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"Condor". Um ensurdecedor silêncio de morte no Sul da América

16 fev, 2015 - 08:52 • José Pedro Frazão (texto) e Conceição Sampaio (vídeo)

João Pina, fotojornalista português itinerante, requisitado pelas principais publicações mundiais, levou dez anos a fotografar a memória visual da Operação Condor. A ave típica dos Andes foi resgatada para uma outra viagem, agora publicada em livro em Portugal, sobre o plano secreto das ditaduras sul-americanas.
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"Condor". Um ensurdecedor silêncio de morte no sul da América

Foram mortes silenciosas. Milhares delas, distribuídas em surdina por seis países da América do Sul, em nome do combate aos opositores das ditaduras militares que regeram Bolívia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Argentina e Chile nos anos 70. Chamaram-lhe Operação Condor, não se sabe como acabou, mas a data de arranque "oficial" é (mais) uma efeméride redonda. Faz 40 anos que foi assinada em Santiago do Chile uma acta para desatar a matar gente dispersa na geografia sul-americana.

João Pina tentou ler tudo sobre o caso. "[Estas ditaduras] tinham um interesse comum. A acta inaugural é um documento extraordinário. O primeiro parágrafo trata dos fundamentos, da 'subversão'. O inimigo comunista era considerado a grande ameaça a estes regimes. A partir de 1975, o projecto intensificou-se ao ponto de haver operações fora deste território. A mais conhecida foi a morte de Orlando Letellier em Washington, o primeiro carro-bomba da história dos EUA. Morreu ele e a sua secretária".

O envolvimento dos EUA na operação é dos pontos mais discutidos. "O que se sabe e se pode provar é que a CIA e os serviços secretos americanos sabiam do 'Condor' desde o seu início. E que Kissinger era informado pelos embaixadores e pela CIA. Sendo secreta, a operação era do conhecimento vasto dos EUA", assegura João Pina.

O fotojornalista diz que não se sabe "nem onde, nem quando, nem se acabou" esta operação desencadeada em seis países que deixaram de ser ditaduras nos anos 80. "Não se sabe se por esmorecimento dos regime ou se por directivas nesse sentido, deixou de haver operações relacionadas com o Condor. O que se pode provar: houve operação até ao final dos anos 70, principio dos anos 80".

No livro, Pina recua até aos anos 60, à "génese da violência política". "E depois continuo até às vidas de hoje, com as exumações de corpos, a procura de desaparecidos e, parte importante, os julgamentos por crimes contra a humanidade dos militares na Argentina".

Cada caso é um caso
O repórter fotográfico português explica que cada país foi lidando à sua maneira com este legado sangrento. "Não uso o 'torturómetro' mas a Argentina, com o maior número de desaparecidos foi um dos países com maior pressão popular, com famílias de 30 mil desaparecidos que continuaram a procurar. A pressão só deu resultados palpáveis a partir do ano de 2004. com anulação de leis de amnistia. No Brasil, só muito recentemente, há dois meses, é que a Comissão da Verdade, formada pela Presidente Dilma, entregou o seu relatório depois de três anos de trabalho. Há países que praticamente nunca tocaram nisto como o Paraguai ou a Bolivia”.

A Argentina funciona como "ponta-de-lança" das investigações sul-americanas sobre a Operação Condor. "Existe em todos os países, com excepção da Argentina, uma lei de amnistia em que os militares não podem ser imputados pelos seus crimes. Mas o caso argentino já está a fazer jurisprudência, para que os sistemas judiciais uruguaio e brasileiro possam pedir aos juízes e procuradores argentinos que investiguem crimes que aconteceram no Uruguai ou no Brasil".

Na Argentina, "que se saiba, os documentos foram mais ou menos todos encontrados, tanto do lado militar como do lado civil os documentos foram sendo encontrados e recuperados". João Pina lembra que só no Brasil houve agora um relatório mas impressionado, só mesmo com o que se passou no Paraguai. "Com mais de 30 anos de ditadura, funcionavam como bons burocratas que tinham tudo muito bem organizadinho. E quando a ditadura ruiu, esqueceram-se que as coisas estavam organizadas e ficaram empacotadas nalgum sitio. Acabaram por ser descobertas por um juiz e por advogado de direitos humanos. É hoje conhecido como o 'o arquivo do terror' em Assunção. É dos mais extraordinários desta época com milhares de fotografias, documentos que provam toda esta operação", conta João Pina.

Sarar estas feridas também varia de país para país. "O caso chileno sempre foi um daqueles em que isto dividiu muito a sociedade. Isso só prova que estas feridas teimam em não sarar. Isto é o denominador comum destes seis países. Enquanto não houver justiça - e esta justiça está a chegar lentamente à Argentina - enquanto as vítimas não tiverem a sensação de que a justiça foi feita, é muito difícil encerrar este capítulo. Isso, aliado ao desaparecimento dos corpos, em que a grande maioria das pessoas não sabe o que aconteceu aos seus familiares, torna isto uma coisa impossível de sanar", reconhece o repórter.

A máquina não perdoa

A "operação Condor" envolveu milhares de operacionais numa máquina cujas ramificações não são totalmente conhecidas. João Pina diz não ter encontrado arrependidos do lado dos autores dos crimes.

"Falei directamente com militares envolvidos na 'operação Condor' e na repressão das ditaduras no Brasil. Por exemplo, Sebastián 'Curió' não mostrou arrependimento, diz que as coisas deviam ter sido feitas de forma diferente, mas que, dadas as circunstâncias e as ordens que tinha recebido, foram assim. Na Argentina não falei directamente com nenhum militar envolvido, mas ouvi os julgamentos e todos continuam a repetir aquele que é o dogma oficial, que estavam a lutar contra a subversão. E ou eram eles ou eram os subversivos que iam a ganhar esta guerra".

Quando a máquina fotográfica apontou aos rostos dos sobreviventes ou familiares de vítimas, João Pina encontrou "tristeza e injustiça", mas ao mesmo tempo olhares de "grande dignidade e força". E os rostos que não vemos? "Existe uma imagem dos militares a esconder os rostos. Sabia que à minha frente estava a acontecer uma coisa extraordinária. Os todo-poderosos militares insultavam-me e escondiam as caras atrás de cadernos e mãos".

Casos semelhantes

João Pina, quase 35 anos e muitos quilómetros pelo mundo a retratar vidas difíceis, encontrou neste projecto a continuação do seu livro sobre a memória histórica e a violência política em Portugal ("Por teu livre pensamento", 2007).

"Entrei neste tema quando nasci. Sou neto de presos políticos, nada do que me contavam era alheio a mim". Há dores que são as mesmas? "Sim, mas com reflexos muito diferentes. A ditadura portuguesa foi a mais longa da Europa Ocidental. Esta falta de questionamento interno, a crítica em voz baixa, é para mim o reflexo da ditadura. Isso também se verifica noutros países. Quem passa por prisões, tortura, fica com traumas muito profundos. Isso é visível em Portugal, como na América do Sul".

Hoje, na Argentina, o tema continua a ser a acção de estruturas de segurança obscuras. As notícias são dominadas pelo caso Nisman, nome do procurador morto dias antes de uma acusação dirigida à presidente Kirchner por alegado envolvimento em negócios pouco claros com o Irão.

Está tudo na mesma? "Não, porque há 30 anos ninguém poderia falar disto. Haveria censura e o risco de mais alguma pessoa desaparecer. Mas é um facto que existem, na Argentina, estruturas secretas, usadas para a repressão dos anos 70, que continuam minimamente intactas e organizadas e que, de vez em quando, com intuitos muito pouco transparentes, actuam. Aconteceu em 2006 com o desaparecimento de Julio Lopez, que era testemunha importante no processo de um antigo campo de concentração na ditadura. O sistema judicial argentino é bastante independente, é muito diferente do de antigamente".

O livro "Condor" acaba de ser divulgado igualmente em Espanha, na presença de Baltazar Garzón, juiz envolvido nas investigações aos crimes cometidos na ditadura argentina e que assina o pósfacio do livro de João Pina.
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