O site da Renascença usa cookies. Ao prosseguir, concorda com o seu uso. Leia mais aqui.
A+ / A-

Manuel Fúria: “O Rei David tinha um lado Leonard Cohen”

29 mar, 2016 - 19:58 • Filipe d'Avillez

O músico olha para os salmos bíblicos à luz do Jubileu da Misericórdia, fala da sua tentativa de ajudar quem aparentemente não quer se ajudado e de como um pastor protestante o ajuda a ser um católico mais fervoroso.
A+ / A-

Veja também:


Há textos que são escritos para serem ouvidos e não para serem lidos. Ao longo da Bíblia existem várias passagens que, no hebraico original, têm "nuances" que se compreendem melhor quando são escutados.

Os salmos são um exemplo. Foram mesmo escritos para cantar, como explica Manuel Fúria, músico e católico, que dá o exemplo das suas próprias letras.

“Às vezes as pessoas referem-se, até de forma pretensiosa, às palavras de uma canção como o ‘poema da canção’. Na grande maioria dos casos, se tirarmos o Leonard Cohen, ou algumas coisas escritas por Pedro Ayres Magalhães ou António Variações, as letras são coisas para serem cantadas, não têm um valor autónomo que as tornem um poema. As coisas que eu escrevo para canções não tem interesse nenhum para serem lidas como se fossem poemas”.

Outros detalhes perdem-se inevitavelmente por causa da tradução, diz. É o caso do salmo 119 em que “cada verso começa com uma letra, por ordem, do alfabeto hebraico".

É um recurso literário quase infantil, admite, mas que revela uma enorme intimidade do autor com Deus. “Os salmos foram escritos pelo Rei David. Há um lado pessoal. É a relação do Rei David com Deus e percebe-se que há uma intensidade que é própria de uma relação pessoal”.

Neste caso, admite Manuel Fúria, são poemas que, apesar de serem canções, resistem autonomamente. Afinal, diz, “o Rei David tem um lado Leonardo Cohen. Acho que é possível ter uma relação com o texto de um modo que não precisa da música.”

Leonard Cohen também um lado Rei David

Os salmos e a misericórdia são o tema do terceiro guião oficial da Santa Sé para viver melhor o Jubileu da Misericórdia decretado pelo Papa Francisco (começou em Dezembro de 2015 e alonga-se até Novembro de 2016).

O pequeno livro, que em Portugal é editado pela Paulus com o título "Os Salmos da Misericórdia", contém dez salmos que falam de forma particular deste tema. Os salmos são acompanhados de textos explicativos para que o leitor possa retirar deles o máximo proveito.

Na visão de Manuel Fúria, mais do que uma ferramenta litúrgica, o livro é um auxílio para leigos. “É uma coisa para se ler ou para um cristão se debruçar na sua oração individual. Aliás, isso parece-me ser uma das grandes vantagens. Eu dou mais valor a este guia como instrumento para oração em casa, fora do contexto do culto comunitário.”

Misericórdia: Ninguém disse que seria fácil

A misericórdia de Deus está no centro da mensagem do Jubileu. Mas a misericórdia tem muitas faces e os cristãos são também chamados a serem instrumentos de misericórdia para com os outros. E aí podem surgir dificuldades: nem sempre as boas intenções são acolhidas, como descobriu Manuel Fúria.

O cantor começou a reparar num sem-abrigo indiano que vivia no jardim do Campo Grande, em Lisboa, que costuma frequentar com a família. “Ele fazia parte da minha vida quotidiana e eu comecei a ter vontade de o ajudar. Tentei encaminhá-lo para o Serviço Jesuíta aos Refugiados, tentei ir lá com ele, mas ele não queria ir, por isso acabei por lhe dar cinco euros para ele apanhar um táxi e dei-lhe um papel com a morada. Claro que não foi.”

Este processo levou-o a compreender que “é uma coisa muito exigente ajudar alguém".

“Quando avançamos em direcção a alguém que não conhecemos de lado nenhum, é um grande abismo, um passo no vazio, no grande mistério da outra pessoa. Portanto, eu ainda estou a tentar ajudá-lo, estou a tentar perceber como é que se faz agora, porque já percebi que não foi pelo lado de um certo entusiasmo meu de ajudar o senhor e de pensar que as coisas podem correr bem. As coisas nem sempre se resolvem com um mero entusiasmo juvenil, podem ser muito mais exigentes do que isso. É bom dar esses passos para quebrar mesmo barreiras dentro de nós próprios e de sabermos que somos capazes de fazer isso, e de ajudar pessoas que não conhecemos de lado nenhum.”

Ainda não foi encontrada uma solução, mas quebraram-se barreiras e criou-se alguma empatia. Hoje, o senhor indiano não é apenas um sem-abrigo, é alguém que o músico cumprimenta sempre que o encontra. Uma aproximação que se espera ainda poder dar frutos e que leva Manuel Fúria a estabelecer um paralelo na sua relação com Deus.

O Rei David, num saltério do século XV


“Deus comigo sempre foi muito paciente e tenho compreendido que o modo como Deus interveio na minha vida e me ajudou e me tem ajudado só o pode fazer comigo, porque me conhece melhor do que eu próprio me conheço”, diz.

“Portanto, claro que há um paralelo e o grande desafio é perceber como é que Deus faz, tentar conhecer a pessoa, ter calma. Acho que a minha relação com este senhor é parecida com isso, pelo menos eu quero que seja. De eu ir estando atento àquela pessoa e nos momentos que forem de inspiração saber actuar”, conclui.

Bairro Janeiro

Pedimos uma sugestão de algo que o remeta para a misericórdia. Sem surpresas, Manuel Fúria vira-se para a música. Em jeito de brincadeira, começa por dizer que sugere o mais recente álbum do pastor protestante e músico Tiago Cavaco.

“Poucas pessoas compram os discos do Tiago e acho que é fixe poder ajudar o Tiago, falando do seu disco, que é bem bom, tem canções muito engraçadas, está muito bem feito", argumenta.

A verdade é mais complexa e percebe-se que Tiago Cavaco tem sido um forte apoio tanto no percurso musical como espiritual, na descoberta, também, da misericórdia de Deus. Os dois são companheiros de palco e de estúdio. "Mas a grande coisa da nossa relação é o lado espiritual e nesse sentido tem sido sempre, tanto para o Tiago como para mim, uma descoberta de duas maneiras diferentes de relação com Jesus, a maneira católica e a maneira protestante.”

“A vida do Tiago gira à volta da fé, é a coisa mais importante, e isso também tem sido uma ajuda e uma referência para eu ser mais exigente com a minha fé”, conclui.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.