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Portugueses na Venezuela confusos com reconversão monetária

27 ago, 2018 - 14:12

Introdução de nova moeda não está a conseguir travar a hiperinflação.
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Uma semana depois da entrada em vigor do novo plano económico, com a circulação do bolívar soberano (Bs.S), os portugueses continuam a fazer contas para perceberem o valor dos produtos que, dizem, aumentaram desproporcionalmente.

No passado dia 20 de agosto entrou em vigor na Venezuelana uma reconversão monetária que eliminou cinco zeros do bolívar forte (BsF) e pôs em circulação o bolívar soberano.

"Fazer o câmbio (reconversão) continua a ser difícil tanto para as pessoas como para os comerciantes. As pessoas agarram os produtos e vão à máquina leitora de preços e tentam fazer as contas entre o preço de antes e o de agora. Para nós as novas faturas chegam têm novos preços, mais caros e há produtos que chegam a estar na prateleira com dois valores diferentes", explicou um comerciante à agência Lusa.

Proprietário de uma mercearia em Caracas, Juan Fernandes, 65 anos viu "compras impulsivas e quase que se poderia dizer injustificadas" ao longo da semana, sobretudo "porque as pessoas querem proteger-se da inflação" e referiu como exemplo a margarina e o óleo vegetal que esgotaram.

"Há também muita maior procura de ovos que acabaram, porque as pessoas querem açambarcar", explicou.

Outra portuguesa, Manuela de Rodrigues, doméstica de 55 anos, disse que ainda tem dificuldades em "fazer as contas e entender a reconversão".

"Foram muitos zeros que tiraram, mas na prática, os preços estão muito superiores aos de antes. Depois da reconversão fui ao supermercado e ao ver tão poucos números nos preços fiquei com a sensação de que podia comprar mais coisas, mas ao chegar à caixa percebi que estava enganada. O cartão 'não passou' porque não tinha dinheiro suficiente (na conta) e tive que deixar algumas coisas", lamentou.

Segundo esta portuguesa, "a hiperinflação está a devorar os salários que só vão entrar em vigor a partir de 1 de setembro" e como exemplo refere que no sábado, antes da entrada em vigor do novo plano económico, comprou um quilo de batatas a 20,00 Bs.S (0,28 euros à taxa oficial após a reconversão) e agora custa 25,00 Bs.S, (0,35 euros), ou seja aumentou 25% numa semana.

Meio quilo de café, que tinha pago por 86 BsS (1,02 euros) custa agora 140 Bs.S. (1,96 euros), disse ainda.

"Os números parecem pequeninos, insignificantes, mas o salário mínimo continua a ser de 59,00 Bs.S (0,82 euros). Só quando for publicado na Gazeta Oficial é que receberemos o grande aumento que foi anunciado, 1.800 Bs.S (25,20 euros)", frisou.

Vários comerciantes portugueses disseram à agência Lusa que nos últimos dias devolveram vários produtos, porque "os preços de custo estavam por cima do autorizado pelas autoridades"

"O Governo venezuelano estabeleceu preços máximos de venda ao público para os produtos básicos. Se compramos esses produtos a preços altos e somamos as margens legais de lucro, podemos ser sancionados. Então optamos por fazer a devolução", explicou o gerente de um supermercado de portugueses.

Mas, além dos preços, tanto comerciantes como clientes queixam-se ainda da falta de notas em circulação, porque as caixas multibanco disponibilizam apenas duas notas de 5,00 Bs.S (por dia e até 40 Bs.S mensais) e que, quando se justifica, não há como devolver o troco.

"Ao balcão também só podemos levantar 10,00 Bs.S e em muitos sítios os terminais de pagamento não funcionam como devem ser, ou demoram muito a processar, o que origina longas filas", explicou também à Lusa um lusodescendente.

José Manuel Nunes, 30 anos, explicou à Lusa que ficou no domingo mais de "três quartos de hora" na fila à porta de uma sucursal da rede de Supermercados Plaza (propriedade de empresários portugueses) para pagar dois litros de leite, algumas batatas e cebolas.

"Neste país, fazer qualquer coisa, transformou-se num desafio constante. Falta a luz, a água, o gás. Há dificuldades para conseguir (alguns) produtos básicos alimentares e medicamentos. As comunicações são péssimas e até apanhar o autocarro é uma odisseia porque muitos estão paralisados por falta de peças. Tudo está cada vez mais caro e tem menos qualidades", frisou.

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