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​Entre a tristeza e a confiança. Como os católicos vêem a crise na Igreja

11 set, 2018 - 06:30 • Ana Catarina André

Preocupação e tristeza, mas também fidelidade e esperança numa Igreja mais transparente e justa. A Renascença ouviu padres e leigos sobre a crise motivada pelos abusos sexuais cometidos pelo clero e que tem levantado críticas ao Papa Francisco. Há quem receie um cisma.
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Quando Isabel Fragoso, de 64 anos, soube que o Papa Francisco tinha mostrado “vergonha” pela incapacidade da Igreja em enfrentar os abusos sexuais cometidos pelo clero, pedindo normas rigorosas no futuro, ainda se questionou. Estaria de acordo com Francisco apenas por se tratar do Papa? Depois percebeu que não era bem assim.

“Ao longo da minha vida passei pelos pontificados de Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI. Umas vezes concordava mais, outras menos. Agrada-me as decisões e o perfil do Papa Francisco”, diz a paroquiana da Estrela, em Lisboa. “Só tenho de lhe tirar o chapéu. Não teve medo do escândalo, do poder cardinalício. Sempre achei que os problemas são para se enfrentar e não para varrer para baixo do tapete”.

Isabel Fragoso está em Fátima a participar no Encontro da Pastoral Social, a ‘Igreja Hospital de Campanha’, como lhe chama Francisco. Apesar dos escândalos continua empenhada em aprofundar a sua formação.

No mesmo local Odete Alves, colaboradora no secretariado da Paróquia de Santa Maria Maior, em Chaves, vê na atitude do Papa “uma Igreja que quer sair da redoma e mostrar-se frágil, como sempre foi”. “Quem tem fé, quem tem plena convicção daquilo que vive, não fica abalado”, diz a gestora de uma plataforma de serviços virtuais.

A poucos metros dali, no Centro Pastoral de Paulo VI, 450 sacerdotes estão reunidos no Simpósio do Clero. Vicente Nieto Moreno, formador no seminário de Évora, é um dos participantes. Teme o impacto da actual crise nos fiéis, no Papa e na Igreja.

“Regressei de férias. Tive uns dias muito bons, mas estou triste com estas notícias de Boston, da Irlanda. Estamos a passar por um período de purificação que oxalá traga frutos positivos”, diz, sublinhando que, em 51 anos de sacerdócio, nunca teve conhecimento de casos de abuso nos países por onde passou (Portugal, Espanha, México, Alemanha e Angola). Antes da visita do Papa à Irlanda, foi divulgado um relatório que concluiu que os abusos no estado da Pensilvânia, nos EUA, atingiram mais de mil vítimas ao longo de 70 anos.

“Gestos audazes” para erradicar situações de abuso

O padre Sérgio Leal, da diocese do Porto, partilha a questão que mais o inquieta neste momento: como é que homens, que diariamente celebram a eucaristia, que rezam e que se confrontam com a Palavra de Deus, cometem crimes tão hediondos e horrendos?

Para o sacerdote, o Papa tem enfrentado o “drama dos abusos com humildade” e, tal como Francisco, reclama novos caminhos para a Igreja: “Seria muito pouco ficar por um pedido de desculpas. Existem normas concretas e específicas, mas precisamos também de um desejo de uma transparência cada vez maior. Isto pode assumir gestos audazes de quem quer erradicar e pôr a claro o passado, mas também outras situações que porventura possam estar escondidas”.

Sérgio Leal, de 33 anos, está a estudar Teologia Pastoral em Roma, onde fez uma formação com o padre jesuíta Hans Zollner, membro da Pontifícia Comissão para a Protecção dos Menores.

“Parece-nos que a comissão é muito lenta e faz pouco, mas há muito trabalho que não vem a público. A comissão devia apresentar o seu trabalho ao povo de Deus”, defende.

Além dos encontros regulares do Papa com as vítimas, que decorrem “com o anonimato que estas coisas exigem”, estão a ser feitos vários estudos sobre pedofilia no contexto eclesiástico. “O fenómeno tem contornos específicos que têm a ver com a nossa formação afectiva e relacional, com a nossa formação para o celibato sacerdotal e, porventura, com a não formação que possa acontecer. Não creio, no entanto, que isto ponha em causa o celibato, mas a formação para ele”, diz Sérgio Leal.

A Comissão para a Proteção de Menores teve uma reunião plenária, que terminou no domingo, e no fim da qual o cardeal Sean O’Malley disse que a prevenção de abusos tem de ser uma prioridade da Igreja.

Há mais clericalismo entre seminaristas

O padre Manuel Henrique, formador no seminário de Leiria, tem na equipa que acompanha os rapazes mais três padres, mas também dois casais, uma psicóloga, uma freira e um rapaz de 30 anos que passou pelo pré-seminário.

“Temos este conjunto de pessoas para termos capacidade de ler os miúdos e para que tanto eles, como os pais, se sintam seguros e percebam que de facto os queremos ajudar.” E cita uma das conferências do Simpósio em que está a participar. “Como dizia D. António Couto, o padre não é a estola, a casula ou a alva. O padre é aquilo que é no seu interior. É essa fidelidade que Deus nos pede: que mostremos aos miúdos que ser padre vale pelo que se é”.

Muitos, no entanto, chegam aos seminários com uma mentalidade clerical, diz o padre Vicente Nieto Moreno: “existe mais clericalismo nos seminaristas actuais do que nos próprios formadores”.

Na Carta ao Povo de Deus, divulgada a 20 de agosto, o Papa condena, precisamente, este tipo de comportamento, referindo que só poderá haver uma verdadeira conversão com o envolvimento de todos (leigos e consagrados). "Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo", escreveu Francisco.

Sérgio Leal define o clericalismo como “uma visão errada do ministério sacerdotal” que “deixa de ser entendido como um serviço e passa a ser encarado como uma posição de superioridade face ao outro”. Mas não são só os padres e bispos que alimentam este tipo de atitude, sublinha. Os leigos também têm responsabilidade. “É muito mais fácil dizer: ‘o sr. padre é que sabe. O sr. padre faça’. E viver nesta postura do padre como aquele que manda e não como aquele que guia”.

O padre Manuel Henrique garante que na diocese de Leiria há muitos leigos a trabalhar: “ninguém quer tirar o lugar do padre, o lugar do bispo. Agora o padre e o bispo também não têm de tirar o lugar aos leigos. É fundamental darmos aos leigos o lugar que lhes é merecido para que a Igreja possa ser Igreja”.

Um ataque dos ultraconservadores?

Depois da visita à Irlanda, o Papa foi acusado pelo ex-núncio apostólico do Vaticano nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò, de ter conhecimento das denúncias de abusos sexuais há pelo menos cinco anos.

Para Isabel Fragoso, paroquiana de Lisboa, trata-se de uma “tentativa de cisma” que a deixa apreensiva. “Estou cada vez mais preocupada com esta deriva ultraconservadora. Existe a ‘Igreja dos Príncipes’ que se opõe à ‘Igreja do Povo de Deus’ e não gosto nada disso”.

Apesar de se tratar de um grupo pequeno, teme pelo “fanatismo, orgulho e grande ego” com que actuam. “Não vejo que a ‘Igreja dos Príncipes’ que é tão apanágio dos clericalistas e ultraconservadores, cheios de rendas, capas magnas, sapatos de seda, fitas e ornamentos capilares aproxime alguém”, diz.

Recentemente, esteve em Portugal o cardeal norte-americano Raymond Burke, considerado o líder do sector ultraconservador, tendo sido divulgadas várias imagens do prelado a usar vestes litúrgicas cheias de rendas e a desfilar em Fátima com a ‘magna capa’, uma capa vermelha muito longa.

Isabel Fragoso, que tem visto alguns elementos da família, sobretudo os mais novos, enveredarem por esta ala conservadora, vai mais longe nas críticas: “Luís XIV andava vestido assim, porque era a moda da época e, naturalmente, os ‘Príncipes da Igreja’ seguiriam a tendência. Agora imagine se o meu marido andasse vestido como Luís XIV e eu andasse como a Marquesa de Montespan. Seria um bocadinho estranho. Só para o teatro – e de revista, provavelmente”.

Apesar de preocupada, está confiante na atitude do Papa e aproveita para fazer um trocadilho: “hoje recebi uma mensagem que dizia que os padres são como os aviões: há milhões deles todos os dias no céu e só se fala no que cai”.

Entre fiéis, sejam leigos ou consagrados, a atitude parece ser de esperança. Para o sacerdote José Pinheiro, pároco da Cova da Piedade, na diocese de Setúbal, este é um “momento para a Igreja se centrar mais em Jesus”. E põe o ónus nos média: “estes temas têm maiores proporções devido à comunicação social que nunca esteve tão presente na vida”.

Já o diácono permanente e vice-presidente do Centro Social Paroquial de Torres Vedras, Joaquim Cruz, sublinha a oportunidade de renovação. “Quanto mais o Papa luta por uma Igreja transparente, mais cristão atrai”.

Mas há quem não tema o afastamento de alguns. Maria José Franco, de 72 anos, da Paróquia do Campo Grande, em Lisboa, não tem dúvidas: “Mais vale sermos poucos, mas coerentes e sérios”.

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