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União Europeia: afinal saímos a ganhar ou a perder?

25 mar, 2015 - 15:38 • Ana Carrilho/Anabela Góis/Ricardo Conceição/Pedro Caeiro

Esta quarta-feira, a representante da Comissão Europeia em Lisboa veio à Renascença analisar os dados do Eurobarómetro sobre a forma como os portugueses olham para a União Europeia.
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Antes de mais, importa olhar para os números que, nalguns casos, até parecem contraditórios. É que, se a esmagadora maioria dos portugueses aponta culpas a Bruxelas pela austeridade dos últimos anos, também é verdade que aumentou a percentagem dos que têm uma imagem positiva da União Europeia.

Mais de 70% dos portugueses culpam a União Europeia pela austeridade vivida nos últimos anos e um quarto associa-a ao aumento do desemprego. São valores acima da média dos 28. Também acham que a UE “é muito burocrática”.

O mais recente Eurobarómetro mostra a imagem que os cidadãos têm das instituições europeias e mostra, igualmente, que mais de dois terços dos cidadãos nacionais pensam que Portugal está melhor dentro que fora da Europa. Para a socióloga e politóloga Marina Costa Lobo são dados fáceis de explicar: “as pessoas percebem perfeitamente que a Europa está agora num papel diferente em relação à austeridade, que contrasta com a imagem que tinha anteriormente, mas não a apaga por completo. Porque os portugueses continuam a achar, maioritariamente, que pertencer à UE é positivo”.   

De resto, 38% dos inquiridos tem uma imagem positiva  da União Europeia enquanto, um quarto, tem negativa. Portugal acompanha a média dos 28, mas há uma alteração significativa relativamente aos resultados de 2013: o ano passado quase 40% dos portugueses tinha uma imagem negativa e só 22% positiva. Para Marina Costa Lobo, prende-se com a saída da troika e alguma recuperação económica que já se vai notando.

No inquérito realizado no Outono, 94% dos portugueses avaliaram a situação do desemprego como “má ou muito má” e apenas 15% pensavam que pode melhorar este ano. E quando se passa para o agregado familiar, a maioria também continua pessimista, embora não tanto como o ano passado.

Só os espanhóis e gregos são mais negativos. Todos da Europa do Sul. Para a investigadora social, os avanços no processo de integração europeia foram mal explicados, quer aos cidadãos da Europa do Sul, quer aos da Europa do Norte. E isso “já teve consequências bem expressas na nova composição do Parlamento Europeu, eleito o ano passado”.

E quanto ao futuro da Europa comunitária? Mais de metade dos portugueses está optimista. E, bem acima da média, por cá os cidadãos inquiridos acham que, da crise, vai emergir uma União Europeia mais justa. Marina Costa Lobo considera que é “mais que tudo, um desejo”, porque os portugueses vêem a Europa como um passaporte para uma vida melhor. Mas também têm que contribuir com maior participação. E há que sublinhar: para os portugueses, Europa  significa sobretudo  liberdade de viajar, estudar e trabalhar na União Europeia, moeda única e diversidade cultural, consideravelmente mais que desemprego, criminalidade ou desperdício de dinheiro.

Dos números para a voz activa
Neste programa, fomos para a rua ouvir o que pensa o cidadão comum da União Europeia. Sobretudo aqueles que viveram no Portugal “pré-CEE” (antes de 1986) e que acompanharam a evolução do país desde então. E o que se verifica é que tanto há quem ache que pertencer à União é essencial para o país, como há quem ache que se vive “muito pior”. Depois há quem ache que o projecto europeu “tem futuro assegurado”, enquanto outros acham que “se nada mudar, a União Europeia morre”.

No estúdio, Maria d’Aires Soares, representante da Comissão Europeia em Portugal, e Francisco Sarsfield Cabral, que ocupou o cargo entre 1991 e 1996, ajudaram a analisar os números e as opiniões.

Maria d’Aires Soares não partilha da opinião de que “a Europa não tem futuro”, mas entende a opinião dessas pessoas, embora critique também um facto: é que “os portugueses não se envolvem, não dão opinião” (como se vê pelas altas taxas de abstenção nas Eleições Europeias). 

Para a Francisco Sarsfield Cabral, a entrada na Europa representou a entrada no “clube dos ricos” e uma grande ajuda na estabilização do regime democrático no nosso país.

Quanto ao desencanto sobre a situação a que chegou o país apesar de pertencer aos 28, a actual representante da Comissão Europeia em Portugal lembra que ao longo destes anos os portugueses “foram recebendo fundos comunitários, mas sem perceber que isso teria de ter contrapartidas”. De resto, parece ser “uma característica dos povos do sul da Europa: culpar a UE pela crise e austeridade”,k até porque têm sido estes os países a apresentar maiores problemas de coesão.

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