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Opinião de Filipe d'Avillez

Abusos na Igreja: o detalhe que pode passar despercebido

14 set, 2018 - 16:42

Pode-se falar de estatísticas, mas sem nunca perder de vista que cada vida dilacerada e ferida - ou perdida - por estes atos tem um valor infinito. Mas neste caso particular, as estatísticas também são importantes.
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As revelações que têm sido feitas sobre abusos na Igreja Católica são assombrosas.

Não falo apenas dos números. Eu li muitas das descrições feitas por vítimas. Não me atrevo a repeti-las aqui, não há palavras para as definir. Não estamos a falar apenas de homens fracos que cederam a momentos de tentação, mas sim de pessoas de coração e alma absolutamente corruptos, que abraçaram o seu pecado e o seu crime e fizeram àquelas crianças ou jovens coisas que para além de nojentas são blasfemas.

Pode-se falar de estatísticas, mas sem nunca perder de vista que cada vida dilacerada e ferida - ou perdida - por estes atos tem um valor infinito. Mas neste caso particular, as estatísticas também são importantes. Explico porquê.

Peguemos no relatório feito na Pensilvânia. Os investigadores determinaram que pelo menos 300 padres praticaram abusos sobre milhares de crianças ao longo de sete décadas. Escandaloso e profundamente triste. Mas há um dado importante a reter. Desde 2002 só houve dois casos conhecidos e estes foram de imediato relatados pelas dioceses às autoridades.

O que é que aconteceu em 2002? Foi o ano em que os bispos americanos, a recuperar da primeira vaga desta crise, adotaram a Carta de Dallas, que estabelece precisamente os critérios e as medidas a adotar para estas situações, impondo maior transparência e obrigando a uma colaboração estreita com as autoridades civis.

Convém recordar que, por mais tristes que sejam as revelações que têm sido feitas, a esmagadora maioria não diz respeito aos tempos recentes ou, como no caso McCarrick, não dizem respeito a abusos de crianças, mas sim de abuso de poder sobre jovens adultos. É mau na mesma, mas é um problema diferente.

Isto parece indicar que nos EUA, pelo menos, as diretrizes adotadas pela Igreja estão a resultar. Isso não reduz a gravidade dos outros factos, mas dá-nos um sinal de esperança. A Igreja poderá ter estancado a hemorragia, agora está a passar pela fase difícil e dolorosa de encarar a dimensão dos estragos que, entretanto, foram feitos.

Esta semana, surgiram ainda novos dados sobre a Alemanha. Também nos últimos 70 anos houve perto de sete mil casos de abusos. Mas, neste caso, o relatório não foi tornado público, foram apenas divulgados pela imprensa estes números gerais, pelo que falta perceber se a adoção de diretrizes pelas dioceses alemãs tem ou não resultado. No dia 25 de setembro, os bispos apresentarão o relatório que eles mesmo encomendaram e, aí, poderemos saber melhor.

Mas, por enquanto, parece haver esperança. As diretrizes, se forem seguidas de forma rigorosa, funcionam e impedem os maus padres – que tragicamente, julgo, sempre haverá - de continuar a causar estragos.

Portugal também tem diretrizes, adotadas em 2012. Até agora, salvo alguns casos raros, o nosso país tem passado ao lado desta tempestade. Esperemos que essa tranquilidade não seja apenas aparente e que os nossos bispos estejam a aprender com os erros dos outros, nunca colocando a reputação de pessoas, ou da instituição, acima da proteção dos mais vulneráveis.

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  • Ana Margarida Crespo
    14 set, 2018 Lisboa 17:09
    Um artigo delicado sobre um tema insuportável. Que nos deixa uma janela de esperança. Alguém diz que Churchill disse: Se estiver a atravessar o Inferno, não páre. É este o estado em que estamos, a atravessar o Inferno. Não paremos então até chegar ao fim e recomeçar já fora dele.