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A conversar “dois anos à janela"

05 set, 2018 - 22:57 • Olímpia Mairos

Na Igreja há vários movimentos e serviços que são pontes entre as paróquias e os que mais precisam.
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Na semana em que a Pastoral Social está reunida em Fátima, a refletir sobre se “a paróquia ainda é um lugar de proximidade”, a Renascença dá-lhe a conhecer alguns serviços que primam pela “proximidade no cuidado do outro”.

Ana Rute dos Santos, professora de Educação Moral e Religiosa Católica, faz parte da Associação de Visitadores dos Estabelecimentos Prisionais de Leiria, “Os Samaritanos”.

A missão de visitar os reclusos é um compromisso com mais de 23 anos. E o desafio, segundo Ana Rute é “olhar para eles como Cristo, olhar para o mais fraco, o mais marginalizado, porque, de facto, ninguém quer estes rapazes”.

“São poucos os que se querem aproximar destes reclusos”, constata, realçando que os visitadores procuram aproximar-se “com um grande amor, como o samaritano se abeirou do homem caído, com um coração aberto”.

“É um privilégio trabalhar com a população prisional. Para nós são pessoas, com nome, com rostos, com histórias de vida muito difíceis. Mas são pessoas e é isso que é preciso primeiramente trabalhar”, conta à Renascença.

Ana Rute refere que a missão dos visitadores “é gratificante” e sublinha que no trabalho que desenvolvem têm “acesso a um lado humano dos reclusos que mais ninguém tem, nem os serviços prisionais nem os guardas que estão com eles”.

“Para nós eles não têm máscaras, são o que são enquanto pessoas, enquanto seres humanos. Connosco eles não têm reservas. E são seres humanos fantásticos que tiveram percursos de vida diferentes dos nossos que os levaram à situação onde eles se encontram”, conta.

Além da visita e acompanhamento dos reclusos, a associação preocupa-se também com a integração na sociedade daqueles que saem da prisão e querem refazer a vida.

“Procuramos que estas pessoas possam, depois, ser integradas na sociedade, porque são, de facto, pessoas com muito valor. Temos pessoas que saíram, trabalham, arranjaram família e são um incentivo para os outros”, conta.

A leiga da diocese de Leiria-Fátima refere “alguns casos de sucesso, de pessoas que mudaram a vida delas e que mudaram a vida dos outros, com o seu testemunho”.

Servir e integrar as pessoas portadoras de deficiência

A comemorar 25 anos de existência, A Casa de Betânia, pequenas comunidades para pessoas com deficiência, promove o espírito de família, a integração no trabalho e na sociedade de pessoas com deficiência.

A irmã Maria João Vieira Neves conta que têm atualmente “três residências e uma quarta, que já existe, mas ainda não tem autorização de funcionamento”. O objetivo é “dar uma resposta não só a deficiência como ao envelhecimento”.

“Trabalhamos com pessoas com deficiência de idade adulta, dos 18 aos 50, mas já recebemos com mais de 50 anos. Pretendemos integrá-los num ambiente familiar, que significa criar condições a pessoa que, por alguma razão, perderam os seus familiares, os pais, particularmente, com quem viviam. Procuramos integrar pessoas que foram retiradas à família por razões sociais diversas, pessoas que não podem ser acompanhadas pelos seus familiares”, explica.

O trabalho d’ A Casa de Betânia contempla 22 pessoas, em casas de cinco, oito e nove pessoas. Uma na área de Oeiras e duas em Queijas.

“Temos um grande grupo integrado em diversas tarefas, procuramos a sua autonomia, acompanhado aqueles que pela sua idade vão perdendo capacidades, recriando novas situações de vida”, conclui a irmã Maria João.

Estar com de quem mais precisa

Na paróquia de Santa Isabel, no Patriarcado de Lisboa, o “Projeto +Próximo” é a ponte entre a paróquia e os mais sós, os que precisam de companhia, de uma palavra amiga.

“Foi um grande desafio que o pároco de Santa Isabel me fez. Aceitei, mas referi a necessidade de uma equipa interdisciplinar. Conseguimos duas voluntárias técnicas, uma terapeuta ocupacional e uma psicóloga, criamos uma equipa e começamos com a formação inicial a voluntários”, conta à Renascença a irmã Maria Teresa Fonseca, coordenadora do projeto.

Atualmente existem 12 voluntários e 16 pessoas a serem acompanhadas. Os casos, situações de necessidade, são sinalizados através de várias instituições. Os voluntários só partem para o terreno após formação.

Rui Soares Franco, de 69 anos, reformado, é um dos voluntários do “Projeto +Próximo” e sublinha que este “visa apoiar pessoas isoladas e essencialmente o combate à solidão”.

“Há uma diversidade muito grande de pessoas, cada uma com as suas carências, cada uma com as suas necessidades e nós procuramos dar uma resposta num espírito de missão, de amor para com o próximo”.

Rui conta que assume a missão “com muito gosto” e que esta resulta “de uma educação familiar muito virada para os outros e isto começa na família”. “E, neste momento, como pai e como avô, tento também fazer isto com os meus filhos e com os meus netos, transmitindo essa solidariedade e este espírito de missão”, conclui.

Leonor Pereira dos Santos, economista reformada, começou a sua missão “com uma senhora que vivia numa cave sozinha”.

“Criou-se uma relação profunda entre nós, apesar de ela estar à janela e nunca me abrir a porta de casa. Mas eu fui passando dois anos no passeio e ficando a falar cada vez mais tempo. A senhora foi-se abrindo e cada vez mais feliz. Nunca cheguei a entrar em casa, mas sinto uma relação profunda com ela. Depois, com a ajuda do projeto, foi encaminhada para um lar. Foram dois anos muito ricos”, conta à Renascença.

A leiga da paróquia de Santa Isabel destaca a “grande troca de experiências” entre todos os voluntários e o “clima de verdadeira amizade”.

“Encaramos esta missão como algo muito natural. Esta coisa de nos voltarmos para os outros é a coisa mais natural que pode acontecer. Não fazemos mais do que aquilo que Cristo fez por nós”, refere, concluindo que “ainda há um grande caminho a percorrer, mas estes pequenos passos fazem de nós pessoas mais felizes”.

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