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​O europeu Guterres em busca do topo da ONU

15 abr, 2016 - 23:10

Da gestão da crise dos migrantes, que afecta sobretudo a Europa, o antigo primeiro-ministro português tenta chegar ao cargo de secretário-geral da ONU. Tema para a análise de Pedro Santana Lopes e António Vitorino na Renascença.
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Fora da Caixa (15/04/2016)
Fora da Caixa (15/04/2016)

António Guterres tem uma missão difícil. A eleição para o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas passa por angariar os votos necessários na Assembleia-Geral, o que implica sempre passar pelo crivo dos países membros do Conselho de Segurança. Entretanto, há apresentações e audições de todos os candidatos, como ocorreu esta semana em Nova Iorque.

António Vitorino, ex-ministro de Guterres, considera que a prestação do antigo primeiro-ministro português foi notável.

“ Pode até nem vir a ser escolhido, mas estabeleceu uma fasquia. Quem vier a ser escolhido vai ter sempre que ser comparado com essa fasquia”, diz Vitorino, para quem Guterres pode até ser preterido por outras razões, mas a substância da sua intervenção vai servir de referência no processo de escolha do sucessor de Ban-Ki-Moon.

O antigo ministro da Defesa sublinha que Guterres "não fez uma linguagem de pau. Não usou a chamada linguagem diplomática, que é falar e não dizer rigorosamente nada. Ele não fugiu às questões”. No entanto a audição passou ao lado das referências à reforma do Conselho de Segurança. “ É das questões mais divisíveis. Se tivéssemos que começar por reformar a ONU não começaria pelo Conselho de Segurança. Por que é exactamente aí onde todas as armas são imediatamente despoletadas”, explica Vitorino.

Também Pedro Santana Lopes elogia a audição de Guterres. “ Hoje em dia como ele não disputa o lugar a ninguém cá dentro, toda a gente diz bem dele lá fora. Mas também temos que dizer cá dentro porque ninguém deixa de ficar orgulhoso quando ouve a qualidade com que ele se apresenta ali perante todos aqueles examinadores. É extraordinário como o seu discurso flui sobre os mais variados temas”, diz o também antigo chefe de governo português.

Santana diz que Guterres "é um candidato de grande nível. Quem nos dera a nós ter um SG da ONU com ele”. Caso seja eleito, alvitra Santana, o antigo alto-comissário da ONU para os Refugiados será um homem com uma profunda ligação à realidade do mundo. “ Não acredito que ele se torne um homem fechado num gabinete”

Não apenas eurocêntrico

Santana Lopes pensa que Guterres tem o perfil ideal para o cargo neste momento. " No momento que o mundo vive, com o drama dos refugiados e dos migrantes em todo o mundo, seria muito inteligente escolher um homem com o percurso de António Guterres. Seria adequado às necessidades do tempo que vivemos”, atesta o antigo primeiro-ministro.

A posição dos países membros permanentes do Conselho de Segurança será decisiva, admite Vitorino, ainda que o voto caiba aos

países da Assembleia Geral da ONU e não apenas os cinco do Conselho de Segurança.

" Esses são os que escolhem, mas o voto é de todos. Essa escolha tem vantagens e desvantagens para Guterres. Ele não tem o veto de nenhum dos 5 membros permanentes, nenhum disse claramente que não. Mas ele vai ter que ganhar o voto, isso é obviamente mais difícil”, avalia Vitorino na Renascença.

O papel importante da diplomacia portuguesa em favor de Guterres é sublinhado por António Vitorino.

Portugal, diz Vitorino, "tem a vantagem de um país que não tem anticorpos. Tem dado provas de compreender a agenda que vai para além do que são os temas prioritários dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança ou meramente eurocêntricos. Essa lógica inclusiva é muito importante”.

Impeachment de Dilma. “Isto vai vai acabar mal, qualquer que seja o resultado”.

No programa “Fora da Caixa”, Santana Lopes e António Vitorino partilharam ainda o cepticismo em relação ao desfecho da crise política brasileira, marcada agora pelo pedido de destituição da Presidente Dilma Rousseff.

Santana Lopes fala numa “onda” anti-Dilma, ressalvando que a Presidente do Brasil "não está rigorosamente acusada de nada”. O antigo primeiro-ministro português esclarece que, não alinhando na tese de um golpe de estado, esta situação configura uma "destituição por razões políticas”.

O ex-lider do PSD assinala que o que se está a passar no Brasil atinge a classe política toda. E António Vitorino recorda que quase não há políticos brasileiros que não sejam associados ao escândalo da Operação Lava-Jato.

“ A dificuldade é depois saber se aquela lista tem alguma credibilidade. Porque a partir de certa altura, vão todos os nomes para a fogueira. Os justos e os pecadores são tratados da mesma maneira. Do ponto de vista da estabilidade do regime, isso torna muito problemático o que se está a passar neste momento do Brasil. Não estou a dizer que seja um golpe de estado. Acho que há aqui uma vertigem autofágica do sistema politico brasileiro. E os protagonistas ainda não perceberam que estão todos a atirar também nos pés”, afirma António Vitorino na Renascença.

O antigo comissário europeu compara este escândalo com o que abalou Itália nos anos 90, com profundo impacto na vida política italiana.

“ Eu vivi a operação Mani Polite (Mãos Limpas) em Itália nos anos 90 e tenho a terrível sensação de deja-vu. Eu já vi isto. Na Itália havia um sistema de loteamento na distribuição das luvas nos concursos públicos, em função da representatividade de cada um dos partidos a nível nacional e regional. Foi isso que esteve na base da grande operação que começou na Procuradoria de Milão que destruiu depois o Partido Democrata Cristão Italiano, o Partido Socialista Italiano, o próprio Partido Comunista não saiu incólume destas suspeitas. Estamos a viver exactamente uma situação desse género. O escândalo Petrobrás é um escândalo de loteamento de luvas em que todos os partidos estavam associados à quota. É difícil encontrar um que não tenha culpas no cartório”, argumenta o comentador da Renascença.

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