livro é uma decisão muito séria. O livro não vai anular os conflitos, porque nenhuma relação é isenta de conflitos, mas vai tornar mais claro para cada um de nós o que desejamos para a nossa família”, explica a “coach” parental, que não acredita em mudanças rápidas e radicais, mas em “melhorias contínuas”.

“Todos sabemos que os desafios dos três anos vão ser diferentes dos dos seis, dos 12 e dos 18. Mas este livro não é só para quem está a começar agora [a aventura da parentalidade], é também para quem tem filhos adolescentes, porque aposta na relação”, sublinha Magda Gomes Dias.

Dito isto, e sabendo que não existem pais perfeitos, a primeira coisa que deve fazer é questionar-se: estou satisfeita/o com a relação que tenho com o meu filho?

Gritar separa pais e filhos

Há uma diferença muito grande entre ralhar e gritar. “O ralhar é a certeza de que vamos ajudar os nossos filhos a endireitarem-se. É tirar do caminho errado e centrar. Essa é a missão de todos os pais”, diz Magda Gomes Dias.

“Outra coisa é gritar. O gritar toca na humilhação, na maior parte das vezes. Separa pais e filhos”. Por isso, o primeiro desafio de “Berra-me Baixo” é descobrir por que razão gritam os adultos. Descoberta a causa – que poucas vezes está relacionada com o comportamento do filho – há que encontrar estratégias para evitar tal reacção.

Trabalhar o vínculo. Escutar e orientar

Uma das ideias centrais no livro é a questão do vínculo, que está directamente ligada a algo mais complicado do que parece: saber escutar os filhos. À noite, quando uma criança faz de tudo e mais alguma coisa para não se ir deitar, o que é que ela nos está a querer dizer? “Muitas vezes, é que quer ficar mais um bocadinho connosco.”

Magda Gomes Dias sugere que se mostre compreensão, enquanto se reforça a regra da casa. “Sei que gostas de ficar aqui mais um bocadinho com a mãe e o pai, e que até querias ver mais um bocadinho de televisão, mas à semana a nossa hora de deitar é esta. Vá, vamos lá rápido”.

Pode também negociar: “Queres ficar mais cinco minutos e depois não temos a leitura da história?” Ou ainda: “Queres que te leve ao colo? Vamos de mãos dadas ou como é?”. E assim a criança vai sendo orientada para o quarto.

Respeito mútuo sem etiquetas

O meu filho é tímido. Ele tem mau feitio, é teimoso, é egoísta, é frágil… Há rótulos para todos os gostos. O problema é que as crianças acreditam em tudo quanto os pais dizem e interiorizam essas características.

“É uma pena passarmos ao lado de tantas coisas que podemos ser, só porque crescemos a acreditar que somos assim ou assado”, lamenta Magda Gomes Dias. No fundo, “as etiquetas facilitam-nos a vida” no curto prazo. Mas “quando aceitamos a natureza da criança sem etiquetar”, conseguimos resultados melhores no futuro.

A parentalidade positiva tem por base o respeito mútuo sem cair na permissividade, mas distanciando-se da educação mais autoritária. Sendo certo que “uma criança com seis ou sete anos ainda não adquiriu todas as competências sociais – só por volta dos 12 anos”.

“Não sabem, portanto, o que é adequado e desadequado. A noção de respeito é ensinada, não nasce com eles”.

Ser pai é lidar com a própria frustração

“Berra-me Baixo” não é um livro sobre crianças. É sobre adultos, que têm expectativas e muitas frustrações.

Lembra-se daquele dia em que, antes das 9h00, já tinha gritado e ameaçado os seus filhos? Nesse dia, fez um plano: “logo à tarde, vou fazer melhor. Vou pedir ao meu marido para ir ao ‘take away’ buscar o jantar e vou-me focar na brincadeira com os miúdos e dar-lhes tempo de qualidade”.

Só que, quando chega a casa, a criança faz uma enorme birra. Exactamente o contrário daquilo que idealizou. Parece de propósito, mas a verdade é que o seu plano contava com a cooperação das crianças. E elas nem sabiam.

“Estamos a colocar as nossas expectativas à frente e a fazer com que a criança se sinta desadequada, até culpada, porque não cooperou”, adverte a autora do blogue “Mum’s the Boss”.

“A criança pode não perceber porque é que a mãe agora quer ir brincar quando nunca faz aquilo”. Ainda por cima num dia em que ela própria já tinha programado ver bonecos na televisão ou jogar ou outra coisa qualquer. São planos que não coincidem.

Pais felizes, filhos felizes

Os entendidos dizem que precisamos de 21 dias para mudar comportamentos. Magda Dias Gomes diz: “para melhorar comportamentos”.

“Os nossos. Porque o livro não é sobre as crianças, é sobre nós, sobre uma transformação nossa. Temos esta possibilidade e esta capacidade”, defende Magda Dias Gomes, que acaba de lançar uma pós-graduação em parentalidade positiva.

Por isso, “Berra-me Baixo” trabalha, acima de tudo, a auto-estima dos pais, que “se vão sentir mais capazes de fazer uma série de coisas, mais seguros e mais felizes”.

“Eu preciso de existir enquanto pessoa, mas também tenho de me respeitar, tenho de saber qual é a minha missão parental: para que é que eu existo enquanto pai?”.

O respeito pela natureza dos filhos e por quem nós somos ajuda neste processo e até na humanização da criança. “Dizem que todos os miúdos nascem com um ‘chip’ para amar os pais e isso é mesmo verdade, independentemente da idade.”
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