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“Indy”. O jornal onde os políticos se “esfaqueavam” comandados por um “Marcelo 2.0”

14 dez, 2015 - 19:52 • José Pedro Frazão

O jornalismo e a política portuguesa dos anos 90 não podem ser compreendidos sem "O Independente", o jornal das grandes manchetes das sextas-feiras.
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Os jornalistas Filipe Santos Costa e Liliana Valente escreveram um dos possíveis livros sobre “O Independente”. Falaram com fundadores, jornalistas, alvos e autores das manchetes. Em entrevista à Renascença, analisam as diversas fases e facetas do jornal fundado por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, o aprendiz de Marcelo que chegou onde este nunca conseguiu chegar.

Na sala da editora Matéria-Prima, dois jornalistas falam com um terceiro sobre um jornal que já fechou. O mundo avança rápido, a conversa foi gravada e emitida quando a esquerda fechava o acordo que derrubou o Governo anterior.

Num ápice, em 27 anos, Paulo Portas passou de director a político, de político a ministro, de ministro a ex-ministro. Quando esta entrevista foi registada, Portas estava a dias de deixar (outra vez) de ser governante. “O Independente” não é aqui a história de Paulo Portas ou de Miguel Esteves Cardoso, mas de uma “Máquina de Triturar Políticos”, o título do livro de Filipe Santos Costa e Liliana Valente. O jornalismo e a política portuguesa dos anos 90 não podem ser compreendidos sem o jornal das grandes manchetes das sextas-feiras dos anos 90.

Lá fora há mais jornais alinhados com determinada linha política ou partidária. "O Independente" parece ter sido um jornal alinhado com o que viria a ser e não com o que existia.

Filipe Santos Costa (FSC): “O Independente" foi um jornal revolucionário em muitos aspectos. Um dos aspectos foi precisamente esse, editorialmente foi um jornal que tomava partido. Apresentava-se logo no estatuto editorial como “um jornal que não acredita na neutralidade” e que se assumia como democrata e conservador. Com uma agenda conservadora, patriótica e liberal. Isso é qualquer coisa de muito politicamente incorrecto em 1988. Juntava uma tolerância muito grande a essas coordenadas. Tinha um director, Miguel Esteves Cardoso, conservador e monárquico. Tinha um director-adjunto, Paulo Portas, sobretudo liberal. Tinha uma redacção com gente de muitas proveniências e grandes nomes a escrever opinião e crónicas, insuspeitos de simpatias de direita.

Foi construída uma redacção e um painel de comentário com especial pluralismo?

FSC: Com muito pluralismo. Se pensarmos que houve muitos ensaios que marcaram sobretudo a revista do “Independente”, escritos por exemplo pela Maria Filomena Mónica, António Barreto, Mega Ferreira, convidados como Francisco Louçã, crónicas de cinema de João Benard da Costa. Havia toda uma vanguarda cultural e estética que tinha no “Independente” um espaço que não lhe era dado em mais lado nenhum.

Isto tudo junto, percebe-se que o jornal, embora alinhado politicamente, fosse muito pluralista e o cocktail fazia aquela “dinamite mental” que fez com que o jornal fosse qualquer coisa de realmente novo, para além de todas as outras as outras características que o impuseram. A irreverência, a agenda alternativa, um jornal mal comportado e bem humorado que era bastante importante. E sobretudo ser um jornal extraordinariamente bem escrito. Talvez fosse esse o critério de recrutamento mais importante. Fosse qual fosse a proveniência, tinha que escrever muito bem.

Foi um 'laboratório' para a carreira política de Portas? Ao fim deste trabalho todo, conseguem perceber quando é que ficou clara a estratégia de Portas que o iria depois levar onde conhecemos hoje?

Liliana Valente (LV): É uma pergunta que faz todo o sentido, mas que não tem uma resposta clara. Podemos dizer que houve um processo que foi acontecendo ao longo dos anos. O que é claro para quem falou connosco é que este era um projecto político desde o início. Era um projecto jornalístico que dava uma dimensão diferente, mais importante, à política. Nasce fazendo um contraponto ao cavaquismo, fazendo “tiro ao alvo” aos principais generais do Governo de Cavaco Silva e ao próprio Cavaco que foi manchete, ele sozinho, por 91 vezes.

Já havia uma intenção de criar uma nova direita, um novo espaço de direita. Havia a ideia de que, para que essa direita nascesse, era necessário um jornal. Na altura não havia ainda as televisões privadas. Era preciso um jornal para que essa nova direita tivesse voz. Não se percebia ainda muito bem, pelas conversas que tivemos, qual seria o papel de Paulo Portas nessa nova direita. No início, o papel era claramente de director de jornal, em que o jornal era o contraponto de direita aquilo que era o que viam como uma política de esquerda de Cavaco Silva. Ao longo do tempo, sobretudo depois de 1991, quando há uma revalidação da maioria absoluta de Cavaco Silva, nota-se que há um processo muito mais evidente. A relação de Paulo Portas com o CDS passou a ser muito mais umbilical. Muitos editoriais de Portas acabariam por ser utilizados nos discursos de Manuel Monteiro. Havia também coincidência de temas que eram manchetes do jornal replicados pelo partido.

É possível falar num “ódio” político a Cavaco Silva ? É uma palavra forte demais?

FSC: Havia uma enorme distância política em relação a Cavaco Silva. Ódio parece-me uma palavra demasiado forte e personalizada. Havia um muito grande - aqui uso a palavra forte - desprezo em relação ao Portugal que Cavaco Silva representava. Cavaco Silva e a sua gente, aquela gente sem história e sem mundo, os bimbos de peúga branca, aqueles parolos de província em relação aos quais “O Independente" foi absolutamente cruel. Paulo Portas reconhece isso nas declarações que nos faz para o livro, de que foram longe demais.

No caso de Macário Correia, por exemplo.

FSC: E de muitos outros, do próprio Cavaco Silva e de Maria Cavaco Silva, a quem Paulo Portas, num texto, chamou "Maria, a PMI", a Pequena e Média Intelectual. Podíamos abrir um parêntesis para a ironia para Pedro Passos Coelho, que na altura era uma personagem praticamente irrelevante para o “Independente”. Hoje seria retratado da mesma maneira como símbolo do pior do cavaquismo. Seria retrato como um suburbano de Massamá, sem passado e sem leituras, em que as histórias de Passos Coelho na Tecnoforma e na Segurança Social seriam absolutamente dizimados por Paulo Portas, com a agravante de Passos Coelho ter sido um “jotinha”. Paulo Portas, na altura, considerava que as juventudes partidárias eram escolas de crime.

Apesar de ter estado na JSD...

FSC: E com histórias rocambolescas quando chegou a ser director do jornal da JSD que, curiosamente, se chamava "Pelo Socialismo". Havia uma distância em relação a "essa gente", como ele os trata, e um abismo em relação à politica de Cavaco Silva.

O eleitorado actual do CDS leria o caderno de MEC?

FSC: Não me atrevo a caracterizar hoje em dia o eleitorado actual do CDS. "O Independente" era um jornal muito transversal no seu público. Era um jornal muito de direita que a esquerda adorava. Ninguém demolia o cavaquismo como o “Independente”.

A direita que existiu no “Independente" nunca existiu na realidade ao cruzar o primeiro caderno com os suplementos. Nunca conseguiu cumprir o desígnio que vinha do “Independente” que misturava essas duas dimensões.

FSC: Mas tanto um como o outro coincidam na atitude "fora da caixa", de desafiar limites, de vanguardismo, até de um politicamente incorrecto de buscar conceitos antigos, palavras em desuso porque tinham a marca da ditadura. Não se podia usar a palavra "nação" ou "pátria". Isso atravessa as páginas do “Independente", no primeiro caderno ou no caderno 3. Eram conservadores e faziam questão de dar o peso verdadeiro à palavra conservador, apesar de serem vanguardistas na parte cultural.

Há uma frase muito interessante no livro, com muita actualidade: "A Procuradoria-Geral da República foi central a alimentar o ‘Independente’”.

LV: Essa frase sai sobretudo por causa do caso Leonor Beleza, onde houve uma proximidade muito grande entre a justiça e o jornalismo. Muitas histórias nasceram da justiça. Paulo Portas tem uma frase que define essa relação como uma libertação sexual. "O jornalismo percebeu que se podia ir mais longe, os procuradores perceberam que se podia ir mais longe, os juízes também e os leitores ficaram a ganhar", diz Portas. Nasce aqui essa relação mais próxima que deu azo a muitas manchetes.

Vasco Pulido Valente é a terceira grande figura do “Independente”, depois de Portas e Esteves Cardoso?

FSC: Quando "O Independente" é lançado, a grande estrela da redacção é de longe Miguel Esteves Cardoso, que era um fenómeno pop e geracional. Tinha sido candidato às europeias em 1987, onde foi a grande novidade. Não foi eleito, mas conseguiu 160 mil votos. Quando Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas vão com Luís Nobre Guedes à procura de futuros investidores para o jornal explicam que se Miguel Esteves Cardoso teve 160 mil votos, se metade ou um terço destas pessoas comprarem este jornal, ele está mais do que viabilizado. Miguel Esteves Cardoso era a verdadeira estrela e Paulo Portas era o dínamo, era ele que fazia aquilo pulsar e trabalhar.

Vasco Pulido Valente é fundamental para a afirmação de “O Independente", que era feito por jornalistas muito jovens. O MEC e Portas nunca tinham trabalhado de facto num jornal, nunca tinham trabalhado ou dirigido um jornal. Vasco Pulido Valente tinha já um histórico muito grande, era já um cronista consagrado. Dos vários jornais onde passou, nomeadamente o “Expresso” onde passou a ter uma crónica na primeira página do “Expresso”. Juntamente com António Barreto, Maria Filomena Mónica, Agustina Bessa-Luís, dão uma validação que permite aos leitores perceberem que isto não é só uma coisa de uns putos novos que querem fazer um jornal giro. O facto de Vasco Pulido Valente lá estar, naquele comprimento de onda que se encaixava perfeitamente no “Independente" com a sua escrita corrosiva, com sentido de humor peculiar e capacidade de análise política, dá muito músculo aquilo que era a proposta inicial do Independente.

MEC centra muito a sua escrita sobre o ser português. Sobre Miguel Cadilhe, escreve: "é o primeiro-ministro das Finanças igual a nós. Não pode ser. É um choque demasiado grande". E a criação de novos termos como "cadilhar" foi também uma marca de “O Independente".

LV: "O Independente" era um jornal extraordinariamente bem escrito. Obviamente que há uma centralidade em Miguel Esteves Cardoso, que conhecemos daquelas crónicas extraordinariamente bem escritas, onde inventava verbos como o "cadilhar" ou "entaveirar". Mas era também uma redacção muito criativa com jovens muito talentosos que acabaram por dar ao jornal essa qualidade.

No caso dessa frase, era também uma percepção que tinham em relação a Cavaco Silva. Nunca estiveram com Cavaco. Há apenas uma entrevista mais tarde em que vão com Constança Cunha e Sá de onde sai a dizer que é impossível gostar ou não gostar de Cavaco porque ele é igual ao português. Para se odiar Cavaco, era preciso odiar o português. Durante anos eles qualificaram Cavaco Silva com os mais díspares adjectivos, mas chegam ao fim dizem que ele é igual a todo o português.

FSC: "O Independente" talvez tenha sido o jornal que mais adjectivou Cavaco Silva. Mas talvez, em comparação com a centralidade que Cavaco tinha no “Independente”, o “Independente” realmente não conhecia Cavaco Silva. E demorou anos a perceber porque é que Cavaco Silva resultava.

Descrevem uma ida de Constança Cunha e Sá à campanha de Cavaco.

FSC: Esse é um dos momentos centrais do livro. Nunca ninguém no “Independente" tinha estado com Cavaco Silva até 1991. Era ano de legislativas e Paulo Portas apostava limpinho que Cavaco até podia ganhar as eleições, mas perdia a maioria absoluta. Constança Cunha e Sá vai ver como é Cavaco e passa um dia com Cavaco, que até inclui uma viagem de Falcon, apesar de todas as maldades que o “Independente” lhe fez.

Quando ela volta à redacção, diz a Portas e Esteves Cardoso que Cavaco Silva vai ganhar e com maioria absoluta. O que eles queriam saber era como era Cavaco, se comia com talheres, se espumava da boca, se tinha conversa. Achavam que ele era um troglodita. Ela diz-lhes: "Esqueçam isso tudo, ele vai ganhar com maioria absoluta". É um choque para MEC e Portas. Quando se confirma a maioria absoluta, até reforçada face à maioria anterior, Paulo Portas deprime-se e diz a Miguel Esteves Cardoso: "Afinal, não influenciamos nada". Miguel responde: "É verdade, mas não digas a ninguém".

Há rancores que ficaram. Descrevem que Cadilhe não quis falar, entre outras pessoas. Isso é sintomático de como tanto tempo depois ainda há gente que não pode ouvir falar no “Independente". Há mais "Cadilhes" com este rancor?

LV: Claro que sim. "O Independente" mexeu não apenas com a vida política de muitas pessoas como também com a vida pessoal. Podemos perguntar qual é a fronteira entre o pessoal e o profissional como no caso de Miguel Cadilhe. Mas eles foram muitas vezes longe demais e admitem que não chegaram a pedir desculpa. Há uma frase de MEC em que diz :"Cometemos constantemente o erro de ir longe demais". Paulo Portas admite que acabou por pedir desculpa posteriormente a muitas pessoas. E até fez com que algumas relações fossem retomadas como é o caso de Leonor Beleza, um dos principais alvos do “Independente".

A verdade é que as histórias do “Independente” e a maneira como eles as contavam, muitas vezes pisando ou ultrapassando o risco, criaram mossa e grandes rancores em muitas pessoas. Muitas pessoas que foram fontes ou vítimas do “Independente” aceitaram falar connosco. Outras que aceitaram fazê-lo sob anonimato para não levantar mais problemas sobre isso. E outras que se recusaram, porque para muitas delas ainda é uma questão de pele.

FSC: Talvez não seja irrelevante o facto de Paulo Portas ser ainda uma pessoa com poder. Quando achamos que ele está acabado ele continua a ter poder. Ele é um sempre-em-pé, o líder partidário com mais anos de liderança na história da democracia portuguesa. É possível que esse longevidade de Paulo Portas não seja irrelevante a tudo o que ele aprendeu quando era director de “O Independente". Ele ficou a conhecer o pior do jornalismo e o pior da política.

LV: Marcelo Rebelo de Sousa diz-nos que Portas nunca resolveu o seu problema com o PSD.

O que é que Portas governante levou do Portas que "escrutinava impiedosamente um Governo", que tentava entrar no Conselho de Ministros através do Conselho de Secretários de Estado?

FSC: O mais importante é que ele sabe como os jornalistas pensam. Uma vez que a política se faz essencialmente na mensagem que passa, e que passa na comunicação social, Paulo Portas sabe perfeitamente como é que pensam os jornalistas, como funcionam as redacções. Aposto que quando ele faz um discurso ele sabe quais são as frases em que os jornalistas vão pegar. Ele é o mestre do “soundbyte”. No “Independente”, ele era o mestre da frase assassina. As manchetes do “Independente" eram à sua maneira já “soundbytes”, porque condensavam uma ideia em poucas palavras de uma forma que qualquer um retinha na memória e percebia os vários sentidos que isso tinha.

Percebia a importância de ter o máximo de informação, controlar a informação. Como político, é um maníaco de recolha de informação. Ele sabe como os políticos se esfaqueiam uns aos outros. Muitos políticos usavam “O Independente" para se esfaquearem uns aos outros, nomeadamente os políticos da maioria. Paulo Portas conta-nos que, nos governos de Cavaco, só o próprio Cavaco não era fonte do Independente. Todos os outros ministros, directa ou indirectamente, alimentavam as manchetes de “O Independente".

E ele foi bem sucedido na tarefa de blindar Conselhos de Ministros ? Controlar fluxos de informação?

FSC: Conseguiu pelo menos gerir os danos de forma a sobreviver sempre. Todos nos lembramos das histórias dos submarinos, do "irrevogável", do guião da reforma do Estado. Do brutal aumento de impostos quando no “Independente" ele dizia que a carga fiscal era insuportável, que o Estado era ladrão e que a classe média devia fugir ao fisco. Ele escrevia isso no “Independente”. Apesar da reviravolta total que ele deu por exemplo em relação à Europa, ele sobreviveu sempre. Talvez porque nunca o Paulo Portas político foi alvo dos comentários que merecia. Há anos que está a pedi-las. Talvez só Paulo Portas jornalista fosse capaz de ter o comentário suficientemente assassino para ferir o Paulo Portas político como nenhum jornalista neste tempo conseguiu.

LV: Paulo Portas escreve sobre outra personagem que faz isso bem, como se visse ao espelho: "Ninguém como Marcelo Rebelo de Sousa usou e abusou da confusão entre opinião e notícia, recorrendo às refinadas técnicas de manipulação. Ninguém como Marcelo cometeu até tão tarde o erro de olhar para jornais como projectos políticos”.

FSC: Portas é uma espécie de Marcelo 2.0. Portas conseguiu aquilo que Marcelo tentou e não conseguiu. Portas aprendeu bem com o mestre e o mestre talvez o tenha subavaliado.


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