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Cristas promete estilo de liderança diferente de Portas

20 jan, 2016 - 01:44 • Raquel Abecasis

Em entrevista à Renascença, a candidata à presidência do CDS afirma que gostava de ter adversários na corrida à liderança.

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Cristas promete estilo de liderança diferente de Portas

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Se for eleita presidente do CDS no congresso de Março, Assunção Cristas promete um estilo de liderança diferente de Paulo Portas.

Em entrevista ao programa "Terça à Noite" da Renascença, a antiga ministra diz que será menos centralizadora. Se chegar aos comandos do CDS o seu "mote será: partilhar, delegar e confiar".

Assunção Cristas elogia o legado de Paulo Portas e admite que gostaria de ter adversários na corrida à liderança do partido. "Acho que a diversidade e a possibilidade de adversários é muito positiva", sublinha.

Candidatar-se ao CDS era um destino certo, não sabia era quando?

Não sei. Era uma hipótese ou um destino possível. Sempre que me faziam essa pergunta eu respondia: Estando no CDS por convicção e com convicção, no momento em que eventualmente venha a ser necessário, eu não posso dizer à partida que estou fora dessa possibilidade. Mas isto pressupunha ser necessário e haver um momento em que eu também poderia reunir as condições para poder avançar.

Isto aconteceu agora em que o Paulo Portas disse que não tinha mais condições, disponibilidade pessoal, para estar mais tempo à frente do CDS. Eu acho que nós todos, como amigos dele, temos que compreender, embora lamentando, e agradecer o trabalho extraordinário que fez em qualidade e em quantidade de anos. Não há muita gente com esta capacidade. É o único dos políticos actuais que teve esta capacidade de resistência e de tanta dádiva ao país e ao CDS.

Nesta altura, colocou-se a questão de saber quem é que poderia estar disponível para se candidatar à liderança e eu, depois de uma reflexão em casa, com o meu marido, com a minha família, também com amigos, conversando obviamente com as pessoas do CDS - porque sempre me vi como uma pessoa que constrói pontes, que ajuda a agregar e nunca como alguém que está para dividir, e portanto eu só avançaria se sentisse que havia condições para agregar e que uma eventual candidatura minha seria exactamente com essa vontade.

Depois de todas essas conversas, depois de um diálogo também muito intenso e com o Nuno Melo, concluí que tinha condições para avançar e espero que seja a bem de Portugal e dos portugueses.

Revela esse lado que não é muito comum na política nacional de não esconder o gosto e a ambição que tem na política. É uma mais valia não dizer: Estou aqui por sacrifício? Isso marca uma mudança?

Porque eu sou assim e não sei ser de outra maneira. Tenho por hábito dizer o que penso, sou muito leal, sou muito frontal, muito directa. Eu acho que uma ambição bem orientada para as coisas boas é uma ambição positiva e acho que o país precisa de ter ambição em muitos domínios e também precisa de ter ambição na política.

Tem chutado para canto as perguntas sobre se a sua candidatura e a de Nuno Melo poderiam ter avançado em simultâneo, mas diga-me se, para si, era importante ter adversários?

Eu acho que a diversidade e a possibilidade de adversários é muito positiva. Certamente que geraria ou gerará, porque podem aparecer outras pessoas dentro do CDS, e eu penso que isso é sempre enriquecedor para um partido. Por isso, não tenho medo e até acho que é uma coisa positiva, se aparecerem genuinamente adversários, não se pode estar a inventar adversários se eles de facto não existem.

Não lhe faria confusão se Nuno Melo ou outro dos nomes de que se falou tivessem avançado, isso não a deteria na sua decisão?

Confusão nenhuma. Eu penso que o mais importante numa circunstância dessas seria, e certamente do meu lado estaria sempre assegurado, um debate muito construtivo, muito elevado e muito leal das ideias para o partido e a partir do momento em que essas regras estivessem definidas eu acho que, obviamente, poderíamos ter um debate com muitos candidatos, sabendo que no dia da eleição e no último dia do congresso está o partido todo unido a trabalhar em conjunto numa solução construtiva para os portugueses, que é tornar o CDS num partido de referência no centro-direita em Portugal, um partido que aproveita todos os bons talentos e as qualidade enormes de tanta gente que já está a trabalhar e dos que se querem juntar a nós, porque reconhecem no partido um partido trabalhador, um partido que valoriza o mérito e o esforço e que em politica dá exemplo disso mesmo.

Rejeita a ideia de que o CDS é um partido de um homem só, mas porque é que acha que esta ideia fez o seu caminho?

Eu entrei para o CDS há oito anos, quase há nove, e na verdade nessa altura recordo-me que havia essa ideia. Eu nunca o senti, na verdade eu acho que o Paulo Portas puxou por mim como por tantos outros dirigentes do CDS e há inúmeros nomes que podemos citar de gente com qualidade, que foi exercendo funções seja no Parlamento, seja na governação, seja no Parlamento Europeu, seja de acção na sociedade civil. Creio que o Paulo Portas ajudou a que todos nos pudéssemos dar o nosso melhor.

A maior qualidade de Paulo Portas como líder é exactamente essa: Dá de si o melhor, mas leva a que outros dêem também o melhor. Não me revejo nessa crítica, admito que numa primeira fase, tenha sido assim. É verdade que Paulo Portas é centralizador, tem muita disponibilidade para a política, 24 horas por dia e vive a política 24 horas por dia, nessa medida é centralizador e coordena tudo muito bem, com uma macrogestão, mas também com uma microgestão. Tem muitas qualidades, também certamente que terá defeitos, mas o que eu sinto é que isso funcionou.

Que desvantagens viu na liderança de Paulo Portas? Até porque Assunção Cristas não vai poder exercer essa liderança 24 sobre 24 horas?

Certamente que não. O meu mote é partilhar, delegar e confiar. É muito por aí.

Confiar é perigoso em política.

Pois é, tem os seus riscos, por isso nenhum modelo é perfeito, mas depois a pessoa cai levanta-se, comete erros e corrige. Eu acho que isso é assim em tudo na vida e em política também e acho que nos temos que habituar a isso. Ninguém é perfeito, ninguém acerta sempre.

Mas se quiser um exemplo concreto, a reunião dos órgãos ou o trabalho colegial, eu acho que é uma coisa que tendo a valorizar mais do que o Paulo Portas, também porque se calhar tenho menos tempo, as tais 24 horas por dia, o que obriga a juntar mais as pessoas e a resolver mais em conjunto, mas também porque é do meu feitio trabalhar muito em equipa em relação com muitas pessoas. Não só bilaterais, podendo aproveitar duma reflexão e de um debate em conjunto.

Acha que o facto de ser mulher e uma vantagem nesta transição?

Não sei. É o que é. Há pelo menos uma questão óbvia: O facto de ser mulher torna-me logo à partida diferente do Paulo Portas. Se eu de facto vier a ser eleita.

Acha que neste novo ciclo Paulo Portas vai afastar-se ou manter uma presença tutelar como aconteceu no passado?

Eu acho que o Paulo Portas quer mesmo encetar um novo capítulo na sua vida. Teve o capítulo de jornalista, teve o capítulo de político, pode voltar a ter para a frente. Eu acho que Paulo Portas é muito novo, tem 53 anos, e portanto tem ainda muito tempo pela frente para poder fazer várias coisas diferentes. Mas eu penso que, genuinamente, Paulo Portas quer entrar num novo capítulo da sua vida e fazer outras coisas que também gosta que lhe dão prazer.

Espero que, mesmo não estando diariamente a acompanhar a política nacional, possa ter um acompanhamento da política e que nos possa ajudar com o seu conselho. No CDS estamos pouco habituados a isso e eu acho que faz falta.

Estão pouco habituados a quê?

A ter ex-líderes próximos e atentos e que também ajudam com o seu conselho.

Que papel acha que o CDS deve ter neste novo ciclo?

O CDS precisa de crescer, precisa de se afirmar como um partido responsável, credível que estuda a fundo as matérias que trabalha com afinco e que tem respostas para os portugueses. Já demos exemplos em muitas matérias de que assim somos e que fomos capazes de concretizar, mas num momento em que o país está governado por um PS que se apoia nas esquerdas mais radicais.

Nós temos não só a vontade, mas também o dever de construir uma alternativa de discurso que responda cabalmente aos problemas dos portugueses e que mostre o contraste com estas esquerdas radicais tantas vezes ideológicas e que por razões estritamente ideológicas acabam por nos encaminhar para soluções que não são as melhores para os portugueses e já há vários exemplos disto.

O CDS já teve várias fases ideológicas. A de Freitas do Amaral ao centro, a de Manuel Monteiro à direita, a de Paulo Portas que teve duas fases. Onde é que está o seu CDS?

Há fases diferentes do CDS ao longo da sua história e é natural que essas fases também, de alguma forma, estejam associadas a lideranças diferentes. Aquilo que eu penso que o CDS tem como firme e como união forte entre todos os seus militantes é uma matriz democrata-cristã, que nos continuará a inspirar, que não se perdeu, que às vezes esteve mais ou menos visível, porque também se prendeu com circunstâncias específicas do nosso trajecto enquanto país.

Eu acho que o CDS já mostrou ser e precisa de ser cada vez mais um partido orientado para a resolução concreta dos problemas dos portugueses.

Comentários
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  • fanã
    20 jan, 2016 aveiro 18:27
    Fico no tacho, e delego muita responsabilidade a outros, assim vou para casa tratar dos rebentos !
  • fanã
    20 jan, 2016 aveiro 18:19
    Dentro de alguns tempos o cds, desaparece......e ainda bem!
  • Como?
    20 jan, 2016 lx 17:27
    A "delfim" do Portas, que ele proprio se orgulha de ter trazido para o CDS, à sua medida e imagem? Mais uma vez, esta gente quer enfiar-nos a carapuça! Qual é a credibilidade que se pode dar a esta gente?
  • rosinda
    20 jan, 2016 palmela 17:00
    Uma ambicao desmedida pode levar o cds a ficar parecido com o ps! Seguro vencedor/costa ambicioso.
  • Miguel
    20 jan, 2016 Lisboa 13:44
    Não tem um pingo de humildade sem sombra de duvidas a pessoa com melhor perfil para o cargo.