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Fora da Caixa

​Santana Lopes e António Vitorino explicam como combater crise europeia

18 mar, 2016 - 23:51 • José Pedro Frazão

António Vitorino quer mais estímulos nacionais, enquanto o ex-Primeiro-ministro diz que em política económica e financeira o “timing” é essencial.
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Fora da Caixa (18/03/2016)
Fora da Caixa (18/03/2016)

Como combater a crise europeia? Santana Lopes e António Vitorino propõem soluções. No quadro de novas medidas de estímulo monetário do Banco Central Europeu, os comentadores da Renascença deixam sugestões para quebrar a crise europeia e ajudar países como Portugal no alinhamento com a UE.

Mais investimento público, flexibilidade no défice, apoio aos privados, mais estímulos do BCE para Portugal. São as quatro grandes ideias deixadas por Pedro Santana Lopes e António Vitorino no programa “Fora da Caixa” da Renascença que debateu as últimas decisões do Banco Central Europeu, centradas na baixa de taxas e alargamento dos programas de compra de activos.

António Vitorino defende a compra ilimitada de dívida pública portuguesa pelo Banco Central Europeu. O antigo comissário europeu lembra que a aquisição de activos pelo BCE está limitada pela percentagem de cada país no capital da própria instituição liderada por Mário Draghi.

“Seria verdadeiramente interessante para países que têm constrangimentos nas suas finanças públicas, como Portugal um sinal de que o tecto podia ser ultrapassado. Portanto não haveria limite para esse ‘quantitativo leasing’ para esses países. Reforçaria a confiança dos investidores nesses países. Não seria a bala mágica mas seria um instrumento adicional para os países que não podem usar a margem de manobra orçamental”, propõe António Vitorino na Renascença.

O antigo comissário europeu considera que na receita para sair da crise estão a faltar os estímulos nacionais. O problema está na margem de manobra de cada país para avançar com essas medidas, acrescenta Vitorino. “Países como Portugal têm dificuldade no equilíbrio das contas públicas e têm menor margem orçamental. Mas há países como a Alemanha, a Holanda ou a Áustria que têm maior margem orçamental e podem actuar directamente sobre a procura interna”, afirma o antigo ministro do PS.

Investimento público do Plano Juncker sem contar para défice

Outra proposta de António Vitorino passa por aliviar o défice da carga de investimento público previsto no Plano Juncker como alavanca dos projectos privados que devem ser criados na economia real.

“A lógica seria não permitir aos estados que façam défice à sua vontade. Mas na medida em que o investimento público apoia, conforta e reforça o investimento privado nos domínios do plano Juncker aí haveria uma outra flexibilidade de contabilização dos resultados. Isso contribuiria para o crescimento económico, para a convergência das economias”, avança o antigo comissário europeu.

Vitorino argumenta que a divergência no crescimento económico é o factor mais perturbador do equilíbrio das finanças públicas e do funcionamento da zona euro. Nesse sentido, avisa o comentador, o novo sentido da histórica ‘coesão europeia’ é a convergência económica. Sem esta, insiste Vitorino, “ a partir de certa altura o Euro pode não ser suficientemente capaz de responder a necessidade de uma economia como a alemã e de economias mais vulneráveis como as periféricas”.

Outros caminhos na banca, outra política económica

Pedro Santana Lopes afirma que o crescimento europeu passa por "outro caminho de política económica, no domínio do investimento publico nos países com mais margem para isso, mas também apoio ao investimento privado”. O antigo primeiro-ministro diz que as medidas do BCE podem ter falhado o momento ideal para serem tomadas, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos.

"Em política económica, como em muitas outras coisas da vida, o momento em que as coisas se fazem, o ‘timing’ é importante. A injecção de moeda pela Reserva Federal aconteceu numa altura em que nos Estados Unidos as forças da estagnação ainda não tinham crescido. Na Europa, há a sensação de que a máquina bloqueou. Está enferrujada e vai ser preciso algo mais do que atirar moeda para cima da economia. Criar estes estímulos é na prática criar moeda. Parece vir tarde de mais”, considera Santana Lopes.

O antigo chefe de Governo descreve a receita de Draghi como uma prescrição de “antibiótico com algumas vitaminas”, que carece ainda de um esforço de exercício contínuo." Falta aqui a caminhada diária. Essa é que não tem rumo. Parece um atleta que está tão cansado do esforço que chega à meta e já não sabe para onde vai”, exemplifica Santana Lopes.

O comentador social-democrata deixa ainda um reparo sobre a situação do sistema financeiro europeu e, em particular, com o caso português.

“Multiplicam-se as análises e inquietações com a saúde do sistema financeiro. No caso de Portugal, compreendendo as medidas para os sectores financeiros, as vias para a sua capitalização e robustez terão que ser mais imaginativas”, afirma Santana Lopes na Renascença.

Uma Europa pendular

António Vitorino acentua que não está encontrado um ponto de encontro entre diversas visões sobre a orientação económica europeia.

“Tivemos um período onde tudo puxou para o lado das finanças públicas com uma visão cega em relação à economia. Agora começa-se a ver que é necessário introduzir outros factores no domínio do crescimento económico para tornar mais fácil e exequível a consolidação das finanças públicas. E é isto que os alemães ainda não estão preparados para aceitar”, argumenta o antigo comissário europeu que reconhece os receios de Berlim em relação às “ tentativas de aproveitamento deste argumento para tentar puxar o pêndulo para o lado oposto, dos gastos por parte de quem não tem economias consolidadas para o fazer”, analisa o comentador socialista.

Já Pedro Santana Lopes considera que não há sinais de uma mudança na teoria económica que sustente uma possível viragem na Europa. "Não vejo novidade no pensamento económico e nos vultos mais destacados para o desenvolvimento de políticas económicas que nos façam suscitar esperança”, acrescenta o social-democrata.

Falhanço e esquecimento

O antigo líder do PSD lembra que está instalado o cepticismo em relação às medidas do BCE. “O efeito alcançado foi ténue. Foi bom numa primeira leva e depois foi fraco. Existe a convicção que a questão é mais funda, que não vai lá só com medidas no campo monetário. É preciso algo mais. Aí está o busílis porque ainda ninguém descobriu o que é”, acrescenta Santana.

António Vitorino recorda ainda que aquando do lançamento do Plano Juncker foram levantadas dúvidas sobre a capacidade deste chegar a curto prazo à economia real. Um temor que se confirma a juntar à preocupação com a falta de impacto das medidas do BCE. O militante socialista questiona se os bancos "não estão a aproveitar as facilidades do BCE para limpar balanços e consolidar capital e contas próprias em vez de canalizarem dinheiro para a economia real".

Os comentadores lamentam ainda o esquecimento a que foi votado o Relatório dos Cinco Presidentes para a reforma da União Económica e Monetária. “Está congelado, desapareceu do radar”, diz Vitorino. “Sinal dos tempos, faz impressão”, concorda Santana Lopes.

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