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Reservas, o lado "obscuro" dos museus

18 mai, 2016 - 06:30 • Raul Santos com Marília Freitas e Redacção

São os espaços que (quase) nunca se vêem quando se visita um museu. Cada reserva é um caso único: é que os objectos habituam-se às condições em que estão guardados.
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As maravilhas do "sótão" do Museu Nacional de Arte Antiga
As maravilhas do "sótão" do Museu Nacional de Arte Antiga

“As reservas museológicas têm muito que se lhes diga, têm muitas exigências”. A museóloga Suzana Faro explica que é necessário “pensar as reservas como um a parte efectiva de um museu”, porque a reserva não é um mero local de esconderijo, e revela que as reservas têm que ser vistas caso a caso: um objecto pode dar-se melhor num ambiente húmido do que num seco (já explicaremos).

No Dia Internacional dos Museus, a Renascença olha para estes locais, habitualmente envoltos em mistério.

Suzana Faro aponta algumas razões que contribuem para essa ideia comum: “É um espaço reservado, não está acessível a toda a gente. Normalmente, são zonas obscurecidas, porque a luz tem um efeito prejudicial nos objectos e, não havendo necessidade, não há luz. Depois, tem, normalmente, os objectos empacotados, em armários ou prateleiras, com uma etiqueta de identificação, codificada. Trata-se de números e letras de um mero código técnico, mas que remete para mais secretismo.”

“A reserva é um lado quase obscuro, oculto dos museus, embora vise apenas necessidades de preservação e segurança”, reforça a museóloga, que é também directora do Museu dos Transportes e Comunicações, instalado na Alfândega do Porto.

"Hoje, já se contraria esse lado mais misterioso, porque há reservas visitáveis, embora não sei se o público tira muito proveito disso, porque dependerá do tipo de informação a que se tenha acesso, e também há reservas que estão abertas a trabalhos de investigação.”

Acresce que, dependendo dos museus e dos espólios, associadas às reservas estão, habitualmente, a conservação e restauro. Cada vez mais, os museus recorrem a empresas exteriores de restauro, mas “os que têm gabinetes próprios de conservação e restauro, geralmente, têm-nos próximos das reservas”.

Um espaço que deve ser pensado

Em muitos museus, o espaço não alberga toda a colecção e as peças necessitam também de descanso. Por vezes, também de recuperação.

“Os museus têm reservas porque nem todas as peças estão expostas, mas todas as peças têm potencial expositivo e há a necessidade de guardar uma parte da sua colecção, que pode ter presença rotativa nas exposições ou pode ter utilização regular em investigação”, explica.

Suzana Faro precisa que “guardar”, não é “pôr num armário ou um armazém”, pelo que o ideal é “pensar as reservas como um a parte efectiva do museu”. A verdade é que “aquilo que acontece muitas vezes é que a reserva acaba por ir para o sítio que sobra e vêmo-las, muitas vezes, no sótão, na cave ou no vão da escada, o que não é o desejável, até porque que são espaços muito expostos” à humidade ou outro tipo de “agressões”.

Na construção de um museu de raiz, importa pensar na área de reserva logo na planta. O ideal é que tenham “espaços de ligação com as exposições e também com o exterior, para permitir a entrada e saída de peças”.

“As reservas têm exigências muito particulares. São espaços que têm de ter um ambiente muito controlado - por exemplo, de climatização. Têm de ser monitorizadas e controladas. Não devem ter janelas, por causa da entrada de elementos poluentes ou de humidade, e precisam de equipamentos que permitam zelar pela colecção e garantir a sua segurança. Têm de ser pensados logo na planta e no orçamento”, enfatiza a museóloga.

Cada caso é um caso

E quais são as condições ideais para uma reserva? Não há resposta universal, porque “cada museu tem as suas especificidades e, logo, cada colecção tem necessidades específicas”.

Suzana Faro exemplifica: “Material como papel e tecido tem especificidades diferentes de metais, por exemplo. Cada conjunto de materiais tem necessidades específicas e há outro elemento importante, que é a forma como os objectos foram guardados ao longo do tempo.”

“Por exemplo, a madeira de um barco retirado do fundo do mar apodrece rapidamente no exterior. Um objecto que esteve durante muito tempo sujeito a grandes níveis de humidade relativa, está, de alguma forma, habituado a esse ambiente. Se o colocarmos nas condições supostamente ideais, estaremos a cometer um erro. Tal como as pessoas, os objectos também criam um grau de habituação. Se é para fazer correcções, têm de ser muito graduais”, explica.

A biblioteca instalada na Alfândega do Porto é um bom exemplo, porque o edifício fica “junto ao rio, numa zona húmida, num edifício com 150 anos, e os livros têm um século ou mais, o que quer dizer que estão muito habituados à humidade e esse é já o seu ambiente natural”.

Suzana Faro não tem dúvidas. “Se alterássemos isso aqui, seria danoso. Há aqui um equilíbrio.”

Reservas, o lado "obscuro" dos museus
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