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Cessar-fogo trouxe nova esperança para Aleppo. "As pessoas voltaram a respirar"

14 mar, 2016 - 17:58 • Filipe d'Avillez

A irmã Annie Demerjian vive na cidade que tem sido palco de alguns dos piores combates da guerra civil da Síria. Depois de anos de desespero,surge uma luz ao fundo do túnel.
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Depois de anos sem descanso da violência constante da guerra civil na Síria, a cidade de Alepo vive agora um período de paz devido ao cessar-fogo que está em vigor desde finais de Fevereiro.

No dia em que a comissão de inquérito da ONU à Síria apresenta ao Conselho dos Direitos Humanos um relatório sobre a situação no terreno, a Renascença falou com a irmã Annie Demerjian, que é natural da cidade e lá se manteve durante todos estes anos de calvário.

Para esta freira católica, o cessar-fogo traz uma nova esperança para a população. “Estamos muito contentes com este cessar-fogo e esperamos que seja um passo em relação à paz definitiva. As pessoas voltaram agora a respirar e renovaram a esperança”, diz.

Para trás, fica uma realidade de vida extraordinariamente dura, com meses a fio sem electricidade e sem água corrente. “A maior parte da cidade foi destruída e, para a maioria das pessoas, as condições de vida são muito baixas, por causa da falta de água e electricidade. Depois de cinco meses sem electricidade, agora temos durante uma ou duas horas por dia. Depois, é cortada outra vez. Tivemos sem água durante três meses. Consegue imaginar três meses sem água na cidade toda?”, questiona.

“Nem me refiro aos bombardeamentos. Muitas casas foram destruídas e muitas pessoas fugiram. Há muito medo e perdemos muitas pessoas, muitas famílias, crianças e jovens que morreram. Há ainda muitos feridos e pessoas que precisam de próteses”, adianta a irmã Annie.

Mesmo perante todas estas dificuldades, a religiosa encontra razões para dar graças a Deus. “Agora, a situação está mais calma. Temos água, mas não em toda a cidade. Algumas pessoas nunca chegaram a receber. Mas damos graças a Deus, esperamos que a situação permaneça calma e que as pessoas possam circular livremente.”

Depois de tantos anos de guerra, um dos períodos mais complicados foi mesmo antes de ser declarado o cessar-fogo, quando forças governamentais, apoiadas por ataques aéreos russos, conseguiram avançar, ao ponto de cercar a cidade, que continua dividida entre secções leais ao Governo de Damasco e outras nas mãos da oposição. Na altura, vários órgãos de imprensa manifestaram o receio de que, se o Governo cercasse completamente a cidade, as agências humanitárias ficariam sem forma de introduzir bens essenciais, mas, segundo Annie Demerjian, a verdade é precisamente o contrário: “Quando as forças governamentais cercaram Aleppo era possível às agências humanitárias entrar e sair. Mas quando o Estado Islâmico atacou a estrada deixámos de ter acesso a qualquer ajuda, como comida, combustível ou medicamentos.”

“Foi muito difícil para a cidade lidar com o corte da estrada, para além da falta de água e de electricidade, mas quando o Governo recuperou o controlo da estrada foi possível, novamente, introduzir todo o género de ajudas”, explica.

A guerra civil na Síria começou precisamente no dia 15 de Março de 2011, depois de várias semanas de protestos contra o regime. Actualmente existem vários grupos em conflito aberto, incluindo as forças leais ao regime, o autoproclamado Estado Islâmico, rebeldes curdos e até alguns grupos compostos por cristãos assírios, que actuam nas cidades onde esta comunidade tinha maior representatividade.

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