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Igreja tem de encontrar "respostas diferentes" das do passado, diz novo arcebispo de Évora

30 ago, 2018 - 10:43 • Rosário Silva

D. Francisco Senra Coelho tem a entrada solene na arquidiocese de Évora no domingo, dia 2 de setembro.
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O novo arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, diz que a realidade dos nossos dias, nomeadamente o factor "mobilidade", obriga a Igreja a encontrar "respostas diferentes" das do passado.

“Não somos mais uma Igreja marcada por um ritmo rural, onde as pessoas estão fixas. Esta mobilidade exige respostas diferentes da Igreja e é necessário acompanhar uma sociedade urbana e muitíssimo em mobilidade”, afirma D. Francisco, a poucos dias da sua entrada solene como arcebispo de Évora, em entrevista à Rádio SIM.

D. Francisco José [Senra Coelho] sucede a D. José Francisco [Sanches Alves] aos 57 anos de idade, um tempo de vivência acumulada em diferentes países e regiões: de Moçambique a Portugal e, aqui, do Minho para o Alentejo, onde regressa, depois dos últimos quatro anos, em Braga, como bispo auxiliar. “Foi muito bom”, confessa, recordando uma região de “progresso e desenvolvimento”.

A vivência que classifica de “Igreja sempre em saída” serve de molde ao trabalho que pretende desenvolver na arquidiocese de Évora. “O contacto pessoal, a mão na mão, os olhos nos olhos, é insubstituível”, sublinha, explicando, todavia, que o conceito de “Igreja em saída é mais amplo, é uma Igreja que não se aceita cristalizada, que não se aceita repetitiva e que corre o risco de assumir o novo desafio de uma nova maneira de estar".

“Este gesto de Igreja em saída não se conforma com atitudes de comodismo, de instalação, de uma Igreja que se torna obsoleta. A Igreja em saída é uma Igreja sempre em reflexão, em discernimento, que se confronta, que não se auto contempla, mas que olha para o mundo e se pergunta como há-de servi-lo”, enfatiza.

"Peugada laical"

O Papa Francisco nomeou D. Francisco Senra Coelho como o novo arcebispo de Évora, sucedendo a D. José Alves, na diocese desde 2008, a 26 de Junho. Nas declarações posteriores, o novo arcebispo sublinhou a importância que dá “à peugada laical e à proximidade com as pessoas”, dando o mote para o seu pontificado.

“Não venho fazer nada de radicalmente novo”, assegura, mas “quando falo da peugada laical, estou a falar numa pastoral da família, numa consciência muito profunda do ser Igreja de todos os cristãos e de saber apreciar o dom dos presbíteros”.

Numa diocese envelhecida e despovoada, D. Francisco Senra Coelho defende, por outro lado, uma “pastoral de proximidade” que vá ao encontro das pessoas que estão sozinhas.

“Nos 34 anos que aqui estive, ouvi pessoas dizer 'a solidão apega-se-me à alma'”, conta. “É necessário que cada paróquia compreenda que a nossa evangelização começa por aí, pelo encontro pessoal, pela humanização, que há-de depois gerar, no íntimo da amizade e da confiança, a partilha do tesouro que é a Fé. Portanto, a peugada laical e a proximidade devem fazer parte da nossa gramática de evangelização e de missão”, destaca.

Novo ano pastoral com “gramática” direcionada para o Ano Missionário

Em abril deste ano, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), em Assembleia Plenária, aprovou a nota pastoral "Todos, Tudo e Sempre em Missão" e a celebração de um Ano Missionário, com inicio já em outubro deste ano, para culminar em outubro de 2019, com o "Mês Missionário Extraordinário"». Foi assim declarado pelo Papa Francisco para assinalar o centenário da Carta Apostólica "Maximum Illud", do Papa Bento XV. A dimensão missionária vai, então, estar presente em muitas iniciativas pastorais diocesanas e nacionais ao longo do Ano Missionário e a arquidiocese de Évora não fica de fora. Aliás, o Plano Pastoral 2018/2019 intitula-se “Discípulos Missionários”.

O documento já foi lido e estudado por D. Francisco que, com satisfação, afirma ser um plano que vai “incrementar” uma atividade missionária já presente nas comunidades, ao mesmo tempo que “suscitará novas formas de missão a partir da criatividade” dos cristãos.

Entre os desafios do próximo ano pastoral, o prelado avança com a possibilidade de “criação de um Centro Missionário Diocesano para coordenar os Centros que vão nascer nas comunidades, nomeadamente os Grupos Missionários Paroquiais” e “uma preocupação de gerar uma dinâmica de partilha das experiências missionárias” utilizando a página da internet da arquidiocese”.

“Este é o meu programa e tudo farei por me inserir, por colaborar, por entusiasmar, por dinamizar na minha missão de bispo desta arquidiocese”, garante, não escondendo a vontade de promover o cruzamento entre a proposta missionária e uma religiosidade popular ainda muito marcante nos Santuários diocesanos.

“Os Santuários marianos e cristológicos, como seja o Senhor Jesus da Piedade, em Elvas, e o Senhor dos Mártires em Alcácer do Sal”, exemplifica, “são pontos de encontro e eu vou tentar ler, nos sinais dos tempos, aquilo que o Senhor me pede”.

Para o arcebispo de Évora a religiosidade popular não pode ser esquecida. “Será importante partirmos também para o encontro com o povo de Deus, aqueles que estão fora da Igreja, fora do adro da Igreja, mas que têm uma dimensão cultural, uma fé herdada, uma referência ética aos valores cristãos. E gostaria de pensar como poderemos aproveitar esta dimensão para enriquecer ainda mais e levar para lá dos nossos adros a mensagem missionária deste ano”, conclui.

Com uma população a rondar as 278 mil pessoas, a arquidiocese de Évora cobre um vasto território de mais de 13 mil quilómetros quadrados. 95% dos habitantes assumem-se católicos. Há 156 paróquias servidas por centena e meia de sacerdotes, diocesanos e de congregações religiosas.

A entrada solene de D. Francisco José Senra Coelho na arquidiocese está marcada para o próximo domingo, dia 2 de setembro, pelas 17h00, na Catedral eborense.

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