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FMI, a dívida e a Grécia. O 'lobo mau' mudou mesmo de pele?

10 jul, 2015 - 20:18 • José Pedro Frazão

As mudanças de opinião do Fundo Monetário Internacional em relação à reestruturação da dívida grega são analisadas por Pedro Santana Lopes e antónio Vitorino no habitual debate semanal de temas europeus na Renascença.
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FMI, a dívida e a Grécia. O 'lobo mau' mudou mesmo de pele?

Os Estados Unidos mudaram a posição do FMI em relação à reestruturação da dívida grega. A opinião é partilhada por Pedro Santana Lopes e António Vitorino, no programa "Fora da Caixa", da Renascença, que debateu a relação entre o Fundo monetário Internacional e a Zona Euro, em especial no caso grego. Sinal mais claro dessa mudança foi a publicação de um relatório do FMI, dias antes do referendo, a defender a reestruturação da dívida.

"O eleitor grego comum não lê os relatórios do FMI, mas grande parte da recta final da campanha do 'não' feita pelo primeiro-ministro Tsipras foi baseada no relatório do FMI. O relatório do FMI teve uma importância muito maior do que se podia imaginar no resultado do referendo grego, graças à sua utilização pelo Primeiro-ministro Tsipras", sustenta António Vitorino que explica as razões pelas quais os europeus tentaram bloquear a divulgação do documento que merecia o apoio americano.

"Os americanos acham que tem que haver uma reestruturação da dívida. O Fundo Monetário subscreve essa tese porque entende que essa dívida não é sustentável.  Os europeus fogem da reestruturação da divida como o diabo da cruz.  Isso significaria levar a parte da reestruturação da dívida às contas, a título de prejuízo, do Banco Central Europeu, do Mecanismo de Estabilidade  e dos bancos centrais dos estados-membros. Aqui há uma posição conjunta de europeus", observa o antigo comissário europeu.

Para Pedro Santana Lopes esta alteração na posição do FMI é apenas compreensível à luz de alguma proximidade em relação à posição norte-americana.

"O FMI passou de 'lobo mau' a 'lobo bom' nos dias mais próximos do referendo, de uma maneira que só pode ser explicada desta forma. O registo passou a ser completamente diferente. O Fundo Monetário Internacional tinha a receber 1,5 mil milhões e agora utiliza uma linguagem mais 'doce' nas últimas semanas do que os responsáveis europeus", observa o antigo presidente do PSD.

Emergentes queixosos
António Vitorino sublinha que sempre existiram "vozes dissonantes" sobre a estratégia a seguir pelo FMI. Como exemplo, o comentador socialista dá conta da oposição manifestada pelo então director-geral Dominique Strauss-Khan, mais favorável a outro tipo de abordagem afastada da receita clássica das desvalorizações cambiais. "Strauss-Khan não defendia a reestruturação da dívida? Não, mas também não pensava que podíamos chegar aqui", responde Vitorino que acentua um desconforto crescente das economias emergentes em relação a esta crise.

"Há um crescendo de irritabilidade dentro do Fundo Monetário Internacional de países mais pobres que os europeus e que têm estado a contribuir para os empréstimos do FMI para sustentar a Grécia. Dizem, com alguma razão: 'calma aí, então os europeus, das mais ricas regiões do mundo, não tratam do assunto, e nós,emergentes, temos que estar também a contribuir para salvar a Grécia?", relata Vitorino.

Os comentadores do "Fora da Caixa" compreendem a atitude de Washington, tendo em conta o panorama económico global. "A economia mundial está a entrar numa zona de enorme intranquilidade e incerteza. Se juntarmos à situação que se está a viver na China - um dos grandes motores da economia mundial - uma imprevisibilidade total sobre o que poderia ser o impacto do Grexit na Europa e no Mundo", alerta António Vitorino que avisa ainda que "as contas americanas apontam para um impacto negativo de um Grexit na economia real muito superior ao que os europeus têm admitido até aqui que possa ser".

Santana Lopes e António Vitorino observam que há "vários vulcões em erupção na economia mundial". Somando todas as ocorrências, "o tremor de terra pode ser global".

Seja como for, no plano europeu, a lógica não pode passar por resolver o problema da divida grega e esquecer o problema das outras dívidas, alerta António Vitorino. "Portugal já tem hoje um serviço da divida mais oneroso que a Grécia. Como tem a Irlanda ou a Espanha. Não é possível resolver o problema europeu da dívida apenas centrando-nos na questão da Grécia. Tem que haver um dia uma solução conjunta, global para a questão da dívida. É errado pensar que só se tem de resolver o problema da divida grega", remata o antigo comissário europeu.

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